Empréstimo sem banco, de pessoa para pessoa
Comunidade financeira na internet oferece crédito sem intermediação bancária, aproximando o usuário que precisa de dinheiro e o que quer emprestar recursos em troca de remuneração
SÃO PAULO - A forma mais comum de se obter crédito pessoal no Brasil é recorrer a algum banco ou financeira, mas, além da burocracia, os altos juros costumam não agradar os pequenos tomadores de empréstimo. Há quase dois meses, porém, surgiu uma nova opção de empréstimo no mercado, baseado no conceito internacional conhecido como "peer-to-peer" – empréstimo de pessoa para pessoa. O negócio foi trazido para o País pelo empresário Eldes Matiuzzo, do site Fairplace, que, após trabalhar 14 anos no Unibanco – seis dos quais na área de crédito –, resolveu criar uma comunidade de empréstimos que não possui intermediação bancária.
"A ideia surgiu quando eu ouvi falar do lançamento desse tipo de comunidade lá fora, em 2006", lembra Matiuzzo. Naquele ano, a Prosper passou a oferecer o novo serviço de crédito nos Estados Unidos. Deste então, Matiuzzo diz ter acompanhado a criação de mais de 20 sites, como o Zopa na Inglaterra, o Smava na Alemanha, o Comunitae na Espanha e o LendingClub e Kiva também nos EUA.
Entre conhecer o negócio e adaptá-lo para o mercado brasileiro, porém, passaram-se alguns anos. "Foi uma decisão bastante amadurecida, porque eu quis acompanhar o que acontecia com estas comunidades, para ver se o modelo de negócio era viável e também por ser uma decisão bastante pessoal, de abandonar uma carreira de executivo bem remunerado para iniciar uma empresa própria, com todos os riscos que isso envolve."
Nos dois primeiros meses, o negócio no Brasil tem se mostrado promissor. No período, 1.889 pessoas – mais de 30 por dia – já se cadastraram. Deste total, 647 desejam tomar empréstimos e 563, investir. Alguns usuários ainda estão inativos, apenas acompanhando os pedidos de crédito. "Acreditamos que no longo prazo esse tipo de empréstimo deva atingir 10% do total do mercado de crédito", aposta Matiuzzo. "Esses sites não substituirão os bancos, mas são alternativas ao crédito pessoal, principalmente quando envolvem pequenos valores", afirma o professor da Fipecafi, Fernando Galdi.
O empréstimo
Todo o processo de obtenção de crédito começa com o pedido do tomador. Ele, que só pode ser uma pessoa física, deve fazer um cadastro com as informações pessoais e financeiras, além de informar o destino do dinheiro solicitado – cujo limite é de R$ 5 mil – e a taxa que deseja pagar. Os motivos vão desde quitar outra dívida, como o cartão de crédito, até investir no negócio próprio. O pedido passa então por uma avaliação de risco na Fairplace. "Checamos se não há nenhuma fraude, entre outros pontos. Há uma série de filtros, inclusive com soluções da Serasa Experian", diz o empresário.
A cada solicitante é dada uma nota de risco e apenas créditos avaliados como tendo baixa ou média probabilidade de inadimplência passam para a etapa seguinte, na qual as solicitações são lançadas no site. A intenção é expandir um pouco o tipo de risco aceito, explica Matiuzzo, mas agora no início da comunidade a seleção ainda está sendo conservadora. Prova disso é que pouco mais de 20% dos pedidos foram aprovados. Até o último dia 25 de maio, foram solicitados R$ 2,3 milhões em empréstimos, mas apenas R$ 462 mil disponibilizados para os investidores aplicarem. Um índice de inadimplência começará a ser divulgado a partir deste mês.
Para emprestar recursos, o investidor deve, após fazer um cadastro na Fairplace, escolher o pedido de crédito e indicar a taxa que deseja receber. "É feito um leilão durante 14 dias. No final, escolhemos as menores taxas para montar aquele crédito." Para o tomador, a vantagem é conseguir taxas menores do que as oferecidas no crédito bancário. Na Faiplace, a taxa média é de 2,99% ao mês, enquanto no mercado o juro é de 6,77% ao mês, de acordo com a última pesquisa da Anefac.
Para o investidor, o negócio é uma oportunidade de conseguir melhores retornos do que os encontrados em investimentos de renda fixa, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs). O engenheiro Pedro Taranto Monteiro de Barros, de 25 anos, foi um dos que resolveu aplicar no mercado de crédito logo no início do negócio, em abril. Começou com pequenos valores, mas hoje diz ter aumento a quantidade emprestada. "É uma oportunidade excelente se comparada ao rendimento de outras aplicações. Minha ideia é montar uma carteira de crédito, com vários perfis de pessoas, para diversificar o risco". Pedro se considera mais arriscado do que a média dos brasileiros, que opta pela tradicional caderneta de poupança, mas dentro do site ainda prefere os créditos com menor avaliação de risco.
A melhor taxa para os dois lados ocorre pelo spread – diferença entre o juro cobrado no empréstimo e o pago na captação dos recursos – ser menor. "Nas operações bancárias, estão embutidos os riscos, os custos administrativos, os impostos", enumera Matiuzzo.
Risco
"Sem dúvida é uma alternativa muito interessante, mas que deve ser usada com cautela. Não existe maior retorno, sem risco", diz Galdi. O principal risco da operação é o de inadimplência. Uma possibilidade para diminuir um pouco esse risco é diversificar os empréstimos, fazendo ao invés de um investimento de R$ 100, dez de R$ 100, diz Galdi.
Segundo a Fairplace, o procedimento é recomendável. Atualmente, o ticket medi ode cada investidor é de R$ 408. Outro cuidado que deve ser tomado é quanto à cobrança. Como qualquer contrato, a dívida pode ser cobrada judicialmente caso não seja paga, mas segundo o professor os custos deste processo recaem sobre o dinheiro que será recebido pelo investidor. "Esses sites só fazem a intermediação, mas não assumem os riscos como as instituições financeiras."
Para tentar diminuir o risco de perda, sai o professor, é importante fazer uma avaliação criteriosa do motivo do pedido de empréstimo. "Créditos para comprar equipamentos para aumentar a produção, por exemplo, tendem a ser menos arriscados do que emprestemos para quitar dívidas", exemplifica.
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