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O jornalismo como conteúdo ‘viciante’

Cannes desvenda a história do podcast que chegou a 90 milhões de downloads

Fernando Scheller

29 de junho de 2015 | 09h08

As jornalistas Sarah Koening, Julie Snyder e Dana Chiivis criaram o programa Serial, que foi discutido em Cannes. Foto: Soraya Ursine/Estadão

As jornalistas Sarah Koening, Julie Snyder e Dana Chiivis criaram o programa Serial, que foi discutido em Cannes. Foto: Soraya Ursine/Estadão

Um caso de assassinato cujo veredicto foi definido há mais de uma década. Um rapaz de origem muçulmana, supostamente inconformado por perder a namorada, resolve matá-la entre o fim do dia de aula e o início de sua prática de esportes, no meio da tarde. A história de Adnan Syed, não tão incomum do ponto de vista jurídico, provou-se fértil o bastante para ser contada com paciência e riqueza de detalhes incomuns à maioria das reportagens jornalísticas: em 12 episódios, que totalizam dez horas de duração, e somente em áudio.

Essas partes supostamente pouco atraentes – um suposto crime de paixão relativamente comum, o longo formato e a ausência de imagens – tornaram-se um dos maiores fenômenos de audiência do jornalismo global em 2014 ao serem unidas: o podcast Serial, produzido pela rádio pública americana, a NPR, com um único (e pequeno) patrocinador e a empresa de e-mail marketing MailChimp.

Durante um ano, uma produtora, uma editora e especialmente a repórter Sarah Koenig dedicaram sua vida profissional a recontar a história de Adnan Syed. O resultado foram 90 milhões de downloads em todo o mundo. O fato de uma mídia tão antiga ter causado tamanho engajamento – 99% das pessoas que fizeram o download do primeiro episódio ouviram a série inteira – virou um caso para debate no Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade deste ano.

Originalmente, Sarah e a editora Julie Snyder planejavam um programa para complementar This American Life, um grande sucesso da rádio pública americana que se dispõe a contar, com tons de ficção, casos retirados das páginas dos jornais. Quando a ideia de um show semanal recontando notícias triviais do dia a dia não gerou entusiasmo por ser muito semelhante a This American Life, Julie e Sarah voltaram à estaca zero. Foi quando, sem melhor pauta, decidiram se dedicar aos detalhes do julgamento e condenação de Adnan Syed.

Ao contrário do que ocorre com reportagens policiais, que geralmente são dedicadas a encontrar um culpado e a fechar todas as pontas de um caso, a proposta de Serial e suas dez horas viram de cabeça para baixo essa noção. Com background de duas décadas de rádio pública e jornalismo impresso – e a curadoria de Ira Sachs, criador de This American Life -, Sarah e Julie foram pelo caminho inverso das manchetes sanguinolentas.

Um crime comum. A partir dos personagens envolvidos na história de Adnan – um rapaz considerado amado por todos na comunidade -, elas resolveram explorar todas as contradições do caso. E começaram pelo próprio personagem principal, que sempre se declarou inocente, mas não consegue se lembrar de detalhes daquele dia de 1999 que poderiam provar sua inocência.

Embora interessadas em tratar a história dentro dos padrões do bom jornalismo – ouvindo múltiplas fontes e questionando pistas falsas e as intenções de seus personagens -, as jornalistas também tentaram ousar na forma de contar o caso. Para segurar o ouvinte por dez horas, precisariam trazer algo de novo. A saída foi “emprestar” características de outras mídias, incluindo as séries criminais de televisão e outra fonte nada tecnológica e hoje quase esquecida: os livros em áudio.

Ao decidir por um formato longo, Serial explora uma miríade de personagens, todos entrevistados por Sarah Koenig e pela produtora Dana Chivvis. Pais, parentes, casos amorosos e amigos tanto de Adnan Syed quanto da vítima, Hae Min Lee, foram ouvidos repetidas vezes. Entre os pontos questionados estavam a cronologia do crime, a credibilidade de algumas testemunhas e a própria imagem de Adnan, que não combina com a de um assassino de sangue frio.

“Mas e se Adnan for este excelente psicopata?”, perguntou Sarah durante o evento em Cannes Lions (e também durante um dos episódios do podcast). À medida que o material se avolumava e as jornalistas encontravam algumas respostas e vários becos sem saída, tornando impossível a defesa de uma verdade absoluta, Sarah entrou na história como uma personagem cheia de conflitos sobre as informações com as quais se deparava. Ao mesmo tempo, como narradora, também tinha de prover contexto sobre personagens e acontecimentos.

O fato de Serial ter sido originado por uma rádio pública, que não depende de dinheiro de publicidade, na visão de Julie Snyder, não é mera coincidência. A jornalista diz que os veículos tradicionais de mídia, de maneira geral, estão muito pouco dispostos a experimentar novos formatos para contar uma história. “Eles entregam para a audiência o que pensam que as pessoas querem”, diz Sarah. “E, na verdade, há uma grande audiência disposta a ouvir uma boa.” Ela diz que a NPR já está testando novos shows e formatos. Além disso, já está produzindo duas novas temporadas de Serial.

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