Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Trump diz que 'guerras comerciais são boas' e países já ameaçam retaliar

Nos meios diplomáticos, governos estudam formas de se unir em um megaprocesso nos tribunais da OMC, enquanto medidas urgentes para retaliar produtos americanos começam a ser examinadas

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 10h00

GENEBRA – A decisão do governo de Donald Trump de adotar novas tarifas contra o setor do aço ameaça abrir uma guerra comercial bilionária. O Estado apurou com exclusividade que governos potencialmente afetados pela medida já consideram se unir em um mega-processo nos tribunais da Organização Mundial do Comércio. Enquanto isso, a Europa indica que avalia a possibilidade de impor tarifas de salvaguarda como “retaliação” à decisão americana. 

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Trump anunciou a imposição de uma taxa de 25% sobre as importações de aço e 10% contra o alumínio estrangeiro, numa medida que visa proteger sua indústria local. Os detalhes, porém, serão conhecidos apenas na semana que vem.

Nesta sexta-feira, ele publicou nas redes sociais um alerta de que considera que “guerras comerciais são boas” quando um país está “perdendo bilhões de dólares com virtualmente todos os países com os quais mantém negócios”. Para ele, esse será um caso “fácil de vitória”. 

A Casa Branca alega que importa aço de mais de cem países e num volume quatro vezes superior ao que exporta. Washington também insiste que, desde 2000, a produção interna passou de 112 milhões de toneladas para 86 milhões em 2016. O número de empregados do setor caiu de 135 mil para 83 mil. 

Nas horas que se seguiram à declaração, governos passaram a se mobilizar para enfrentar mais uma ameaça comercial da Casa Branca. Cecilia Malmstrom, comissária de Comércio da Europa, alertou que Bruxelas está “discutindo diferentes medidas” contra produtos americanos. “Estamos olhando para tudo, desde levar o caso à OMC, sozinhos, com parceiros, mas também medidas de salvaguarda ou possíveis retaliações”, explicou.

Segundo Bruxelas, uma primeira etapa do processo na OMC deve ser lançada em breve. Mas, nos bastidores, diplomatas consideram uma ação conjunta para mostrar a unidade da comunidade internacional contra Trump. Em 2002, algo parecido foi realizado por Europa, Brasil, Japão e vários outros governos contra medidas similares adotadas por George W. Bush.

“Essas medidas terão um impacto negativo para as relações transatlânticas e para os mercados globais”, disse a comissária. 

Apenas nos últimos três meses, sete queixas foram apresentadas por diferentes países contra medidas protecionistas dos EUA, uma onda inédita de casos contra um só governo. 

Mas um processo a mais na OMC no setor do aço pode levar anos para chegar a uma conclusão, principalmente agora que justamente o governo americano agiu para enfraquecer os tribunais da entidade por meio de manobras administrativas. 

Não por acaso, Bruxelas já considera salvaguardas imediatas contra produtos americanos como forma de “preservar o mercado europeu”. “O protecionismo não pode ser a resposta a problemas comuns no setor do aço”, disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “Não vamos ficar sentados e ver nossa indústria ser afetada por essa medida. Nos próximos dias, vamos apresentar uma proposta de contra-medidas que visão os EUA como forma de equilibrar a situação”, destacou. 

 “A Europa deve reagir de forma dura contra as taxas punitivas dos EUA e que ameaçam milhões de postos de trabalho pela Europa”, disse Sigmar Gabriel, ministro de Relações Exteriores da Alemanha. A Associação Siderúrgica Alemã deixou claro que vai exigir que Bruxelas tome medidas.

Mesmo o governo britânico de Theresa May, aliado de Trump, alertou que está “preocupado” com a decisão.

Num raro comunicado de apoio à Europa, o Kremlin indicou que compartilha das preocupações dos governos europeus. “Vamos analisar nossa relação comercial com Washington”, destacou Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin.

Mesmo o principal parceiro comercial dos EUA, o Canadá, deixou claro sua irritação com a medida de Trump. “Essa tarifa será inaceitável”, alertou o ministro de Comércio do Canadá, François-Philippe Champagne. Maior fornecedor de aço dos EUA, os sindicatos canadenses insistiram para que a Casa Branca exclua as empresas do país daquelas que serão alvo de sobretaxa. 

Dominó. Em diferentes partes do mundo, o tom foi de preocupação. O governo australiano apontou sobre o risco de uma onda de retaliações, enquanto o Japão, Tailândia e Coreia do Sul alertam para a ameaça de uma onda protecionista como resposta à decisão de Trump. 

Exportadora de apenas 2% do consumo americano de aço, Pequim está preocupado com um “efeito dominó” das medidas, com o fechamento de outros mercados. “A China pede aos EUA que não recorram às medidas protecionistas e que respeitem as regras do comércio multilateral”, declarou Hua Chunying, porta-voz da chancelaria chinesa. “Se outros países seguirem o mesmo passo, isso poderá ter um impacto grave sobre a ordem do comércio mundial”, disse.

A China, porém, é vista como parte do problema do excesso de aço no mercado global. Mas, para países europeus, a proliferação de barreiras não será a resposta.

Durante o pregão da sexta-feira, as ações de empresas siderúrgicas foram afetadas nas bolsas asiáticas. Enquanto isso, montadoras de fora dos EUA, como Toyota e Honda, perderam entre 2,37 % e 3,78 %.

 

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