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Por que não tomo decisões financeiras em meu smartphone

- Atualizado: 29 Março 2016 | 05h 00

Telefones inteligentes podem incentivar decisões que não são tão inteligentes, especialmente no tocante às finanças

De acordo com recente levantamento do Federal Reserve, 52% dos adultos possuidores de um smartphone realizam os serviços bancários pelo celular. É fácil compreender a atração por esses aplicativos financeiros, pois por meio deles podemos atualizar em tempo real nosso saldo de conta corrente e gastos que foram feitos. Uma pesquisa que realizei com Yaron Levi mostrou que tais atualizações proporcionam reais benefícios, ajudando as pessoas a reduzir seus gastos em 15,7%.

Mas hoje muitos aplicativos financeiros vão mais além do que fornecer informação. Eles também nos permitem realizar uma enorme série de operações. Podemos vender ações, tomar emprestado dinheiro de um amigo e embolsar nosso fundo de pensão sem interagir com outra pessoa.

Minha preocupação é que esses chamados telefones inteligentes incentivem decisões que não são tão inteligentes, especialmente no tocante às nossas finanças. Recentemente fiz um estudo piloto com John Payne da Duke University sobre essa questão. As pessoas tiveram um desempenho muito pior num teste de conhecimento financeiro - (propusemos a elas 10 questões sobre assuntos como inflação e taxas de juro), quando responderam ao teste em um smartphone em comparação com aquelas que usaram caneta e papel.

Apps permitem vender ações, tomar dinheiro emprestado e embolsar nosso fundo de pensão sem interagir com outra pessoa

Apps permitem vender ações, tomar dinheiro emprestado e embolsar nosso fundo de pensão sem interagir com outra pessoa

Estes novos dados se baseiam em muitas evidências delineando os riscos potenciais representados pela tecnologia digital no momento de tomar decisões. Como numerosos estudos concluíram, esses aparelhos fragmentam nossa atenção, levando-nos a realizar múltiplas tarefas e compreender menos o que lemos. Eles podem mesmo encorajar decisões irrefletidas: segundo um estudo, as pessoas que encomendam sua pizza online escolhem aquelas com 33% mais cobertura, 20% mais bacon e 6% mais calorias.

Reunidos, esses estudos sugerem que devemos ser cuidadosos quanto a tomar decisões importantes usando o celular. Como os smartphones nos incitam a digitar rapidamente podemos negligenciar as consequências a longo prazo do nosso comportamento. Uma pizza coberta de bacon pode ser deliciosa, mas provavelmente não é boa para nossa dieta. Do mesmo modo, vender ações pelo telefone quando o mercado espirra pode temporariamente diminuir nosso pânico, mas é bom para nosso futuro financeiro?

Esta pesquisa levou-me a não mais adotar qualquer decisão financeira importante pelo meu smartphone, seja reequilibrar minha conta no fundo de pensão ou fazer uma oferta por uma casa. Não sou nenhum Luddite, mas não acho que aparelhos móveis são o melhor meio para adotar grandes decisões que envolvam dinheiro.

Vale a pena sublinhar que o setor de aposentadoria vem seguindo na direção oposta, introduzindo aplicativos que nos permitem executar praticamente qualquer tipo de transação financeira por meio de nosso smartphone. Estou especialmente preocupado com a pressão para se deixar nosso fundo de aposentadoria disponível nos smartphones.

Queremos realmente que as pessoas gastem as economias que fizeram durante a sua vida com um simples toque comprando num shopping? O dinheiro extra pode nos deixar empolgados. Mas e quanto às implicações fiscais? São em momentos como este que a facilidade e a rapidez das decisões tomadas por meio do smartphone podem ser contraproducentes.

O smartphone veio para ficar, consumindo cada vez mais nossa largura de banda mental. O problema é como usamos esses formidáveis aparelhos para que nos ajudem a pensar melhor, não pior. Talvez o primeiro passo seja entender que nem toda decisão é benéfica usando a pequena tela do celular./ Tradução de Terezinha Martino 

*Schlomo Benartz é professor e codiretor do Behavioral Decision Making Group na Anderson School of Managemente da Universidade da Califórnia e autor do livro "The Smarter Screen"

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