Werther Santana|Estadão
Werther Santana|Estadão

Consumidor recorre a aplicativos de finanças em ano de aperto de contas

Alta da inflação e diminuição da renda levam mais brasileiros a procurar meios de controlar o orçamento, comparar os preços e frear os gastos

Yolanda Fordelone, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2015 | 03h00

Diante de um cenário econômico mais turbulento, o brasileiro mudou a maneira como controla o orçamento. Para acompanhar de perto os gastos, cada vez mais consumidores têm abandonado a antiga planilha de Excel e recorrido a aplicativos de celular. O fato de o aparelho estar sempre no bolso ajuda a não esquecer a anotação de nenhuma despesa.

“Há uma discussão mais intensa sobre finanças. As pessoas estão mais preocupadas com a gestão financeira por conta da crise”, afirma o CEO do GuiaBolso, Thiago Alvarez.

Preços em alta e renda em baixa contribuíram para a procura maior por estas ferramentas. Enquanto a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 9,93% em 12 meses até outubro, o rendimento médio do brasileiro recuou 1,2% no terceiro trimestre em relação ao período anterior.

“Neste ano, tudo ficou mais caro: as compras no mercado, o gasto com alimentação fora de casa, os serviços de maneira geral. Além disso, tive uma redução do meu orçamento e não sabia ao certo onde podia cortar gastos”, afirma o professor de física Leandro Rabelo, que passou a usar o aplicativo GuiaBolso em setembro, após o término da sua bolsa de estudos do mestrado.

O app faz uma conexão direta com a conta bancária. Todas as entradas de dinheiro, como rendimentos da poupança, e saídas, como o pagamento de contas, são anotadas automaticamente na planilha do celular e divididas por categoria – como saúde, mercado, etc.

Rabelo tentou listar os gastos para depois colocá-los no Excel, mas não conseguiu manter o hábito. A praticidade de ter tudo automático fez ele optar pelo GuiaBolso. O app, que no fim de 2014 tinha 300 mil usuários ativos, já conta com 1,6 milhão de participantes.

Controle manual. Alguns especialistas, no entanto, dizem que ter um aplicativo todo automatizado pode fazer com que o consumidor perca o hábito de olhar a planilha periodicamente. Ou seja, o melhor seria o próprio consumidor anotar os gastos, mesmo que em um app de celular. Outras ferramentas preenchem essa demanda do mercado.

“Entendemos que a educação financeira precisa de comprometimento. Por isso, optamos por deixar o app sem sincronização com o banco”, diz Rodrigo Matihara, diretor de operações do Mobills. Nele, o usuário anota os gastos dividindo-os por categoria. É possível acessar a planilha pelo celular e pelo site da empresa. A única sincronização possível é com o cartão de crédito. Atualmente, o cliente pode optar por receber uma mensagem ao utilizar o cartão. O Mobills consegue ler o SMS e atualizar a planilha pessoal.

No sistema Android, o Mobills já foi baixado 1,2 milhão de vezes. No iOS e Windows Phone, a média é de 1 mil de downloads por dia.

Seja uma planilha automática ou manual, alguns cuidados devem ser tomados. Nos EUA, onde o uso de apps financeiros é mais comum, bancos têm se preocupado com as senhas. Isso porque muitos usuários colocam o mesmo código do banco nos aplicativos. J.P. Morgan Chase e Capital One Financial afirmaram que, nestes casos, os clientes podem ser responsabilizados por eventual fraude.

Orçamento. Os aplicativos mais tradicionais de finanças, que propõem um melhor controle da planilha de gastos, aparecem entre os mais baixados. Na App Store – loja de aplicativos da Apple –, o GuiaBolso liderou o número de downloads entre os apps financeiros em 28 dos 31 dias de outubro. As movimentações da conta bancária são preenchidas automaticamente na planilha. O app garante que tem nível de segurança igual ao dos bancos.

Para quem prefere anotar os gastos há diversas opções. No Mobills, além da planilha, há ainda uma “rede social” de finanças. Dividido por tópicos, o Mobills Social permite que o usuário faça perguntas e comente outros posts. É possível notar a mudança de perfil: “Antes da crise, as dúvidas giravam em torno do financiamento, como comprar um carro. Agora muitos buscam saber como sair das dívidas”, diz Rodrigo Matihara, diretor de operações do app.

Telefonia. Para muitos, o telefone se tornou um gasto básico no orçamento. Por isso, a importância do controle. No celular pré-pago, o RecargaPay é um dos aplicativos disponíveis. Nele, o usuário pode recarregar crédito e acompanhar o histórico de cargas no mês. Para famílias, isso se torna interessante por permitir o cadastro tanto do número do usuário quanto do de filhos e outros parentes.

"A vantagem é você ter um registro das recargas. No dia a dia, muitas vezes o cliente não se lembra quanto gastou”, diz o cofundador do RecargaPay, Gustavo Victorica. Além disso, há vantagem financeira: se testar alguns apps indicados na plataforma, o usuário ganha uma recarga grátis. Em agosto, pela primeira vez, houve 1 milhão de transações no aplicativo.

Para economizar nas ligações, alguns apps como Qual Operadora e Mobobox indicam a operadora dos números adicionados na agenda e de outros que o usuário queira consultar.

Comparativo de preços. Se o aumento de preços neste ano fez o brasileiro mudar hábitos de consumo, cortando itens do carrinho do supermercado por exemplo, nos serviços alguns gastos não podem ser adiados. Quem precisa de um encanador, pedreiro, eletricista ou de outros serviços domésticos tem recorrido ao app IguanaFix. Com um clique, o usuário pede o orçamento do serviço e compara os preços e, em outro, contrata o que deseja.

Para solicitar as propostas, o cliente indica a região onde mora, a metragem do local e pode enviar fotos do que será reparado. Há 15 mil prestadores de serviços cadastrados nos três países onde o app atua (Brasil, Argentina e México), sendo cinco mil no Brasil.

Atualmente, são 250 mil usuários nos três países. Em média, são contratados 20 mil serviços por mês. No caso do Brasil, 8 mil trabalhos são fechados mensalmente via o IguanaFix.

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