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Investidor corre para o Tesouro para escapar da inflação e ganhar com juro

Com salto de 72% no número de participantes, o Tesouro Direto ultrapassou a Bolsa em 2015 e segue como uma das principais apostas de 2016

Natália Cacioli

- Atualizado:31 Dezembro 2015 | 06h 39

SÃO PAULO - Em tempos de inflação alta, os brasileiros têm buscado alternativas para proteger o patrimônio. Em 2015, o Tesouro Direto foi a menina dos olhos de muitos investidores, que aliaram a segurança da renda fixa à boa rentabilidade dos títulos públicos. Como a elevação dos preços não dá sinal de trégua, a taxa básica de juros (Selic) deve permanecer elevada em 2016 e os rendimentos dos títulos, consequentemente, vão continuar atrativos.

O número de investidores ativos no Tesouro Direto deu um salto de 72% entre outubro de 2015 e o mesmo mês do ano passado, enquanto o estoque total alcançou R$ 22,9 bilhões, um aumento de 57,7%. A quantidade de participantes ultrapassou, inclusive, o número de investidores da Bolsa, com 587,3 mil pessoas. Foi a primeira que isso aconteceu desde a criação do produto, em 2002.

Planejamento. O advogado Guilherme Lippi perdeu dinheiro na primeira compra do Tesouro porque não escolheu o título adequado para os seus planos

“Vai ser difícil encontrar outro investimento que bata o juro de 14%. Não é impossível, mas em outros ativos, como Bolsa e câmbio, há o fator risco”, diz o diretor da Easynvest Amerson Magalhães. 

A rentabilidade chama a atenção principalmente se comparada à da caderneta de poupança, que vai perder para a inflação pela primeira vez em treze anos.

Segundo cálculos da consultoria Economatica, o ganho anual da poupança está em 7,95%, ante uma inflação de 10,48%. O cenário para 2016 também não é animador: economistas consultados pelo Banco Central estimam o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 6,86%, acima do teto da meta do governo, de 6,5%. 

Mas apesar do crescimento exuberante nesse ano, a quantidade de investidores nos títulos públicos ainda perde com folga para a poupança, que tem 137 milhões de clientes. Desses, 70% investem até R$ 500. Por isso mesmo, o governo ainda vê potencial de expansão. “Há muito espaço a ser conquistado”, diz Débora Araújo, analista de Finanças e Controle do Tesouro, acrescentando que o investimento mínimo é de apenas R$ 30.

Para ajudar nessa popularização, o Tesouro simplificou o nome dos títulos e deu maior liquidez ao produto, que agora pode ser vendido a qualquer momento. Segundo Débora, o governo prepara novas ações para o início de 2016, como um simulador que compara os títulos com outros produtos financeiros. 

Estratégias. Para escolher qual título comprar, não existe fórmula mágica. A resposta depende dos objetivos do investidor. Mas diante das incertezas política e econômica, especialistas indicam títulos com prazo mais curto. “Está muito difícil fazer prognóstico para 2016”, diz Alexandre Fernandes, diretor de crédito da Rio Bravo. 

O risco do Tesouro Direto é mínimo, porque é soberano, ou seja, o investidor só deixa de receber se o País der calote, o que é muito improvável. No entanto, há o chamado risco de mercado: se o cliente resgata o valor da aplicação antes do vencimento, o título será vendido de acordo com a taxa do dia, e isso pode levar a uma perda. Logo, o ideal é segurar até o final do prazo. 

A primeira experiência do advogado Guilherme Lippi, de 29 anos, não foi das melhores. Em 2013, ele comprou títulos indexados à inflação com vencimento em 2035. “Comprei por impulso, sem pesquisar nada. Precisei vender antes do prazo e perdi dinheiro”, conta.

Segundo dados do Tesouro, 59,7% dos títulos vendidos são indexados à inflação e 53,8% deles têm prazo entre um e cinco anos. Na corretora Rico, que viu o número de clientes do Tesouro Direto aumentar 84% em 2015, os títulos que protegem da alta dos preços também são os mais procurados. O analista Roberto Indech, no entanto, atenta para os objetivos do investidor: “Se é um investimento de curto prazo, de até dois anos, indicamos o Tesouro Selic. Para médio prazo, o Tesouro IPCA é interessante, pois paga a inflação no período mais uma taxa prefixada”, explica.

