Cheque especial vira capital de giro

Por comodidade ou negativa dos bancos para linhas mais baratas, autônomos amontoam dívidas

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 04h03

Com a renda já comprometida em dívidas no cartão – e num empréstimo que tomou na tentativa de refinanciá-las–, Walter Eloi de Oliveira, de 39 anos, há três meses foi em busca de crédito para investir no seu próprio negócio: uma loja de ração na zona Sul de São Paulo.

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Ele bateu à porta de vários bancos – até na do BNDES –, mas sem sucesso. Desse modo, com contas a pagar, caiu também no cheque especial. “Comecei o negócio com meu próprio dinheiro, mas ele foi acabando: pago o aluguel da loja, boletos... e precisava de capital de giro, mas não me deram”, diz.

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Para quitar a nova dívida, o banco ofereceu um outro empréstimo a juros menores, de 8% ao mês. “Mesmo assim é muito caro para mim, e as parcelas são muito altas”, diz o autônomo. “Os juros do cheque especial estão na faixa de 14% ao mês, o que dá mais de 300% ao ano. Nenhum investimento do mercado financeiro dá esse retorno, é um absurdo”, questiona.

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A dívida do cheque especial de Oliveira está em R$ 2,6 mil. Já a do cartão de crédito e do primeiro empréstimo, ele não sabe ao certo: já virou uma bola de neve. “Olha, no total, deve estar perto de uns R$ 15 mil”, estima. “Agora minha estratégia é conseguir uma linha de crédito mais barata para refinanciar e finalmente ficar no azul.”

Apesar do aperto, a esperança é o novo negócio, que aos poucos caminha bem. “Em seis meses, o faturamento cresceu dez vezes. Está dando certo, mas eu preciso de dinheiro para fazer o negócio girar”, diz. “Vou dar um jeito.”

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Utilizar o cheque especial como para capital de giro também foi uma armadilha para o empreendedor Rodrigo Leitão, de 34 anos. Ao longo dos últimos sete anos, ele, que tem uma empresa de locação de vans e é sócio de três lojas de shoppings, fez uso dessa modalidade para tocar seus negócios. “No começo eu utilizava por falta de informação: não entendia que aquele dinheiro não fazia parte da minha conta. Depois, por comodidade e por muitas vezes não conseguir linhas mais baratas”, conta.

Foi em fevereiro deste ano, ao utilizar um aplicativo de educação financeira, que ele conseguiu se organizar. “O aplicativo unificava quanto exatamente eu tinha usado de cheque especial, o que eu não sabia ao certo, já que sou correntista em três bancos diferentes”, explica.

A nova estratégia já deu frutos. “No mês passado, não usei cheque especial – nem lembro quando foi a última vez que isso tinha acontecido”, conta. A dívida antiga, aos poucos, também vai sendo amortizada. Em julho do ano passado, estava em R$ 16 mil. Agora, está em cerca de R$ 10 mil.

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