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Diferença salarial entre homens e mulheres sobe conforme escolaridade

Ter trajetória semelhante e ocupar mesmo cargo ainda não é suficiente para dar à mulher um salário igual ao do homem

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Flavia Alemi,
O Estado de S. Paulo

08 Março 2016 | 10h07

Ela passa pelo menos 15 anos da vida se dedicando aos estudos. Faz estágio, é efetivada e promovida. Vai ao exterior fazer MBA e, quando retorna, ganha nova promoção. Muda de empresa. Vê a carreira deslanchar. Assume uma diretoria. E descobre que seu colega de outra diretoria, com trajetória semelhante, tem um salário mais alto. Para ser mais exato, 34% maior. A relação é diretamente proporcional: quanto maior o grau de instrução, maior a diferença de salários entre mulheres e homens.

 

Os dados, coletados no último Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de 2015, são uma evidência, entre tantas outras, de que a discussão sobre diferenças de tratamento entre gêneros está longe de acabar - e reconhecer a existência dessa defasagem é um passo fundamental para solucionar a questão. “É comum ouvir que o tema ‘está batido’, mas, quando as empresas investigam, percebem que as mulheres realmente ganham menos”, explica a professora do Insper, Regina Madalozzo, estudiosa do mercado de trabalho para mulheres.

A diferença de salários de homens e mulheres em relação à escolaridade pode ser explicada pela subjetividade das avaliações que elas recebem ao longo da carreira e que são vinculadas diretamente a bonificações, prêmios e aumentos. “Mulheres têm mais dificuldades de serem bem avaliadas por seus gestores”, afirma Regina. “Devido ao fato de a cultura de competição das empresas ser percebida pela sociedade como um fator mais masculino do que feminino, uma mulher raramente é bem avaliada quando há necessidade de ser assertiva”, explica.

E é por medo de obter uma avaliação negativa que as mulheres costumam pedir aumento de forma mais cautelosa e menos frequente do que os homens, numa espécie de autocensura que contribui para que a disparidade de salários seja tão resiliente. “Muitas vezes, infelizmente, a empresa acha que a mulher que pede aumento de salário não cumpre o estereótipo que se espera dela”, aponta Regina. 

Para alguns, isso pode parecer arcaico, mas há menos de dois anos uma declaração do CEO mais bem pago do mundo, o indiano Satya Nadella, da Microsoft, gerou mal-estar generalizado no mundo dos negócios. Diante de uma plateia feminina, Nadella ‘aconselhou’ as mulheres a não pedir aumento de salário, explicando que elas deveriam ter fé de que o sistema dará os aumentos corretos quando elas forem subindo na carreira. “Não pedir aumento traz bom karma e ajuda um chefe a distinguir se o empregado é confiável”, acrescentou. Mais tarde, ele pediu desculpas e se disse um defensor de salários iguais para cargos iguais. 

Preconceito. Uma pesquisa da Robert Half, empresa especializada em recrutamento, concluiu que a distância entre os gêneros está presente não só na questão de equiparação salarial, mas, principalmente, nas oportunidades de crescimento, desenvolvimento e respeito pelas mulheres.

O estudo ‘Mulheres e o Mundo Corporativo’, realizado com cerca de 300 profissionais brasileiras em fevereiro deste ano, mostra que 66% delas já sofreram preconceito no trabalho. Além disso, 60% das entrevistadas dizem ter escutado comentários preconceituosos e 47% já tiveram suas habilidades questionadas em momentos de crise.

Para Claudia Baggio, sócia da consultoria Deloitte, o preconceito não deixou de existir, apesar de as mulheres terem conquistado seu espaço no mercado de trabalho. “Minha esperança é que tenhamos de discutir muito pouco este assunto no futuro”, diz. Até lá, porém, a discussão permanece. (Colaborou Malena Oliveira)

 

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