‘Eu sou uma pessoa fácil? Não’, diz Sorrell, ex-WPP, em Cannes Lions
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‘Eu sou uma pessoa fácil? Não’, diz Sorrell, ex-WPP, em Cannes Lions

fernandoscheller

22 Junho 2018 | 12h59

Fernando Scheller, enviado especial a Cannes

Dois meses depois de deixar o comando da holding britânica WPP – um negócio que ele ajudou a fundar e que inclui agências poderosas como a Young & Rubicam e a Ogilvy –, em meio a uma investigação de mau uso de recursos da companhia e de denúncias de maus tratos por funcionários, o executivo Martin Sorrell voltou ao palco do Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade. E disparou contra os responsáveis pelas denúncias que lhe fizeram perder a posição de comando.

O executivo negou qualquer desvio de dinheiro da empresa e também a hipótese de que esses recursos teriam sido usados para a contratação de prostitutas. Sobre as reclamações de funcionários sobre seu comportamento – uma reportagem do Financial Times ouviu 25 colaboradores que relataram “abusos verbais” e tratamento “cruel”, afirmou: “Eu sou uma pessoa fácil de se lidar? Não. Eu sou exigente? Sim.”

Magnata: Sorrell presidiu o grupo de publicidade por 33 anos Foto: Justin Tallis/AFP

O retorno ao palco de Cannes, justamente em um momento em que enfrenta críticas de todos os lados – incluindo extensas reportagens do FT, da The Economist e do Wall Street Journal –, tem uma razão econômica. Apenas seis semanas depois de empacotar seus pertences e deixar a cadeira de chefe da WPP após 33 anos, Sorrell anunciou uma nova aventura corporativa: a S4, que será estruturada com dinheiro do mercado financeiro e de fundos de private equity.

O negócio virá para concorrer com os grandes grupos de comunicação – entre eles WPP, Publicis, IGP, Havas e Dentsu. Em entrevista depois de ter descido do palco de Cannes Lions, onde foi entrevistado pelo jornalista e escritor americano Ken Auletta, Sorrell deu detalhes do que pretende fazer. Originalmente, Auletta seria entrevistado por Sorrell, mas ele decidiu inverter os papéis e fazer o entrevistador falar. “Vamos tirar o elefante da sala de estar”, propôs o jornalista, autor do livro “Frenemies”, sobre os atuais desafios do setor de publicidade.

Pretensões. Sorrell então revelou que a nova companhia tentará corrigir os erros que conglomerados como a WPP vinha cometendo – como falta de agilidade – e se concentrará nos meios digitais, que já respondem por 50% das receitas globais de publicidade. E já adiantou que suas ambições são globais. A atuação em grandes países emergentes, como o Brasil, será uma das apostas.

“Os primeiros movimentos da S4 serão multinacionais. A China é a segunda maior economia global. Eu acho um absurdo que ainda chamem esse país de nação em desenvolvimento”, frisou Sorrell. “O fato é que o próximo bilhão de consumidores do mundo não virá da Europa e dos Estados Unidos.”

Em relação ao projeto que começa a tirar do papel, a S4, Sorrell admitiu que construir um novo negócio bilionário do papel pode não ser tão fácil. “Comparado a eles (WPP), eu sou um amendoim”, disse Sorrell, em resposta a uma questão de Auletta. “Mas tem gente que é alérgica a amendoim.”

A nova proposta de negócio do fundador da WPP, que tem despertado a atenção e também o receio de investidores americanos e europeus, se baseia em um conceito “mais flexível, rápido e barato” do que é oferecido pelos conglomerados de publicidade atualmente. Questionado, Sorrell não quis responder se acredita que as alegações contra ele podem ou não atrapalhar a fase de arrecadação de fundos.

Festival. Apesar de ter escolhido Cannes Lions como “palco” para falar de seus novos projetos, Sorrell afirmou que, por causa dos custos envolvidos, “talvez Cannes, em junho, não seja o melhor lugar e momento” para celebrar a indústria criativa. Ele admitiu, no entanto, que os prêmios distribuídos às campanhas são recebidos positivamente não apenas pela agências, mas também pelas empresas.

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