Brasil tem de fazer aperto fiscal, dizem economistas

Estadão

27 de janeiro de 2011 | 00h00

”As políticas fiscal e de crédito do governo estão soltas demais”, diz Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

DAVOS

O Brasil precisa apertar a política fiscal para evitar o sobreaquecimento da economia e problemas de médio prazo, segundo diversos economistas presentes ao primeiro dia do Fórum Econômico Mundial em Davos, ontem.

“A economia brasileira está superaquecida, a inflação está se acelerando, e há constrangimentos em todas as partes”, disse Ricardo Hausmann, economista venezuelano da Universidade Harvard. Para ele, “a taxa de crescimento vai ter de diminuir, e a questão é com quanta inflação o crescimento vai desacelerar, e com quanta volatilidade”.

Para Hausmann, “o Banco Central está reagindo, mas não é o BC que deveria estar respondendo, é ruim que ele seja o freio”. O problema, para o economista, é que “o BC sobe os juros, o que valoriza a moeda e destrói empregos no setor industrial”.

Essa situação, para ele, indica que “a política fiscal e a política de crédito do governo estão soltas demais”. Hausmann defendeu maior aperto fiscal e da política de crédito dos bancos públicos, especialmente do BNDES: “Assim o BC pode praticar uma política mais branda, que leve a um real mais competitivo”.

Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do FMI, disse que não vê o gasto público no Brasil como um problema de curto prazo, mas sim como a principal questão de médio e longo prazos que o governo deve enfrentar.

Para ele, a taxa de juros real de 6% ao ano, altíssima para padrões internacionais, “reflete uma falta de coerência na política fiscal de longo prazo”. “É preciso pensar num plano para controlar o tamanho do governo, que continua a crescer de forma exuberante no Brasil”, afirmou.

Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, acha que “as coisas estão indo bem no Brasil, e o arcabouço macroeconômico é positivo”. Mas acrescentou que “há desafios, como reduzir um pouco os déficits fiscais e fazer com que a inflação não saia de controle”. Roubini observou que há preocupação no Brasil com o real forte, que tira competitividade da economia. Para o economista, o problema é administrável com a combinação de intervenções e controles de capital que o Brasil vem utilizando.

A visão mais favorável ao atual momento brasileiro veio de Jeffrey Sachs, da Universidade de Colúmbia: “O Brasil está em boa forma para o médio prazo, (os presidentes) Fernando Henrique e Lula colocaram o Brasil numa boa direção”.

Sachs elogiou a combinação da pauta exportadora brasileira, com commodities e produtos “tecnologicamente avançados”.

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