Espanha em recessão perdoa ao rei por caçar elefantes na África enquanto crise no país se agravava
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Espanha em recessão perdoa ao rei por caçar elefantes na África enquanto crise no país se agravava

karlamendes

24 de abril de 2012 | 15h00

   

Bastou o pedido de desculpas do rei Juan Carlos em um depoimento gravado para a TV espanhola. E os súditos espanhóis perdoaram sua majestade por estar caçando elefantes em Botsuana, na África, enquanto o país enfrentava a disparada da curva de risco do país devido à desconfiança dos investidores e o acirramento da crise diplomática com a Argentina, desencadeada pelo anúncio da expropriação da petroleira YPF Repsol exatamente no dia em que Juan Carlos foi manchete de todos os jornais da Espanha por seu afastamento “inoportuno”.

Como “nunca antes na história” da Espanha um rei havia se pronunciado sobre sua vida privada, muito menos para se desculpar, as manchetes seguintes ao pedido de desculpas exaltavam a “humildade” do rei, na última quinta-feira. Nesse mesmo dia, almocei com alguns colegas de trabalho aqui e tive uma verdadeira aula de monarquia, pois o centro da conversa não foi outro senão as desculpas do rei.

Naquela ocasião eu soube que, apesar de toda a repercussão negativa da viagem do rei sem aviso prévio enquanto o país desabava, a monarquia espanhola não estava ameaçada. Muito menos a autoridade do rei Juan Carlos, pelo qual muitos cidadãos daqui têm verdadeira devoção, taxados inclusive de “juan carlistas”.

Chamou muito a minha atenção o comentário de um dos colegas, que disse: “nós, espanhóis, somos muito apaixonados. Bastou o pedido de desculpas histórico e o assunto foi encerrado”. Na verdade, mais que um rei, Juan Carlos representa para a população daqui o símbolo vivo da democracia espanhola, que se instaurou depois de anos e anos de ditadura.

Ele tinha razão. No domingo, a manchete do El Mundo mostrava exatamente isso: 70% dos espanhóis perdoam o rei. Os dados foram encomendados ao instituto Sigma Dos pelo próprio jornal, que é de direita e apoia o governo. Entre os maiores de 65 anos, o índice de perdão foi ainda maior: 80,5%. Os jovens, contudo, têm uma visão mais crítica do episódio, mas ainda assim 57,9% concederam seu perdão ao monarca.

Apesar disso, porém, o incidente deixou sequelas na imagem do rei. Na sondagem, 52,8% opinaram que o pedido de desculpas não reparavam o dano causado à imagem da Coroa Real pela viagem, que só se tornou pública porque o rei teve uma fratura no quadril depois de um tombo no hotel e teve que voltar às pressas para Madri.

Recessão

Um dia depois do perdão generalizado ao rei, a Espanha recebeu a notícia de que está em sua segunda recessão desde 2009. O Banco da Espanha anunciou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu 0,4% no primeiro trimestre de 2012 em comparação ao último trimestre de 2011, que já acumulava uma retração de 0,3% sobre o período anterior. Ou seja, dois trimestres seguidos de PIB negativo, o que oficializa que o país está tecnicamente em recessão.

Outros componentes que agravam a recessão espanhola é o índice de desemprego, que alcançou 24% (o mais alto da zona do euro), e a queda de 0,4% no consumo das famílias, que são os verdadeiros termômetros da economia de um país. Os investimentos em bens de capital, que mostram como está a indústria, também teve retração de 3,5%.

 

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