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Trabalho em plataforma de petróleo não é para todo mundo

Fernando Scheller, de O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2012 | 23h 00

Mesmo com salários mais altos, há dificuldade de retenção de trabalhadores nosegmento off shore  

Já pensou ganhar pelo menos o dobro do seu salário atual e ter pelo menos 14 dias de folga para cada duas semanas trabalhadas? São exatamente essas as vantagens oferecidas pelo trabalho off shore, em plataformas de petróleo. No entanto, apesar do claro apelo econômico, o trabalho "embarcado" não é para todo mundo. "A rotatividade é alta. Muita gente desiste após um ou dois embarques", diz Stephane Champagne, diretor de bases remotas da Sodexo/Puras, empresa de refeições coletivas que tem mais de mil funcionários voltados para o setor petrolífero.

Dependendo do cargo, afirma o executivo, as vantagens superam os adicionais previstos em lei. "Para chefe de cozinha e padeiro, que são cargos que exigem um maior preparo, o salário será pelo menos o dobro do oferecido em terra", exemplifica Champagne. A Sodexo/Puras, que opera 34 unidades de produção de petróleo no País, não tem dificuldade para preencher cargos que não exigem preparo específico, como ajudantes. Mesmo assim, a rotatividade é alta. "O profissional só mostra que está preparado para o trabalho em plataforma depois de cinco ou seis embarques."

As regras que regem os trabalhadores embarcados diferem conforme as convenções coletivas de cada categoria. Segundo o gerente de recursos humanos da unidade de operações da Petrobrás na Bacia de Campos, Carlos Alberto Campos Monteiro, a regra geral prevê que os profissionais folguem 14 dias para cada duas semanas de trabalho. Para os concursados da Petrobrás, no entanto, são 21 dias livres para 14 dias na ativa. Ele explica que os trabalhadores atuam em turnos de 12 horas, mas há também o regime de "sobreaviso" - ou seja, o profissional precisa estar 24 horas disponível. Em ambos os casos, o adicional sobre o salário é de pelo menos 100%.

Perfil. O executivo da Petrobrás não vê um perfil específico para o trabalhador off shore, mas diz que é uma proposta que costuma interessar a um público mais jovem. "Quem trabalha embarcado tem 14 dias de férias todos os meses, um direito que os demais profissionais só conquistam depois de um ano. E a pessoa pode escolher morar em vários lugares, como Búzios, Salvador ou Porto Seguro", diz. Monteiro lembra, porém, que os trabalhadores selecionados por concurso só podem ir à plataforma, desfrutando das vantagens econômicas do modelo de trabalho, depois de alguns meses de curso preparatório.

O executivo admite que os adicionais de periculosidade e insalubridade existem justamente porque há riscos e desafios extras no trabalho off shore. Caso os trabalhadores adoeçam, a estrutura das plataformas inclui um técnico em enfermagem em tempo integral. Os médicos contratados pela estatal se revezam entre diferentes unidades de produção. Quando necessário, um médico é deslocado de outra plataforma ou da operação de terra para realizar o atendimento. Para garantir a ambientação psicológica dos novos funcionários, cada profissional tem um tutor nos primeiros embarques (geralmente o superior imediato ou um colega mais próximo). "Essa pessoa faz a avaliação de como a pessoa está se sentindo e prepara um relatório sobre ela."

Para os fornecedores, o atendimento a plataformas de petróleo representa desafios extras do ponto de vista logístico e de operações. A Sodexo/Puras, por exemplo, a atuação da empresa precisa transcender apenas o fornecimento de refeições. Segundo Champagne, os contratos off shore exigem também serviços de hotelaria e de limpeza. "Há também uma grande diferença na quantidade de refeições servidas. Na maioria das empresas, o trabalho se resume ao almoço. Nas plataformas, fornecemos café da manhã, almoço, jantar e pelo menos dois coffee breaks durante a tarde."