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Um terço dos devedores renegocia débitos, mas não consegue pagá-los

Brasileiro desconhece o próprio orçamento, mas já é possível encontrar ajuda psicológica e serviços que renegociam ou refinanciam as dívidas

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Yolanda Fordelone

10 Abril 2016 | 05h00

O brasileiro endividado cortou gastos com lazer, roupas e restaurantes para quitar os débitos, mas, ainda assim, um terço da população que renegociou o pagamento não está conseguindo honrá-lo e voltou à condição de inadimplente. Para quem está nesta condição, é possível encontrar serviços especializados na renegociação ou refinanciamento das dívidas e até auxílio na parte psicológica.

“Falar de finanças é um tabu, ainda mais se for sobre dívida. As pessoas não sentam para olhar o quanto ganham e gastam”, diz a economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), Marcela Kawauti. Pesquisa da empresa junto com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) apontou que seis em cada dez brasileiros não sabem quanto devem.

O inadimplente precisa começar pondo no papel todas as dívidas, verificando as mais caras (com maior juro) e checando o salário líquido (após todos os descontos). Desde 2012, a Fundação Procon-SP oferece ajuda profissional a superendividados, aqueles cuja dívida ultrapassa 50% dos ganhos, por exemplo. Após preencher uma planilha financeira e passar por uma triagem, que seleciona os casos mais graves, o devedor recebe orientações. Em audiências, especialistas fazem a intermediação na renegociação da dívida com bancos e outras empresas.

Uma opção é trocar dívidas caras, como a do cartão de crédito, cujo juro foi de447,5% ao ano em fevereiro, por mais baratas. Há empresas que empacotam todas as dívidas e as refinanciam, como a Novi, onde é possível tomar um empréstimo com garantia imobiliária ou de automóveis. No caso em que o imóvel é a garantia, a taxa de juros atual é de 18,86% ao ano e o empréstimo soma até 50% do valor do bem. As parcelas são de, no máximo, 30% da renda do cliente e o prazo é de até 15 anos. 

“O cliente pode tomar nosso empréstimo para vários fins, mas cerca de 60% usam o serviço para consolidar dívidas”, afirma o presidente da Novi, Luiz Pedro Albornoz. A vantagem seria o alongamento da dívida, por um juro menor.

Uma das maneiras de trabalhar o problema da dívida crônica e compulsiva é buscar apoio nos Devedores Anônimos. “Eu queria ter o dinheiro, não olhava juro nem quanto devia. Conforme o problema aumentou, acabei recorrendo ao álcool”, relata um membro do grupo, que preferiu não se identificar. Em encontros semanais, os participantes recebem o auxílio para falar do problema e aprender a lidar com o que o grupo considera uma doença que não pode ser curada, mas detida. Dividir e ouvir a experiência de outras pessoas faz com que o endividado se identifique e passe a buscar soluções, segundo o membro. Para participar, não é preciso se identificar e as reuniões não são pagas.

Desinformação. Desemprego e descontrole financeiro aparecem como os principais motivos para o nome sujo na praça. Na pesquisa, a perda do emprego foi citada por 29,2%. “Não deixa de ser um descontrole, pois indica que, quando estava empregada, a pessoa não fez nenhuma reserva”, diz Marcela, do SPC Brasil. 

O problema começa nas disciplinas ensinadas nas esolas. O tema finanças geralmente fica de fora das grades. "A falta de conhecimento, porém, não é exclusividade da baixa renda. Há clientes que chegam com grandes dívidas, mesmo tendo renda mensal de R$ 50 mil ou mais", diz Luiz, da Novi. Além da falta de educação financeira nas escolas e de conversa em casa, a desinformação é motivada pelo fato de o amplo acesso ao crédito ser um fenômeno recente, lembra Thiago Alvarez, sócio do aplicativo GuiaBolso, que ajuda os usuários a controlar a movimentação das contas e cartões. “O boom do crédito é recente, depois dos anos 2000. Trata-se de uma primeira geração que está tendo acesso ao crédito e aprendendo a usá-lo”, avalia.

Confusões na hora de utilizar o crédito também contribuem para o endividamento. Há quem confunda o pagamento do mínimo do cartão de crédito, por exemplo, com um parcelamento da dívida, sem juros. Outros acham que o cheque especial é uma extensão do salário. "É muito conveniente facilitar o acesso às duas linhas de crédito mais caras. O cliente as usa sem saber que está se endividando", afirma Alvarez.

Para o educador financeiro da Novi, Vinicius Azambuja, é preciso entender que o cartão de crédito não é um dinheiro extra, mas um meio de pagamento. "A questão psicológica também piora a situação. O crédito é pré-aprovado. O endividado não precisa falar com ninguém, não expõe que são devedoras", diz.

Se a dívida ficou mais cara por conta da alta do juro, o lado bom é que os bancos estão mais dispostos a negociar, segundo Alvarez. "Estão mais abertos a quem já está inadimplente. Os bancos estão vendo que é melhor ganhar um pouco do que não ganhar nada", avalia.

