Riscos do mundo pós-Uber

Apps nem sequer se consideram patrões. São plataformas, meros intermediários

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2017 | 05h00

Mark Graham é geógrafo da internet. Se a profissão parece estranha aos ouvidos, a de seu companheiro de trabalho é pior. Joe Shaw é arquivista da internet. Profissões de todo novas – e ambos trabalham em Oxford, a segunda universidade mais antiga do mundo. (A de Bolonha, na Itália, é mais velha oito anos, coisa que, quase 11 séculos depois de suas fundações, não faz lá tanta diferença.) Pois o geógrafo e o arquivista da rede estão justamente preocupados com trabalhos criados no mundo digital. E eles recolheram razões o suficiente para sustentar esta preocupação.

Saiu na segunda-feira um livreto editado por ambos chamado Towards a Fairer Gig Economy – “gig” é gíria para trabalho, ou biscate. Mas a tradução melhor seria “Em busca de uma economia cooperativa mais justa”. Aqui no Brasil, chamamos assim os empregos criados por este mundo de apps do qual o Uber é o símbolo mais conhecido.

No papel, o conceito é bonito: de um lado, gente interessada num tipo de serviço, do outro quem está disposto a propiciá-lo. O aplicativo junta os dois e todo mundo se dá bem. Na prática, é mais complicado. E o Uber é o melhor exemplo do por quê.

No primeiro momento, junta um número grande de motoristas, no segundo parte para conquistar mercado dos táxis. Faz isso cobrando barato. Aí outros aplicativos surgem, vira uma competição, desce os preços. O motorista que estava acostumado a fazer um determinado valor por mês tem de trabalhar mais. Então a turma do aplicativo exige carros mais bacanas – e, para se manter naquela faixa de ganho, o motorista tem de gastar mais dinheiro.

Um motorista do Uber citado pelo estudo dos professores trabalhava dirigindo ônibus de pista no Aeroporto de Seattle ganhando US$ 9,45 por hora. Quando o app surgiu, prometia ganhos de até US$ 35 por hora. Ele largou o que tinha e se meteu no inferno. As mudanças de regra contínuas, os investimentos constantes, tornaram sua vida um inferno contábil no qual não tinha clareza de quanto fazia. Ao fim do ano, um contador o ajudou no imposto de renda. Em média, ganhou US$ 2,45 por hora.

Aplicativos, dizem os professores, não são más ideias. Eles de fato têm o potencial de criar novos mercados. Nestes tempos de reforma trabalhista, certos setores da esquerda se acostumaram a dizer que os ganhos dos anos 1930 estão indo para o ralo. É um exagero. Em 1930, crianças trabalhavam turnos noturnos de 12 horas nas fábricas paulistanas e feitores batiam nas que dormiam. Houve um marco civilizatório instaurado.

‘Parceria’. Mas, no mundo apps, há riscos reais. Mudanças no ganho, por exemplo, não saem de negociações entre trabalhadores e patrões. Até porque os apps nem sequer se consideram patrões – são plataformas, meros intermediários. E, por trás desta máscara, mexem quando bem entendem nas regras e abocanham porcentuais que chegam a 35 ou 40% da renda.

Já há experiências com greves. Uma ocorreu justamente em Seattle, com motoristas do Uber, que pararam em fevereiro de 2015. E, embora seja apenas uma plataforma e não patrão, o Uber sentou-se à mesa, negociou, e reverteu uma derrubada de tarifa que havia imposto. A outra foi em Londres, com mensageiros do Deliveroo, um aplicativo que facilita entregas.

Há outras experiências distintas: nos EUA, o app Up & Go liga quem presta serviços de faxina a clientes possíveis. É uma cooperativa que cobra apenas 5% de comissão e no qual todos têm voz. Ainda é cedo para dizer se funciona. Mas estão em busca de fazer que a economia cooperativa, como a chamamos aqui no Brasil, torne-se, de fato, cooperativa.

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