O Tesouro Selic é considerado o título mais conservador, pois é reajustado diariamente pela Selic. Por outro lado, os títulos prefixados e os indexados à inflação (Tesouro IPCA) costumam render mais, mas podem perder valor se a taxa de juros subir e o dinheiro for resgatado antes do vencimento. 

O analista de sistemas André Spinalli Schiavoni, de 27 anos, começou a comprar títulos no segundo semestre de 2015 por indicação de colegas do trabalho. Ele optou pelo mais conservador. “Pretendo comprar um carro logo, então escolhi o Tesouro Selic, que me paga a taxa de juros e não corro o risco de perder dinheiro se fizer o resgate antes do vencimento”.

Indicação. O analista de sistemas André Spinalli Schiavoni investe no Tesouro há apenas 4 meses

Letras de crédito e CDB também atraentes. O Tesouro Direto tem a vantagem do baixo custo, uma vez que não é preciso pagar taxas de administração ou performance, comuns na indústria de fundos. Por outro lado, há incidência de Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos, o que não ocorre na poupança e em outros produtos da renda fixa. As alíquotas vão de 22,5%, para aplicações de até 180 dias, a 15%, para prazos superiores a 720 dias.

Outras opções interessantes são a LCI e a LCA – títulos privados lastreados por empréstimos imobiliários e agrícolas, respectivamente. Além da isenção de IR, as letras de crédito são garantidas em até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), assim como a poupança. É preciso ficar atento, no entanto, à liquidez: diferentemente do Tesouro Direto, as letras geralmente só podem ser resgatadas na data do vencimento.

“Para investidor de curto prazo, até um ano, recomendamos LCI e LCA, que variam de acordo com a taxa de juros e são garantidos pelo FGC”, diz Roberto Indech, analista da corretora Rico.

Uma segunda alternativa dentro da renda fixa são os Certificados de Depósito Bancário (CDB), uma espécie de empréstimo que o investidor faz ao banco em troca de rentabilidade diária. O retorno no tipo mais comum de CDB, que é o pós-fixado, é atrelado ao CDI, uma taxa de referência muito próxima à Selic. Instituições de pequeno e médio portes pagam mais. Os investimentos também são protegidos pelo FGC e a liquidez varia de banco para banco, mas quanto mais tempo o dinheiro fica investido, maior é o retorno. Não há taxa de administração, mas os ganhos são tributados.

Bolsa é oportunidade para longo prazo

Setor financeiro, exportadoras e varejistas menos afetadas pela crise lideram recomendações, mas investidor deve olhar para além

Bianca Pinto Lima

31 Dezembro 2015 | 06h 00

SÃO PAULO - A renda fixa domina as carteiras de investimento para 2016, mas a Bolsa não pode ser ignorada se o foco for o longo prazo. Para quem quer fazer uma aplicação para o filho, por exemplo, é um bom momento para comprar as ações aos poucos e, assim, aproveitar o período de baixa. A receita é ter tranquilidade para suportar as fortes oscilações, a cada nova incerteza nas esferas política e econômica, e muita cautela na seleção dos papéis.

As recomendações de analistas giram em torno de três tipos de empresas: as que se beneficiam dos juros altos; as que ganham com a valorização do dólar, seja por serem exportadoras ou terem operações internacionais diversificadas; e as que vendem itens essenciais e, portanto, são menos afetadas pela recessão, como o varejo farmacêutico e de alimentos.

Cautela. Ibovespa teve o terceiro ano seguido de perdas

Defesa. “São papéis bem defensivos e que têm particularidades que os farão sofrer menos nesse cenário incerto de 2016”, diz Sandra Peres, analista-chefe da corretora Coinvalores. Dentro desses setores, no entanto, é fundamental olhar cada empresa individualmente. 

