Roubini: ainda vejo recessão nos EUA; PIB deve cair 1% em 2008

Economista disse que Fed poderá cortar os juros para 3% nos próximos 12 meses, mas que "será um pouco tarde"

Luciana Xavier e Cynthia Decloedt, da Agência Estado,

14 Novembro 2007 | 14h09

O economista Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova York e ex-conselheiro do governo Bill Clinton, mantém-se muito pessimista em relação à economia norte-americana e acredita que levará muitos anos até a economia se recuperar da crise iniciada no setor de crédito imobiliário, o subprime. "Eu acredito que já na primeira metade de 2008 os Estados Unidos estarão em plena recessão", afirmou.   - Ouça a entrevista de Nouriel Roubini   Em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, Roubini, cujo blog é um dos mais lidos no mundo das finanças e que se notabilizou por suas projeções mais negativas, disse que o último trimestre deste ano deve ter crescimento abaixo de 1% e que os três primeiros trimestres de 2008 terão crescimento negativo. Segundo Roubini, mesmo que haja uma leve recuperação no último trimestre, o PIB norte-americano deve encerrar com queda de 1% no ano que vem. Para Roubini, não há nada que possa evitar esse cenário desastroso, nem mesmo uma ação intensa do Federal Reserve no relaxamento monetário. "Acredito que o Fed ainda vai cortar muito mais os juros. Vai cortar em dezembro, em janeiro, em março e vai continuar cortando, uma vez que a economia está caminhando para uma recessão", disse. Segundo ele, as taxas dos Fed Funds poderão cair para 3% em um ano, a partir de agora. "Mas aí será um pouco tarde", ressaltou. Atualmente, os juros estão em 4,50%, após dois cortes consecutivos pelo Fed. Roubini disse que o Fed se mostra resistente em continuar com os cortes de juros, mas será forçado a isso diante de uma economia que desacelera rapidamente, com a recessão no mercado imobiliário e crise de crédito cada vez piores, com o preço do petróleo perto de US$ 100 e com a economia dando sinais de recessão. "Mas eles (Fed) não serão capazes de evitar a recessão. Eles apenas colocaram um piso para ela", comentou. Roubini disse que, com o excesso de oferta no mercado de imóveis, de produtos de bens duráveis, automóveis e veículos automotores, os cortes de juros não servirão para restaurar o crescimento da economia. "Isso porque os principais setores produtivos ficarão insensíveis à política monetária. Há tanta confusão no setor de hipotecas, de crédito e há tanto excesso de oferta de imóveis, que as taxas de juros não estão fazendo muita diferença", analisou. Subprime Para o economista Nouriel Roubini, a crise engatilhada pelo setor de hipotecas subprime, as de mais alto risco, não teve seu pico em agosto, ao contrário do que muitos analistas afirmam. "Estamos apenas no começo de muitas fases de turbulência financeira. As coisas ainda vão ficar bem piores", afirmou o ex-conselheiro da Casa Branca no governo de Bill Clinton. Segundo Roubini, as perdas com a crise financeira devem ser de pelo menos US$ 300 bilhões, podendo chegar a US$ 500 bilhões, englobando os créditos subprime, near prime (médio risco), prime (baixo risco), CDOs (obrigações de dívida colateral), e vários setores da economia. "Haverá perdas maciças e tanto o lado financeiro como a economia real vão piorar", comentou. Roubini disse ainda que levará muitos anos até que os diversos setores afetados se recuperem da crise e que, com o cenário de recessão, a inflação passará a ser um problema secundário. O economista afirmou também que a regulamentação FASB 157, que entra em vigor na quinta-feira, dia 15, nos EUA, pode não evitar uma recessão, mas dará mais transparência ao setor de crédito e ajudará a prevenir truques contábeis de bancos, como os que desencadearam a crise do subprime. Com as novas normas, os bancos terão que adequar o valor de seus ativos de nível 3 a valores de mercado, mesmo sem condições de liquidez. Roubini, no entanto, foi cético ao falar do chamado "superfundo" ou plano de resgate dos veículos de investimentos estruturados (SIVs), liderado pelo Citigroup, Bank of America e J.P. Morgan Chase, com o objetivo de fornecer recursos e evitar uma liquidação forçada dos ativos dos SIVs. "O superfundo não vai funcionar. É apenas um meio de evitar reconhecer perdas", disse. Petróleo Roubini disse que o petróleo poderá se estabilizar por volta dos US$ 100, mas poderia ir além desse nível caso haja alguma ofensiva militar dos EUA no Irã, por exemplo. Caso contrário, a tendência para os próximos anos é de recuo dos preços não só do petróleo como de outras commodities diante da perspectiva de recessão norte-americana, que afetaria a economia mundial. "A queda do petróleo, nesse caso, não seria uma boa notícia, mas uma má notícia", alertou. Nesse cenário de recessão nos EUA, os emergentes seriam afetados. O Brasil, como grande exportador de commodities, não seria exceção, ainda que esteja hoje menos vulnerável, como ressaltou Roubini. Roubini disse, no entanto, que mesmo com esse cenário global mais negativo, o Brasil deverá ter upgrade para grau de investimento em 2008. "O investment grade depende mais da situação fiscal do Brasil. Não saberia dizer exatamente quando virá o investment grade, mas acho que será em algum momento do ano que vem", comentou. O ex-conselheiro do governo de Bill Clinton acredita também que o dólar continuará caindo ante outras moedas. Questionado se, diante da desvalorização do dólar, ele preferiria poder receber seu salário em euros, Roubini brincou: "Melhor seria receber em reais brasileiros".

Mais conteúdo sobre:
AE Broadcast Fed juros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.