Yuya Shino/File Photo/Reuters
Yuya Shino/File Photo/Reuters

O melhor investimento desde 1926? Apple

Na história dos mercados, a companhia gerou mais lucro para seus investidores do que qualquer outra empresa americana

Jeff Sommer, The New York Times

27 Setembro 2017 | 05h00

O iPhone ajudou a catapultar a Apple à posição de empresa de capital aberto mais valiosa do mundo. Mas agora a Apple atingiu uma outra marca – ainda mais impressionante – no mercado de ações.

Na história dos mercados desde 1926, a Apple gerou mais lucro para seus investidores do que qualquer outra empresa americana. Essa foi a conclusão de um estudo sobre os rendimentos do mercado de ações realizado por Hendrik Bessembinder, professor de finanças da W. P. Carey School of Business da Universidade Estadual do Arizona.

Suas descobertas são surpreendentes: a maioria das ações não é bom investimento. Elas não superam nem os insignificantes retornos mensais das letras do Tesouro, descobriu ele.

Mas algumas ações têm desempenhos extraordinários. Apenas 4% de todas as ações negociadas publicamente representam a totalidade do patrimônio líquido obtido pelos investidores no mercado de ações desde 1926, concluiu o professor. Apenas 30 ações correspondem a 30% da riqueza líquida gerada pelo mercado nesse longo período, e 50 ações representam 40% da riqueza líquida.

Eu já havia escrito sobre as descobertas de Bessembinder, e muitos leitores pediram para ver todas as ações da lista de geração de riqueza do professor. Então, atendendo a meu pedido, ele atualizou seus cálculos até dezembro de 2016 e forneceu novos rankings em seu artigo

“Do Stocks Outperform Treasury Bills” [As ações superam as letras do Tesouro?]. Reproduzimos os elementos cruciais aqui, com uma importante revisão: hoje, no 10º aniversário do iPhone, a Apple é a número 1.

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Em conversa por telefone, o professor Bessembinder me lembrou que o mercado de ações é um alvo sempre em movimento e que seus rankings, embora válidos até o final de 2016, não capturam as oscilações bruscas deste último ano. Em seu ranking de 2016, a Exxon Mobil, e não a Apple, aparecia no topo, com uma geração de riqueza líquida de mais de US $ 1 trilhão. A Apple estava logo atrás, com cerca de US $ 745 bilhões.

Mas foi um ano maluco. As ações da Exxon Mobil caíram mais de 11%, em um momento de preços fracos no setor de energia, enquanto a Apple, que acaba de lançar uma série de novos iPhones, vive um aumento espetacular em suas ações, subindo mais de 37%.

Se você fizer os cálculos como eu fiz, vai ver que, neste momento, a Apple pulou à frente da Exxon Mobil, com uma geração de riqueza líquida total em torno de US $ 1 trilhão. Contando os dividendos, as perdas da Exxon Mobil no mercado de ações reduziram seu total para pouco acima dos US $ 910 bilhões. (Note-se que, em termos técnicos, o professor Bessembinder define a geração de riqueza líquida como o rendimento total das ações acima do rendimento mensal do Tesouro, que em média foi de 3,38% ao ano, de modo que os rendimentos reais das ações da Apple, da Exxon e de outras empresas são maiores que o indicado).

“É notável que a Apple tenha gerado tanta riqueza em um período de tempo tão curto”, disse ele. “A Exxon levou décadas para juntar esses rendimentos”. 

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A Exxon está entre as principais empresas geradoras de riqueza que negocia papéis no mercado de capital aberto – sob o nome de uma antecessora, a Standard Oil de Nova Jersey – desde o início da série histórica do professor Bessembinder, em julho de 1926. Entre outras estão General Electric, IBM, Altria, Coca- Cola, DuPont, PepsiCo e Schlumberger.

Ele se baseou em um banco de dados desenvolvido na Universidade de Chicago, conhecido como Centro de Pesquisa em Preços, o qual registra praticamente todos preços de ações cotadas nos Estados Unidos. O Centro de Pesquisa utiliza critérios lógicos e muito rigorosos para determinar quando as ações entram e saem de suas listas, com alguns resultados que à primeira vista podem parecer surpreendentes.

A General Motors, por exemplo, ocupa o 8º lugar. Começou a negociar ações em 1926, mas a lista diz que deixou de existir em junho de 2009. Uma empresa chamada General Motors existe hoje, é claro, mas, como explicou Chloe Fu, gerente de suporte e relacionamento do Centro de Pesquisa, a falência da GM os levou a declarar a antiga empresa encerrada, com uma nova GM ganhando vida em junho de 2009. Consequentemente, os rendimentos da nova GM não estão incluídos no total da empresa.

