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Como um pote de margarina na década de 70 inaugurou a era do comércio eletrônico, um negócio de trilhões de dólares

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2017 | 05h03

Assim como tantas outras experiências, "ir às compras" é uma atividade que vem sendo gradualmente modificada pela tecnologia. Até a introdução e popularização do comércio eletrônico, o consumidor que precisasse adquirir qualquer artigo tinha duas opções: ir até esse artigo - seja em uma loja de rua ou em um shopping - ou realizar a encomenda pelo correio, preenchendo um formulário específico que geralmente acompanhava publicações impressas. Essas publicações, por sua vez, eram compradas em livrarias, bancas de jornal ou recebidas em casa através de uma assinatura mensal, por exemplo.

Muita coisa mudou desde o que é considerada a primeira transação de comércio eletrônico, realizada no início da década de 70 utilizando-se a ARPANET (precursora da atual Internet). De acordo com John Markoff e seu livro de 2005 "What the Dormouse Said: How the Sixties Counterculture Shaped the Personal Computer Industry" ("Como a Contracultura dos Anos 60 Influenciou a Indústria do Computador Pessoal"), a era do comércio eletrônico foi inaugurada quando estudantes de Stanford e do MIT organizaram uma venda de maconha.

Cerca de quinze anos depois, a primeira transação nos moldes "B2C" foi realizada. "B2C" significa "Business to Consumer", ou "De Pessoa Jurídica para Pessoa Física", referindo-se à arquitetura de negociação na qual uma das partes é uma empresa e a outra é um consumidor. A Sra. Jane Snowball, de 72 anos, moradora de Gateshead, na parte norte da Inglaterra, comprou margarina, cereais e ovos utilizando o controle remoto de sua televisão e um sistema chamado Videotex. Esse sistema utilizava os princípios de comércio eletrônico inventados pelo empreendedor Michael Aldrich no final dos anos 70 e que transformava televisões em terminais de comunicação, capazes de realizar os pedidos para as lojas.

Uma década mais tarde, em 1994, um ex-analista de Wall Street percebeu que uma mudança importante estava por vir e decidiu sair de Nova Iorque para Seattle, onde fundou uma empresa que iria tornar-se sinônimo de comércio eletrônico. A Amazon de Jeff Bezos realizou sua primeira oferta pública de ações em maio de 1997 e em apenas vinte anos tornou-se uma das empresas (e marcas) mais valiosas do mundo: em 2016 seu faturamento foi de US$ 136 bilhões, e seu valor de mercado atingiu US$ 356 bilhões.

A ascensão do comércio eletrônico globalmente trouxe mudanças significativas para varejistas de todos os setores. Inicialmente, eram poucos os tipos de produtos comercializados pela Internet, como livros por exemplo. Para surpresa de muitos, o pioneiro do setor foi Charles Stack, que lançou sua livraria "Book Stacks Unlimited", de Cleveland, EUA, na web em 1992, aceitando cartões de crédito como forma de pagamento. Mas com a popularização da World Wide Web e a criação dos programas de navegação (chamados de browsers), a Internet experimentou um aumento sem precedentes em termos de número de usuários e popularidade. Como consequência, os sites de comércio eletrônico se multiplicaram e se especializaram. Atualmente, é possível comprar praticamente qualquer coisa on-line: de carros a roupas, de artigos de luxo a apartamentos, de material de construção a computadores.

Segundo a empresa de pesquisa eMarketer, em 2015 as vendas globais através do comércio eletrônico foram de US$ 1,5 trilhões, respondendo por 7,4% do movimento varejista - valor que até 2020 deve superar os US$ 4 trilhões, levando a participação do comércio eletrônico nas vendas do varejo para mais de 14%. Conforme falamos na semana passada, a impressão 3D pode ser uma das próximas revoluções para o setor de varejo - e é sobre isso que iremos falar na semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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