Fugir da composição do Ibovespa também é um conselho recorrente, uma vez que o índice ainda é muito concentrado no setor de commodities, que sofre com a desaceleração da China e a queda dos preços. Os desempenhos recentes do índice confirmam o mau momento: em 2015, a queda foi de 13,3%, após um recuo de 2,91% em 2014 e de um tombo de 15,5% em 2013.

Nesse período de três anos, o principal índice da Bolsa despencou dos 60 mil pontos para um patamar abaixo de 44 mil. Mesmo assim, muitos analistas ainda não classificam o mercado brasileiro como barato. “A relação entre preço e lucro (das ações) está igual à média dos últimos sete anos, então a Bolsa não está cara nem barata. Mas alguns papéis estão bem descontados”, afirma Ronaldo Patah, estrategista do banco UBS. 

Três ações lideram as sugestões das seis corretoras e um banco ouvidos pelo Estado: Ambev, Itaú Unibanco e Cielo (veja a carteira completa abaixo). Esses papéis já faziam parte da maioria das carteiras do ano passado e permanecem como as grandes apostas. “O ano de 2016 será um espelho de 2015. A não ser que aconteça algo fora da curva, como o impeachment da presidente Dilma Rousseff”, comenta o analista-chefe da corretora Magliano Henrique Kleine, ao reforçar o cenário de juros e dólar altos e atividade econômica em queda.

O desempenho dos nove papéis mais recomendados para 2016, no entanto, é bem diferente. No acumulado do ano, a empresa de papel e celulose Suzano tem valorização de 72,7%, impulsionada pela variação cambial, enquanto o Grupo Pão de Açúcar aparece no extremo oposto, com recuo de 56,9%. O Estado consultou o banco UBS e as corretoras Ativa, Rico, Coinvalores, Socopa, Magliano e Guide. 

As ações mais recomendadas

Ambev ON

Recomendações: ✭✭✭✭

Variação em 2015: ▲12,99%

A fabricante de bebidas produz em larga escala e tem uma crescente fatia do mercado doméstico, o que permite uma melhor gestão de custos. Mesmo com o aumento de impostos para o segmento neste ano e o cenário mais desafiador para o consumo, os analistas destacam os seus bons resultados. Além disso, a Ambev continua avançando no exterior, principalmente na América Central e Caribe, de acordo com Sandra Peres, analista-chefe da Coinvalores. 

Itaú Unibanco PN

Recomendações: ✭✭✭✭

Variação em 2015: -12,48%

A corretora Rico destaca os “excelentes” resultados trimestrais do maior banco privado do País, que vem se beneficiando do aumento da taxa básica de juros e do forte avanço nas receitas de tarifas e serviços. Em 2015, no entanto, o papel sofreu com a menor demanda por crédito, o aumento de impostos para o setor e a perspectiva de avanço da inadimplência, em função do quadro do emprego. "Grande parte dessas questões negativas já está no preço da ação”, pondera Roberto Indech, da Rico.

Cielo ON

Recomendações: ✭✭✭✭

Variação em 2015: -1,47%

Segundo os analistas, a empresa está capitalizada e tem um bom controle de custos. Mesmo com uma queda marginal devido à crise, o volume de operações com cartões de crédito e débito continua representativo no País. “Enxergamos potencial de valorização de 21% para o papel”, destaca relatório da Socopa. Essa queda no volume de operações deve ser compensada, de acordo com a corretora, por uma melhor dinâmica de preços e um forte crescimento de receita com a antecipação de recebíveis. 

Suzano PNA

Recomendações: ✭✭✭

Variação em 2015: ▲72,73%

Exportadora de celulose, a Suzano ganha com a alta da commodity e com a valorização do dólar e ainda tem um cronograma agressivo de investimentos. 

Ultrapar ON

Recomendações: ✭✭✭

Variação em 2015: ▲20,36%

A diversificação dos negócios é o principal ponto positivo. Além da venda de combustíveis, a empresa entrou no varejo farmacêutico, que tem tido forte expansão.

BR Foods ON

Recomendações: ✭✭✭

Variação em 2015: -11,45%

A gigante do setor alimentício ainda se beneficia das sinergias entre Sadia e Perdigão. E tem forte participação no mercado externo, ganhando com o dólar.

