Esquentando a cadeira

Jovens são tão fiéis às empresas onde trabalham quanto as gerações anteriores

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

odo mundo sabe – ou pelo menos acha que sabe – que os jovens de hoje em dia tão logo conseguem um emprego partem à procura de outro. Diz o senso comum que eles não são fiéis às empresas onde trabalham e, por isso, vivem saltando de um emprego a outro. Os jovens da geração do milênio (isto é, os nascidos por volta de 1982) realmente apresentam maior tendência a mudar de emprego do que seus colegas mais velhos. Mas isso tem mais a ver com a idade do que com a época em que nasceram. Nos Estados Unidos, pelo menos, o tempo médio de permanência no emprego é praticamente o mesmo há algumas décadas.

Dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho do governo americano mostram que, entre os trabalhadores que têm 25 anos ou mais, a mediana do tempo de permanência no emprego atualmente é de 5,1 anos, pouco mais do que a registrada em 1983. Entre os mais jovens, observa-se um declínio no tempo de permanência no emprego, mas é uma queda pequena. Os homens que têm entre 25 e 34 anos agora apresentam mediana de 2,9 anos no mesmo emprego. Em 1983, esse número era de 3,2 anos.

É entre os homens de meia-idade que a relação com os empregadores mudou de forma mais drástica. Isso se deve, em parte, à queda acentuada no número de empregos semiqualificados e ao declínio dos sindicatos. A mediana do tempo de permanência no emprego para os homens que têm entre 45 e 54 anos recuou de 12,8 anos em 1983 para 8,4 anos. A queda é contrabalançada pelas mulheres, que agora permanecem mais tempo no mesmo emprego, e pela elevação na idade de aposentadoria. Esses dois fatores explicam o fato de não se observarem mudanças significativas nos números agregados.

Os trabalhadores americanos também já não têm a mesma disposição para mudar de cidade em busca de novos empregos. Pouco menos de 12% fizeram isso no ano passado. Na década de 50, as mudanças de cidade atingiam 20% da força de trabalho. A tendência também vale para os mais jovens: só 20% dos que têm entre 25 e 35 anos se mudaram no ano passado. Nas gerações anteriores, as mudanças nessa faixa etária chegavam a quase 25%.

Um lugar onde os jovens da geração do milênio provavelmente estão trocando de emprego com mais frequência é a Europa Ocidental. Dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que, na França, na Alemanha, na Itália e na Espanha a média do tempo de permanência no emprego vem aumentando, em termos agregados, desde 1992. Mas esse número recuou entre os trabalhadores mais jovens. É pouco provável, porém, que isso se deva a escolhas pessoais. Restrições da legislação trabalhista obrigam parcela crescente de trabalhadores europeus a aceitar “bicos” temporários. Nos quatro países citados, mais da metade dos trabalhadores que têm entre 15 e 24 anos são contratados por um período fixo de tempo.

No Reino Unido, onde a legislação trabalhista é mais flexível do que na Europa continental, os dados revelam um quadro mais complexo. As estatísticas da OCDE apontam para uma queda no tempo de permanência no emprego entre os jovens britânicos.

Por outro lado, pesquisa conduzida pela Resolution Foundation indica que, comparados a gerações anteriores, os jovens da geração do milênio demonstram menor inclinação para deixar voluntariamente o emprego. Os britânicos também estão mudando menos de cidade. Entre 2001 e 2016, a parcela de trabalhadores que se mudaram para trocar de emprego caiu de 0,7% para 0,5%. Por outro lado, voltou a aumentar o número de indivíduos que se deslocam para o Reino Unido à procura de emprego, mas não a ponto de atingir o recorde registrado em 2001.

Os que receiam que os jovens de hoje não sejam fiéis às empresas onde trabalham talvez tenham visão excessivamente otimista da situação atual do mercado de trabalho. / TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

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