Um mordomo no armazém

Exércitos de robôs circulam dia e noite por centros de distribuição espalhados pelo mundo, transformando o mercado de logística

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2018 | 05h03

A experiência de "ir às compras" mudou significativamente nas últimas duas décadas. Com a popularização do comércio eletrônico, milhões de pessoas utilizam a Internet como principal meio de acesso para pesquisar e adquirir artigos. Conforme já vimos aqui, o processo de pagamento - seja via cartão de crédito, débito em conta, PayPal, boleto ou qualquer outra modalidade - já foi digitalmente integrado às etapas realizadas no ato da compra. Mas o que está acontecendo com a mercadoria em si? Como a indústria de logística e as cadeias de suprimento estão sendo modificadas por um novo paradigma, no qual é possível adquirir praticamente qualquer item a qualquer momento e esperar que o mesmo seja entregue em questão de poucos dias - ou até mesmo poucas horas?

Quando a ordem de compra chega aos sistemas de informação do provedor do produto, e uma vez que o pagamento tenha sido devidamente processado, é necessário determinar qual o centro de distribuição (CD) irá se encarregar de encaminhar o produto para o consumidor. Para determinar isso, é feito um cruzamento de dados entre o endereço final de entrega e a disponibilidade do item em estoques espalhados pelo país (ou mesmo pelo mundo). Alguns centros de distribuição são capazes de armazenar milhões de artigos com diversas datas de validade, tamanhos, pesos e quantidades diferentes, e uma das principais etapas de uma cadeia de suprimentos moderna está justamente relacionada à eficiência de seus CDs.

Em 2016, a Freightos - uma startup fundada em 2012 que oferece um marketplace online (ou seja, um ambiente de negociação via computador, tablet ou smartphone) para empresas de logística publicou uma pesquisa na qual executivos das principais empresas do setor foram questionados sobre quais as inovações que irão impactar de forma mais relevante a indústria. A robótica foi a tecnologia mais citada, em 68% das respostas. Depois vieram a impressão 3D (49%), o uso de drones e veículos autônomos (32%) e realidade aumentada (8%). De fato, atualmente os investimentos mais relevantes dos centros de distribuição modernos estão ligados à automação e à integração de robôs ao novo fluxo operacional.

Considere, por exemplo, o processo de selecionar um item específico, armazenado em uma das centenas de milhares de prateleiras de um CD com dimensões que equivalem a diversos quarteirões de uma cidade grande. É necessário não apenas ter a localização precisa do item, mas fisicamente buscá-lo da forma mais eficiente possível para depois embalar e despachá-lo ao seu destino final. Atualmente, diversas soluções são utilizadas para endereçar estas questões, e uma delas é o uso de robôs batizados de "Butler" (literalmente, mordomo) desenvolvidos pela empresa GreyOrange, fundada em 2011 e com sede em Cingapura. Esses robôs são capazes de levar as prateleiras onde os artigos estão armazenados até os operadores do CD, fazendo isso de maneira otimizada e potencialmente atendendo múltiplas encomendas simultaneamente. Autônomos e disponíveis vinte e quatro horas por dia, as unidades conectam-se sozinhas à eletricidade quando suas baterias precisam ser recarregadas.

O tema é tão relevante que em 2012 a Amazon adquiriu a empresa Kiva Systems por U$ 775 milhões. Localizada perto de Boston, nos Estados Unidos, em 2015 passou a ser chamada de Amazon Robotics. É através desta unidade de negócios que são desenvolvidos os robôs que ajudam a transformar os centros de distribuição da Amazon em operações eficientes e precisas, que despacham cerca de dois milhões de encomendas (quase sempre com múltiplos itens) diariamente utilizando mais de cem mil robôs espalhados pelo mundo. A DHL também está utilizando robôs para atender a demanda sempre crescente dos consumidores. Diversas unidades do "Sawyer", fabricado pela Rethink Robotics (fundada em 2008) trabalham lado a lado com seres humanos em tarefas complexas. O robô possui sensores que funcionam como olhos, pode controlar a força necessária para interagir com qualquer objeto e precisão de manipulação com erro máximo de um milímetro. 

Os drones são outra tecnologia relativamente nova que já começa a se fazer presente na cadeia de suprimentos, tanto na entrega quanto no trabalho dentro do armazém. Como isso está sendo feito e como drones começam a se tornar ferramentas utilizadas por diversas indústrias e consumidores é nosso tema da próxima coluna, que retorna no dia 8 de fevereiro. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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