Bradesco PN

Recomendações: ✭✭✭

Variação em 2015: -30,05%

Possui ampla rede de agências e base de clientes diversificada. Assim como o Itaú, a ação sofreu em 2015 devido às perspectivas para crédito e inadimplência. 

Pão de Açúcar PN

Recomendações: ✭✭✭

Variação em 2015: -56,94%

O grupo é afetado pela retração econômica, forte concorrência e participação na Via Varejo. Mas a ação tem preço atrativo e bons fundamentos.

Raia Drogasil ON

Recomendações: ✭✭

Variação em 2015: ▲41,88%

O setor farmacêutico é o único segmento do varejo com aumento de vendas. É uma ação bem defensiva, que deve sofrer menos em meio à crise.

Com investimentos no exterior, alta renda mira diversificação

Fundos que aplicam em ações estrangeiras se destacam; COE chega ao varejo em fevereiro e é alternativa - veja outras opções

Mariana Congo

31 Dezembro 2015 | 06h 00

SÃO PAULO - O investidor de alta renda deve aproveitar 2016 para correr risco fora do Brasil. O confuso cenário político e econômico no País dificulta projeções e prejudica o mercado. Boa parte das ações brasileiras amarga queda. Já dentre os fundos que investem em Bolsa, o de aplicações no exterior foi um dos poucos com resultado positivo neste ano: rentabilidade acumulada de 32,9%.

Investir fora do País, entretanto, ainda é restrito à alta renda – mesmo com as novas regras da indústria de fundos, em vigor desde outubro. Produtos como os fundos de investimento no exterior exigem, em média, aporte mínimo de R$ 25 mil, mas são destinados a investidores com pelo menos R$ 1 milhão em aplicações.

“O brasileiro já era um consumidor global de bens. Agora, também consegue ser um investidor global”, diz Mauro Morelli, superintendente de investimentos do Citi. Isso porque as novas regras dos fundos permitiram maior exposição a ativos estrangeiros, beneficiando o investidor com diversificação. O Citi, por exemplo, lançou quatro novos fundos focados no exterior apenas no último trimestre. Uma das diretrizes do banco é aplicar em ações da Europa e do Japão, beneficiadas pelos programas de incentivo à economia realizados pelos respectivos bancos centrais. 

O Citi tem uma preferência por fundos que fazem hedge, ou seja, operam no mercado futuro para proteger a aplicação do sobe e desce do câmbio. “O retorno vem especificamente do ativo internacional. Com isso, exercemos de fato a diversificação. Corremos o risco de outro País sem poluir o retorno com a volatilidade do dólar no Brasil”, explica Morelli.

Mas as estratégias para aplicar fora do País variam de acordo com o gestor. Na Rio Bravo, há fundos com foco no exterior que não fazem hedge. “Lançamos um fundo com uma gestora inglesa de renda variável na Europa. Com isso, capturamos o embasamento macroeconômico europeu, fazemos uma gestão ativa para ter um ganho excedente e investimos em euro. Não fazemos o hedge”, conta Eduardo Levy, gestor da Rio Bravo.

Investimentos. O movimento do câmbio, porém, é sempre uma incógnita. Enquanto alguns gestores ainda esperam muita volatilidade para o dólar em 2016, outros acreditam que a oscilação será menor, apesar de o Federal Reserve (o Fed, banco central dos Estados Unidos) ter iniciado em dezembro um ciclo de alta do juro básico, que estava zerado desde a crise financeira. “O dólar pode se fortalecer ainda mais e enfraquecer o real. No curto prazo, os títulos de crédito privado fora do País podem sofrer com a volatilidade”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da Claritas Investimentos. 

COEs. Além dos fundos, outra forma de investir parte do capital fora do País é por meio do Certificado de Operações Estruturadas (COE). 

