Vingança das colônias contra a metrópole
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vingança das colônias contra a metrópole

karlamendes

04 de maio de 2012 | 16h06

 

Foram apenas 15 dias. E a antiga metrópole espanhola foi achacada por duas de suas ex-colônias. E com repercussões mundiais. Primeiro, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, surpreendeu o governo espanhol com o anúncio da expropriação da petroleira YPF, controlada pela Repsol. Um baque enorme para a economia do país, já bastante debilitada e oficialmente em recessão, e principalmente para a Repsol, já que as atividades da empresa no país de “los hermanos” representava nada menos que metade da produção de petróleo da companhia. E Cristina ostenta que Repsol não receberá nenhum centavo.

Duas semanas depois, o presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou a nacionalização da Transportadora de Eletricidade (TED), expropriando as ações que estavam em poder da espanhola Red Elétrica de Espanha (REE) desde 2002, em uma operação que custou US$ 88,3 bilhões. Nesse caso, Morales demonstrou sua intenção de indenizar a companhia espanhola pelos investimentos realizados no país.

Mas isso é só um detalhe. Quero deixar claro que sou contra qualquer decisão autoritária, a exemplo do que fizeram Cristina e Morales. Mas não posso deixar de dizer que esses atos “nacionalisas” expuseram, na verdade, a fragilidade da Espanha no momento em que enfrenta a mais grave crise econômica de sua história.

Isso ficou bem claro para mim ao ouvir um colega de trabalho, que é espanhol, dizer: “É, nós não somos nada”, logo depois da expropriação de Repsol. Com essa frase, ele expressou como mudou completamente o cenário político e econômico entre Europa e América Latina nos últimos anos, depois de séculos de subjugação, desde o descobrimento do continente sulamericano, até a tremenda crise que assola o país depois de anos e anos de bonança.

Essa tese ficou ainda mais evidente quando ouvi Juan José Laborda, ex-presidente do Senado e membro do Conselho de Estado de Madrid expressar, sem nenhum receio, em uma aula para um grupo de jornalistas latinoamericanos, que “nós não temos certeza de como será nosso futuro” e que “pela primeira vez, o futuro pode ser pior que o passado”. E destacou que essa crise, como a de 1929, “tem o epicentro nas velhas nações, que dominaram o mundo durante os últimos 200 anos”.
A charge publicada ontem pelo jornal El Economista, que publico neste post, ilustra bem o cenário atual. Nela, um senhor de terno e gravata, como se fosse um desses professores de cursos de marketing pessoal, dá o seguinte conselho a uma figura primitiva, que representa de forma muito pejorativa os governantes da América Latina: “Necessita melhorar sua imagem: não há em seu país alguma empresa espanhola para expropriá-la?”.