Sob controle

O medo de que a economia americana (e mundial) entre em recessão voltou ontem a tumultuar os mercados financeiros. Mas, em entrevista a esta coluna, o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, declarou que, na percepção dos presidentes dos principais bancos centrais do Planeta, ontem reunidos na cidade de Basiléia, Suíça, ''''é baixa a probabilidade de que isso aconteça''''. Sexta-feira (feriado no Brasil), a turbulência voltara ao mercado financeiro internacional após o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos divulgar a primeira perda de empregos no mercado americano em quatro anos (dados de agosto), algo que nenhum analista tinha previsto. Nos dois últimos dias os presidentes dos bancos centrais tiveram seu encontro bimestral na sede do Bank of International Settlements (BIS), entidade que atua como banco central dos bancos centrais. Nessa reunião, eles aprofundaram a análise da crise. Meirelles adiantou o diagnóstico dos presidentes dos bancos centrais, que, no essencial, não difere do que tem sido feito pelos analistas globais, mas vem com o peso da elaboração feita pelas principais autoridades da área monetária do mundo. Há dois meses, disse ele, houve nos Estados Unidos um acentuado aumento da inadimplência dos tomadores de crédito hipotecário de alto risco (subprime). Essa inadimplência atingiu alguns dos fundos que forneceram os recursos que originaram esses créditos. Esses fundos não conseguiram dar conta de pedidos de resgate e passaram a ter dificuldades para rolar os commercial papers (títulos) que lastreiam as aplicações. Como alguns bancos que patrocinaram esses fundos também ficaram sem liquidez, todo o mercado de crédito de repente ficou bloqueado, porque ninguém mais se sentiu em condições de avaliar a extensão do problema. No entanto, os bancos centrais não só se encarregaram de prover liquidez onde ela passou a faltar, como permanecem dispostos a continuar nessa tarefa. No encontro da Basiléia, conta Meirelles, os presidentes dos bancos centrais admitiram a hipótese de que a crise possa chegar ao setor produtivo. ''''Talvez o avanço do PIB americano neste ano se desacelere, de 3% à casa dos 2%. Mas o risco de recessão é baixo.'''' Para Meirelles, os bancos centrais continuarão monitorando a circulação dos fluxos de crédito nas veias do mercado financeiro global. ''''Onde ocorrer algum entupimento, as autoridades monetárias irão intervir.'''' Ontem, com forte volatilidade, prosseguiu a fuga, reiniciada sexta-feira, dos aplicadores para os segmentos mais confiáveis. Com o aumento da procura, o valor dos títulos mais seguros (treasuries) voltou a crescer, o que reduziu ainda mais o rendimento (yield) desses papéis, que é prefixado. As T-Notes de 10 anos pagaram ontem um retorno de 4,3258% (no fechamento), o mais baixo desde que a crise começou. Dois outros efeitos vão tomando corpo. O primeiro deles é a alta dos juros cobrados pelos bancos nas operações de crédito, o que reflete o aumento do risco. E o segundo é a redução da oferta de financiamento internacional, em princípio, o fator mais relevante para o setor privado.

celso.ming@grupoestado.com.br *, O Estadao de S.Paulo

09 Novembro 2007 | 00h00

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