Hoje distribuídos de maneira privada, somente a clientes de alta renda dos bancos, eles devem ganhar mercado em 2016. A instrução 569, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulamentou a oferta pública do COE. Tão aguardada em 2015 (entraria em vigor em 14 de dezembro), foi adiada para 26 de fevereiro, para adaptação do mercado, informou a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Alguns gestores ainda esperam muita volatilidade para o dólar em 2016, enquanto outros acreditam que a oscilação será menor

Com essa oferta pública, os COEs poderão ser distribuídos por corretoras e finalmente chegarão ao varejo. O produto mistura renda fixa e variável, e persegue a rentabilidade de ativos ou índices, entre eles câmbio e ações (nacionais ou estrangeiras). 

Eduardo Alhadeff, executivo do JPMorgan Asset Management, destaca que é sempre necessário avaliar o prazo. “O investidor de curto prazo deve manter posições mais conservadoras dentro do País, como CDI. Já para médio e longo prazos, há um cenário convidativo lá fora”.

Multimercados são opção para aproveitar alta do dólar

Fundos podem aplicar parte da carteira em moedas e em ativos no exterior e, assim, proteger o investidor, afirmam especialistas

Yolanda Fordelone

31 Dezembro 2015 | 06h 00

SÃO PAULO - A alta de quase 50% do dólar ao longo de 2015 assustou quem tinha viagem marcada ao exterior e alegrou aqueles que apostaram certo e conseguiram aproveitar a escalada da moeda. Neste segundo grupo estão os investidores dos fundos multimercados, que, assim como os cambiais, figuraram entre os de maiores ganhos.

“Os multimercados se beneficiam de movimentos direcionais, como o que ocorreu com o câmbio. Os gestores atentos apostaram no dólar neste ano”, diz o diretor da Claritas Investimentos Ernesto Leme.

Para 2016, a tendência da moeda americana ainda é de valorização. “O dólar deve continuar subindo no próximo ano, mas não na intensidade que vimos em 2015”, avalia o superintendente de estratégia de mercado da Bradesco Asset Management, Carlos Rocha.

A volatilidade deve voltar a ser o nome do jogo e, por conta disso, os multimercados figuram entre as apostas dos gestores. “Os multimercados, em especial os macros, têm quase uma responsabilidade de tirar proveito dos movimentos, seja ele em taxas de juros ou em câmbio. Uma forma de você se proteger da alta do dólar seria por meio desses fundos”, afirma Eduardo Levy, gestor da Rio Bravo Investimentos. 

A alta de quase 50% do dólar ao longo de 2015 assustou quem tinha viagem marcada ao exterior

Além de investir em moedas, tal categoria de fundos pode alocar parte da carteira em ativos no exterior e, assim, ficar atrelada à variação cambial. Pela instrução 555 recentemente publicada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), subiu para 20% o limite que os fundos de varejo podem aplicar no exterior. No caso de investidores qualificados, que têm ao menos R$ 1 milhão em ativos, esse porcentual sobe para 40%. 

“Quando compra ações de uma bolsa no exterior, você fica exposto à moeda do país. O gestor pode decidir usar um derivativo para eliminar essa exposição à moeda, mas geralmente não é o que ocorre, ele não faz o hedge dessa posição”, comenta Rocha. 

Já os fundos cambiais protegem contra oscilações bruscas da moeda, mas são considerados arriscados. Pelo menos 80% da carteira deve estar em ativos relacionados ao euro ou dólar. Por isso, são indicados apenas para quem já possui uma carteira diversificada em outros produtos.

Conservadorismo deve dominar cenário do País em 2016

Com inflação em alta e expectativa de aumento da taxa de juros, aplicações tradicionais vão prevalecer no portfólio dos brasileiros

Luiz Guilherme Gerbelli

31 Dezembro 2015 | 06h 00

SÃO PAULO - Os investimentos conservadores devem dominar o portfólio dos brasileiros no ano que vem. A combinação perversa entre as incertezas nas áreas econômica e política mostra que 2016 será um ano para correr pouco risco.

Por ora, as previsões para a economia do Brasil indicam que o ano que vem pode ser tão difícil como o atual. 

O País deve continuar o seu turbulento processo de ajuste fiscal num cenário de forte recessão, inflação elevada e aumento da taxa básica de juros. 