SERVIÇO

- Programa de Apoio ao Superendividado (Procon-SP)

Preencha a planilha do programa e aguarde o contato em até 30 dias 

- Negociação

A Serasa Consumidor possui um serviço online onde o devedor consegue ver suas dívidas e entrar em contato com as empresas para tentar negociá-las.

- Financiamento com garantias

Novi Soluções Financeiras:

* Imóvel como garantia

Taxa efetiva anual: 18,86%

Valor mínimo e máximo do imóvel: R$ 150 mil e R$ 4 milhões

Valor mínimo e máximo do financiamento: R$ 50 mil e R$ 2 milhões

Porcentual máximo de financiamento: até 50% do valor de avaliação do imóvel

Prazo mínimo e máximo de financiamento: 1 e 15 anos

* Carro como garantia

Característica: o veículo deve estar quitado

Valor mínimo: R$ 1.500 (não há valor máximo)

Porcentual de financiamento: até 80% do valor do veículo (Tabela Molicar)Prazo mínimo e máximo do financiamento: 24 e 48 meses

- Devedores Anônimos

Há reuniões em diversas cidades.

Em São Paulo:

Grupo Jardins 

Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Rua Sampaio Vidal, 1055 - Jardins

Dia da semana: Terças e quintas, das 18h às 20h; Quartas, das 18h às 19h30;            Sábados, das 17h às 19h

E-mail: devedoresanonimosspjardins@gmail.com

Grupo Pacaembu

Rua Itápolis, 1020 - Pacaembu 

Dia da semana: Domingo, das 10h às 12h

Grupo Moema

Praça Nossa Senhora da Aparecida, 191, 3º andar, sala 17 - Moema (Próximo a Avenida Ibirapuera)

Dia da semana: Segunda - Horário: 20 às 22h

- Aplicativos de controle financeiro

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'Utilizava o limite do cheque especial para pagar as contas'

A técnica de enfermagem Jéssica Duarte chegou a dever seis vezes o que ganhava e, após conseguir um segundo emprego, conta como fez para limpar o nome

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11 Abril 2016 | 05h00

"Conheci o crédito no meu primeiro emprego com registro em carteira, quando eu tinha 18 anos. Para receber o salário era necessário abrir conta em um banco. Com isso, tive direito aos 'benefícios', ao cartão de crédito, à conta corrente com cheque especial. Me descontrolei por vários motivos. Eu era muito nova, na escola pública não tive aula de educação financeira, moro com meus avós e eles não tinham como me ensinar nada, pois também não sabiam lidar 'com essa tecnologia'. Além disso, os cartões de crédito te dão a falsa ilusão de que você tem dinheiro. 

Se tornou uma bola de neve porque quando chegava a fatura do cartão eu utilizava o limite do cheque especial para pagar as contas. Quando entrava o meu salário na conta, já era descontado o limite e os juros. Aí eu utilizava o limite novamente. Fora isso, tinham os cartões de lojas, uns três, que eu também utilizava.

Não tomei uma decisão de dar um basta, foi aos poucos. Comecei a me incomodar com as dívidas, pois o limite do meu cartão era baixo, de apenas R$ 300. Vi que eu só gastava com bobeiras, como roupas. Se precisava comprar algo um pouco mais caro, um celular, por exemplo, precisava pedir favor para alguém. Tinha vergonha de fazer isso, achava desagradável. Foi aí que decidi que ia limpar o meu nome.

Jéssica arranjou dois empregos para limpar o nome

Não devia muito, mais ou menos uns R$ 3 mil, mas ganhava pouco na época. O salário era aproximadamente R$ 650, mas ainda tinham os descontos. Recebia uns R$ 500. Não conseguia me manter e quitar a dívida. Devia em três lojas. Ia em uma a cada mês, negociava e pagava. Mas, mesmo assim, ainda gastava mais do que o meu salário. Se uma amiga me chamasse para viajar, por exemplo, eu não falava não: pegava o cartão de crédito ou o dinheiro das férias e ia sem me preocupar.

Até que comecei a namorar, em 2014, e por algum motivo entramos no assunto de contas. Ele percebeu que eu nunca tinha um real no bolso. Disse que eu precisava me organizar, me emprestou quase R$ 3 mil para eu quitar as dívidas. Arrumei outro emprego para que pudesse quitar três empréstimos que tinha na época e devolver o dinheiro que ele havia me emprestado. Fiquei trabalhando doze horas todos os dias por seis meses, com apenas quatro dias de folga por mês.

Tenho o nome limpo há uns três anos mais ou menos. Agora estou conseguindo conquistar pequenas coisas como tirar carteira de habilitação, ir a um teatro. Acho que a nossa geração é um pouco consumista. Me esforço para controlar as contas. Tem mês que dou uma exagerada, mas tento maneirar no outro."

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10 Abril 2016 | 05h00

Ter dívidas costuma ser motivo de preocupação, mas, segundo o SPC Brasil, é preciso ter calma na hora de quitar os débitos. O primeiro passo é organizar a planilha e encarar o problema de frente. Teste abaixo se você está preparado para pagar suas dívidas.

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