Crise enfraquece greve geral em Madri
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Crise enfraquece greve geral em Madri

karlamendes

29 de março de 2012 | 15h02

 

 

A população espanhola concorda com a reforma laboral do governo de Mariano Rajoy, que facilita a demissão e acaba com uma série de benefícios dos trabalhadores? É evidente que não.

No entanto, a profunda crise em que o país está mergulhado, com mais de 5 milhões de desempregados (23,8% da população), calou a voz de muitos trabalhadores, receosos de perder o emprego se aderissem à greve geral que tomou conta de todo o país nesta quinta-feira.

Fui a um Burger King perto do Museo del Prado e a funcionária me disse que, apesar de o dono ter dito que a greve era um direito assegurado pela Constituição e que eles poderiam não comparecer ao trabalho hoje, ninguém faltou. “Essa reforma não é boa, mas ficar sem o emprego é ainda pior. Com essa crise, não dá para aderir a esse tipo de movimento”, afirmou.

No centro de Madrid, muitas lojas estavam abertas. Em várias delas, manifestantes faziam piquetes, para intimidar os comerciantes a fechá-las, como ocorreu na porta do Mc Donald’s e do El Corte Inglés, que funcionava com viaturas policiais do lado de fora.

Presenciei uma discussão feia na porta de um restaurante chamado All U Can Eat, em que o dono ficou na porta discutindo com os manifestantes, que queriam forçá-lo a baixar as portas. Conversei com o comerciante e ele me disse que todos os 400 funcionários da rede quiseram trabalhar hoje.

Um sindicalista me disse que essa foi a pior greve geral da história da Espanha. Apesar de oficialmente as entidades sindicais afirmarem que a adesão foi de 85%, esse senhor me disse que foi de apenas 35%, o que ele também atribui à crise econômica do país. “As pessoas estão com muito medo de perder o emprego. Meu filho cursou duas faculdades e não consegue trabalhar”, desabafou.

Conversei com um engenheiro formado há 3 anos, que me contou que nunca conseguiu ser contratado como engenheiro. As únicas vagas que conseguiu foi como estagiário para ganhar 600 euros (o equivalente a R$ 1,5 mil) mensais. Agora, ele está apelando para conseguir trabalho fora da sua área. “Me candidatei a uma vaga na Mercadona”, confessou, referindo-se a uma rede de supermercados daqui.

Transtornos

Houve atrasos dos trens do metrô e ônibus sim, mas confesso que esperava uma situação bem mais caótica. Fiz questão de ir cedo a estações de metrô, terminais e paradas de ônibus para verificar a situação no centro da cidade e poder dar meu testemunho para vocês aqui no blog.

Os trens estavam mais cheios que o normal? Sim. Mas confesso que dos quatro metrôs que peguei, só em um tive que esperar cinco minutos. Nos outros três, esperei dois minutos no máximo. Nos terminais de ônibus, a rede foi reduzida à quarta parte, segundo a atendente. Nas redes de trens metropolitanos, só aparecia o aviso de partida de um trem na tela que tem espaço para sete. E só foi possível comprar os bilhetes usando o terminal eletrônico.

Lá conversei com uma mulher, que, antes de sair de casa, tinha olhado os horários previstos para os trens metropolitanos, mas que mesmo assim teria que esperar 40 minutos. Mas o incômodo maior para ela foi não poder ir ao trabalho porque a babá da sua filha não foi trabalhar hoje.

Perto da hora do almoço, às 14h daqui (9h do Brasil), a situação piorou um pouco. Fiquei 40 minutos esperando um ônibus para vir para o jornal em que trabalho. E foi a primeira vez que vi um ônibus cheio em Madri, pois normalmente os intervalos de trens e ônibus são muito pequenos.

As coisas funcionam tão bem por aqui que qualquer anormalidade é vista como caótica pela população, mas posso afirmar que passa longe do que vivemos no Brasil quando as linhas de metrô de São Paulo param ou quando os motoristas de ônibus fazem greve. Eu, que nunca tinha presenciado uma greve geral, esperava algo mais grandioso…

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