A inflação provavelmente vai descer do patamar de dois dígitos, mas tende a seguir insistentemente acima do teto da meta estipulado pelo governo (6,5%), o que vai dificultar o ganho real do investidor. Como consequência, o Banco Central já sinalizou que deverá promover novos aumentos da Selic com o objetivo de conter a alta dos preços.

A dificuldade na área econômica ainda vai se somar a um quadro turbulento político de difícil previsão. “Em 2016, nós estamos muito impactados pelo tamanho do ajuste fiscal que o governo de fato vai conseguir entregar”, afirma Luciane Ribeiro, diretora do Santander Asset Management. 

Na lista de investimentos que trazem ganho garantido em períodos de subida de juros aparecem os tradicionais fundos de renda de fixa e DI.

“Esses produtos, na sua maioria, têm liquidez e a garantia de que estão tendo um retorno um pouco acima da inflação”, diz Marcos Daré, diretor de investimentos do Bradesco.

A composição de um portfólio mais conservador também pode englobar papéis do Tesouro Direto. Um título indexado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chega a pagar juros reais de 7,5% ao ano.

“Ou seja, o investidor aplica num produto de baixo risco que paga, além da inflação, mais 7,5% de juros”, destaca Liao Yu Chieh, professor do Insper. “Para o investidor com um prazo mais amplo, é uma boa recomendação.” 

Diversificação. Mas a aposta em investimentos conservadores não significa que o brasileiro tenha de fugir de aplicações de maior risco e evitar a diversificação da carteira.

“Num período de incertezas, se o investidor tem tolerância a risco, ele pode ter um crescimento financeiro bastante grande”, afirma Daré.

Para definir uma estratégia, é preciso ter em mente qual é o prazo desejado e o tamanho do risco que se pretende correr. “A diversificação é sempre saudável. Muitas vezes, ficar conservador é tomar risco, porque no médio e longo prazos o investidor pode perder oportunidades”, afirma Luiz Sorge, presidente da BNP Paribas Asset Management. 

A importância da diversificação, diz Sorge, está na possibilidade de aproveitar a recuperação do mercado assim que ela ocorre. Isso porque, normalmente, as mudanças que podem trazer algum tipo de ganho são percebidas primeiro pelos investidores institucionais, e não pelas pessoas físicas.

Exterior. Com essa ideia de pulverizar as aplicações, uma das apostas está em ações de bolsas dos Estados Unidos e da Europa. O investidor consegue ter acesso a esse tipo de produto por meio de fundos locais que investem uma parcela do patrimônio fora do País.

“Temos buscado diversificar mais fora do Brasil, dado o atual cenário interno recessivo, que deve ter um impacto no resultado das empresas. Acho bastante positivo aplicar em bolsas internacionais”, destaca Luciane, do Santander.

Leia abaixo as entrevistas com os especialistas

Luciane Ribeiro, diretora executiva do Santander Asset Management

‘Com o nível atual de retorno, ninguém precisa buscar riscos’

A diretora executiva do Santander Asset Management, Luciane Ribeiro, acredita que o investidor não precisa correr risco para ter retorno nas aplicações financeiras em 2016.

Qual é avaliação do cenário de investimento para 2016?

O Brasil continua tendo a taxa de juros mais alta do mundo, portanto o investidor tem de ser conservador. O mercado está prevendo um aumento dos juros para 2016. Então, na minha avaliação, com esse nível de retorno, ninguém precisa buscar riscos.

Nesse cardápio de ativos, quais seriam as opções?

Os fundos DI e de renda fixa, de uma forma geral.

E a renda variável?

Temos buscado diversificar mais fora do Brasil, dado o cenário atual interno recessivo, que deve ter um impacto no resultado das empresas. Acho positivo fazer uma diversificação com as bolsas internacionais. Pode ser bolsa americana ou mesmo europeia, por exemplo.

Qual deve ser o impacto do ciclo de alta do juro americano?