A lista é um ranking fascinante de grandes vencedores do mercado de ações. Mas, por uma série de motivos técnicos, não é uma tabela direta dos maiores geradores de riqueza da história do mercado. Por exemplo, os ganhos de longo prazo gerados pela Exxon Mobil e suas antecessoras estão subestimados por causa da duração limitada e dos critérios rígidos do banco de dados.

A riqueza da Exxon Mobil não inclui a Mobil, que, de acordo com a lista do professor Bessembinder, deixou de existir em novembro de 1999, quando se fundiu com a Exxon. E, voltando ainda mais no tempo, Exxon e Mobil estavam entre as descendentes da Standard Oil, criada por John D. Rockefeller e seus sócios no século XIX. A riqueza total gerada pelo conjunto dessas empresas derivadas – entre as quais também estão a Amoco e a Chevron – não aparece em nenhum lugar, por causa da lógica da lista.

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Outras esquisitices são explicadas pela abordagem do professor Bessembinder junto aos critérios do Centro de Pesquisa. Na lista existem, por exemplo, duas empresas chamadas AT&T, e nenhuma delas contabiliza a riqueza líquida total gerada pelos investimentos da antiga American Telephone and Telegraph Company, no início do século XIX.

Para começo de conversa, a “antiga” AT&T, ou seja, “Ma Bell”, está em 17º lugar. Diz-se que deixou de existir em novembro de 2005. Outra AT&T aparece em 33º lugar. Essa empresa ganhou vida em março de 1984, como “Southwestern Bell”, derivada da antiga AT&T, resultante de um processo antitruste. Uma descendente da Southwestern Bell comprou o nome da AT&T em 2005 e hoje opera sob ele.

Outras primas da AT&T também estão na lista: a Verizon, bem como a Comcast, que resultaram de uma fusão entre a AT&T Broadband e uma empresa mais antiga também conhecida como Comcast. As coisas ficam menos emaranhadas no caso das empresas mais recentes.

Como escrevi em julho, a Amazon, que começou a operar em 1997, subiu para o 14º lugar. Embora não tenha uma vida tão longa, se comparada à Exxon Mobil, seu rendimento anual é o maior da lista, 37,4% até dezembro. Um grupo de empresas jovens também teve resultados notáveis.

O Facebook, que começou a negociar em junho de 2012, é o mais jovem da lista, com um rendimento anual de 34,5%. A Visa, que teve sua oferta pública inicial em 2008, é a segunda empresa mais nova e tem rendimento de 21%, seguida pelo Alphabet (Google), que ficou em 11º lugar, com rendimento anual de 24,9%.

E, então, essa grande máquina de riqueza que é a Microsoft aparece como a terceira maior geradora de riqueza. Desde 1986, teve um rendimento anual de 25%, fazendo de seu fundador, Bill Gates, o homem mais rico do mundo, com um patrimônio líquido de mais de US $ 87 bilhões, de acordo com Bloomberg.

Nenhuma lista de empresas geradoras de riqueza pode ficar completa sem a Berkshire Hathaway. Ela está em 12º, logo atrás da Alphabet, com rendimento anual de 22,6%. Em comparação, o rendimento da Exxon Mobil foi de apenas 11,94%. Por que o rendimento da Berkshire é tão maior? Porque não inclui as décadas de desempenho medíocre da antiga empresa têxtil Berkshire Hathaway, que começou em 1929. O Centro de Pesquisa diz que, nessa lista, a Berkshire começou em novembro de 1976. Era uma holding de Warren E. Buffett, que a levou a ganhos fabulosos. Graças à Berkshire, Buffett se tornou um homem rico, com um patrimônio líquido estimado pela Bloomberg em US $ 79 bilhões.

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Qualquer pessoa que tenha investido na Apple ou na Microsoft ou, na verdade, em qualquer uma dessas empresas desde sua criação se deu muito bem. Você pode olhar para esses dados e concluir que comprar ações das melhores empresas é uma maneira infalível de enriquecer. Mas não é bem assim. Onde você encontra essas empresas? Não é nessa lista. 

“O problema é que não tenho ideia de quais empresas gerarão os melhores retornos nos próximos 10, 20 ou 30 anos”, disse o professor Bessembinder. “Provavelmente serão empresas das quais nunca ouvimos falar. Talvez sejam empresas que nem existem hoje”. 

Vale a pena analisar essa lista para compreender o passado. Mas, infelizmente, não é um guia para o futuro, exceto por um ponto: “Em um mercado onde a maioria dos ganhos são atribuíveis a uns poucos grandes vencedores, difíceis de identificar com antecedência”, disse o professor Bessembinder, “faz muito mais sentido diversificar sua posição, evitando o perigo de não ter os grandes vencedores em seu portfólio”.

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