É sempre ruim para as economias emergentes, porque é o fortalecimento do dólar vis-à-vis outras moedas. Mas, no Brasil, o impacto tende a ser um pouco menor, porque estamos caminhando para uma taxa de juros bastante elevada. Acho que a insegurança do lado político impacta muito mais o investidor de fora do País do que a própria elevação da taxa de juros americanos. Acredito que a taxa vai chegar a 1,25%, o que, comparado com o nosso juro real, é pouco relevante.

O cenário mais conservador para 2016 se estende para os próximos anos?

É difícil fazer qualquer tipo de projeção para 2017. Em 2016, nós estamos muito impactados pelo tamanho do ajuste fiscal que o governo de fato vai conseguir entregar. O ajuste não é tão simples e rápido. Vamos ter um processo de dois anos de recessão, de taxa de juros altas e desemprego crescendo. Só que esse cenário é mais agudo em 2016 e, se o resultado disso for mais rápido, ou seja, se o governo conseguir fazer o ajuste mais rapidamente, talvez 2017 seja um pouco melhor. 

Marcos Daré, diretor de investimentos do Bradesco

‘É importante o investidor ter noção da tolerância ao risco’ 

Para o diretor de investimentos do Bradesco, Marcos Daré, o cenário de 2016 também deve favorecer opções mais conversadoras, mas é importante que o investidor conheça o horizonte de investimento e o seu apetite ao risco.

Como o sr. analisa os investimentos para 2016? 

O que a gente recomenda é que os clientes optem por produtos mais conservadores. Agora, antes de fazer a escolha, é importante ter uma noção do horizonte do investimento e da tolerância ao risco que o investidor quer correr. Num período de incertezas, se um investidor tem tolerância a risco, ele pode ter um crescimento financeiro bastante grande.

Então o sr. enxerga um cenário mais favorável para aplicações que sejam conservadoras?

Exceto o cliente que manifesta uma tendência explícita de correr risco, temos procurado focar em produtos conservadores. Esses produtos, na sua maioria, têm liquidez e a garantia de que estão tendo um retorno um pouco acima da inflação. E, se o cenário se estabilizar aqui ou lá fora, o recurso está na mão do investidor para ele fazer o que bem entender.

Qual investimento conservador o sr. recomenda?

Pelo cenário que temos hoje, nós recomendamos os fundos referenciados DI. A outra sugestão são os produtos isentos (de Imposto de Renda), como LCI e LCA. 

E para os investidores com perfis de moderado a arrojado?

Para o perfil moderado, a carteira recomendada seria 70% em baixo risco, 20% em produtos de médio risco, como os fundos multimercados, e 10% em produtos de alto risco. Agora, para o investidor com um perfil dinâmico, a pizza seria dividida de outra forma: 55% em produtos de baixíssimo risco, 30% em produtos de médio risco, e 15% em opções de alto risco. Se a pessoa tem tolerância a risco, ela pode entrar em um fundo de ação ou um fundo atrelado a BDR (Brazilian Depositary Receipts), que investe em ações de empresas americanas.

Luiz Sorge, presidente da BNP Paribas Asset Management

‘Movimento para a renda fixa tem de começar a ser revertido’

Na avaliação do presidente da BNP Paribas Asset Management, Luiz Sorge, embora o cenário favoreça produtos conversadores, é importante que o brasileiro diversifique e se prepare para a mudança do mercado.

Como o sr. avalia o cenário de investimento?

Acredito que a volatilidade seguirá e que ainda haverá uma poluição na leitura de mercado em relação aos aspectos não técnicos. Essa foi a grande dificuldade de 2014, por causa da eleição, e de 2015, devido ao cenário político ainda conturbado. 

E o cenário para 2016?

A grande novidade é que estamos preparados e sabemos que será um ano difícil. Em termos de atividade econômica, continua sendo complicado. Em momentos como esse, aumenta por parte do investidor a aversão ao risco. Ele fica mais focado no curto prazo, com mais receio de tomar risco. Talvez seja um problema cultural nosso reagir aos movimentos de curto prazo, que são conjunturais

Então como o investidor deve se comportar? 

Cada pessoa tem de olhar deforma estruturada para os seus investimentos, pensar de maneira racional nos seus objetivos e mirar um prazo mais longo. Com relação a 2016, o aspecto de indefinição política e econômica deve perdurar, mas não será para sempre. O mercado financeiro antecipa o movimento da economia real.

O que ocorre nesse ponto de inflexão?

Provavelmente haverá mais fluxos externos e uma soltura dessas amarras do investidor local em relação ao risco. Só que isso ocorre de maneira rápida. É por esse motivo que a diversificação tem um papel importante. Diante disso, o movimento de migração para instrumentos de renda fixa tem de começar a ser revertido, para que haja a oportunidade de aproveitar (essa inflexão).

E qual é a recomendação para o investidor que busca um pouco mais de diversificação?

Existem fundos que têm a sua carteira com uma composição atrativa para esse período de subida de mercados. O multimercado é sempre uma estratégia boa, porque ele se beneficia da arbitragem entre vários mercados e ativos. 

Os economistas ainda estão traçando o cenário de 2016, por enquanto. Em 2017, se todos as medidas colocadas forem cumpridas, a conjuntura pode ser mais tranquila.

O investidor em 2016: ter sangue frio é pré-requisito

Muitos podem pensar: já que as coisas estão ruins, chegamos ao fundo do poço e a tendência agora é melhorar. Mas as coisas não funcionam assim

Fábio Gallo*

31 Dezembro 2015 | 06h 00

As previsões para 2016 estão cada vez mais pessimistas. Os ambientes político e econômico estão muito ruins e o cenário não é nada promissor: dólar nas alturas, Bolsa em baixa, juro subindo, declínio do PIB, investimentos em queda e preço das commodities caindo. 

O fato é que muitos podem pensar: já que as coisas estão ruins, chegamos ao fundo do poço e a tendência agora é melhorar. Mas as coisas não funcionam assim. Ainda temos o “volume morto” e há muita incerteza. 

Deixe passar algum tempo antes de se arriscar

Investir em 2016, portanto, vai exigir ainda mais conhecimento, planejamento, dedicação e, antes de tudo, sangue frio. No caso da Bolsa, quem está fora deve esperar por um momento de calmaria. Deixe passar algum tempo antes de se arriscar. Quem está dentro, muita tranquilidade: somente saia da sua posição dentro de uma estratégia bem definida ou em caso de necessidade de liquidez. Lembre-se: o prejuízo só se torna irreversível quando os papéis são vendidos. 

Os mercados de câmbio e ouro ainda devem sofrer com a volatilidade, mas são alternativas para aqueles que desejam diversificar carteiras ou para investidores com muito apetite para risco.

A renda fixa, por sua vez, permanece como o porto seguro no Brasil, já que a inflação resistente induz a aumentos da taxa de juros. Assim, casar os objetivos financeiros com as diversas opções de renda fixa é uma ótima maneira de investir em 2016. 

A caderneta de poupança definitivamente não vale a pena, porque nem sequer paga a inflação. Já os títulos do Tesouro Direto são bastante atrativos. O Tesouro IPCA (NTN-B) remunera a uma taxa fixa mais a inflação, com vencimentos entre 2019 e 2050. Para aqueles que não acreditam em uma alta dos juros, o Tesouro Prefixado (LTN) e o Tesouro Prefixado com juros semestrais (NTN-F) são alternativas. E para os que buscam prazos mais curtos ou não têm claro quando precisarão do dinheiro, o Tesouro Selic é o melhor caminho.

Outras boas opções em renda fixa são as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), ambas isentas de Imposto de Renda, mas com prazos de resgate acima de seis meses. Também vale a pena pesquisar opções de CDBs. 

Fundos de investimento existem para todos os gostos e têm bons retornos. Mas cuidado com as taxas, que podem reduzir, e muito, a rentabilidade líquida.

Portanto, lembrem-se: o mais importante é escolher o produto financeiro de acordo com o orçamento e os objetivos. E 2016 exigirá ainda mais planejamento e estratégia.

*FÁBIO GALLO É COLUNISTA DO 'ESTADO' E PROFESSOR DE FINANÇAS DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA (PUC-SP) E DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (FGV-SP)

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