Mundo pós-crise tem fortes mudanças

Estadão

31 de janeiro de 2011 | 00h00

Retomada global põe em destaque potências emergentes, como China, Índia e Brasil, e apresenta novos riscos e focos de instabilidade

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

“Vocês são o mercado emergente da Europa”, disse Montek Singh Ahluwalia, da Comissão de Planejamento da Índia para Caio Koch-Weser, vice-chairman do Deutsche Bank. A frase, recebida com um sorriso agradecido de Koch-Weser, que nasceu no Brasil, mostra que a economia global está voltando à normalidade, mas num mundo que já não é o mesmo: agora são os países emergentes que servem de parâmetro para medir o desempenho dos países ricos.

O diálogo foi travado na quinta-feira, nos corredores do Centro de Congressos de Davos, reformado e ampliado para o Fórum Econômico Mundial de 2011, que se encerrou ontem. Este ano, ao contrário de 2009 e 2010, prevaleceu em Davos o espírito de otimismo, com as devidas cautelas diante dos muitos riscos que ainda ameaçam a recuperação global.

A turbulência política no Egito, que pegou de surpresa os participantes de um Fórum em pleno andamento, exemplificou um comentário de Maurice Lévy, principal executivo do Unisis, grupo francês de publicidade, num debate sobre “o próximo choque”: “O que mais temo é o que ainda não conheço”.

Da mesma forma, o atentado terrorista no metrô de Moscou, que abreviou a participação do presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, no Fórum de 2011, foi outra indicação de que o mundo pós-crise é menos previsível e mais instável do que faria supor o otimismo deste ano em Davos.

Houve, aliás, uma divisão entre o triunfalismo das autoridades econômicas, especialmente da Europa, e o tom mais cauteloso dos economistas no Fórum. O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, foi categórico ao dizer que não espera nenhum outro grande choque na zona do euro. Os banqueiros presentes a Davos, porém, previram que ainda deve haver muita volatilidade nos indicadores financeiros europeus.

Alguns dos mais famosos economistas do mundo, mesmo reconhecendo a indiscutível melhora em relação a 2009 – o PIB global cresceu 5% em 2010, após cair 0,6% no ano anterior – , alertaram para diversos riscos no caminho da retomada global.

Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, observou que “um mundo no qual 10% é a taxa de crescimento da China e 10% é quase a taxa de desemprego americana, e no qual a China está freando bastante a taxa de valorização da sua própria moeda, é um mundo em que essa tensão cambial pode levar a guerras cambiais, e acabar provocando guerras comerciais e protecionismo”. Roubini celebrizou-se por prever a crise global.

Outro economista que ganhou prestígio por antecipar o estouro das principais bolhas na primeira década deste século, Robert Shiller, da Universidade Yale, também temperou seu otimismo com ressalvas sobre riscos à retomada mundial. Shiller, que já colocou a possibilidade de os Estados Unidos terem um duplo mergulho recessivo, hoje considera que as chances são de menos de 50%. Ele se preocupa, porém, com o impacto que o mercado residencial ainda em queda pode ter no sistema bancário e na economia americana.

O Fórum de 2011 também revelou que os banqueiros, a categoria mais chamuscada pela crise global, já estão saindo da toca e ousando expor sua visão e suas demandas de forma mais afirmativa. As atitudes, por outro lado, variaram.

James Dimon, principal executivo do JP Morgan, chamou a atenção por uma postura quase agressiva ao pedir que a demonização dos bancos seja deixada para trás. Quando, num debate, foi mencionado que o economista Lawrence Summers, ex-assessor do presidente americano Barack Obama, disse no encontro de Davos de 2010 que havia três lobistas dos bancos em Washington para cada membro do Congresso – na discussão sobre reforma bancária -, Dimon reagiu: “Eu adoro o Larry, mas isso é uma estupidez”.

Por outro lado, o americano Robert Diamond, principal executivo do banco inglês Barclays, numa postura mais humilde, atribuiu o fato de que “os bancos estão operando (agora) num sistema financeiro mais seguro e sólido” graças à ação do G-20 (grupo que reúne os governos das maiores economias do planeta).

As estrelas indiscutíveis do Fórum de 2011 foram China e Índia, com delegações de muitas dezenas de autoridades de governo, empresários e economistas, e reverenciadas pelo ritmo regular de crescimento de 8% a 10%. O Brasil, como outro importante Bric (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China), também foi celebrado, mas houve perplexidade geral pela delegação mínima do País – cerca de dez pessoas, entre autoridades e empresários.

Em relação ao Brasil, China e Índia, a nota de preocupação em Davos foi quanto ao sobreaquecimento e à capacidade de os governos controlarem as pressões inflacionárias.

Em abril, será realizado no Rio a reunião latino-americana anual do Fórum Mundial, e o Brasil terá uma nova chance de se exibir para a elite global representada pela instituição. Todos os chefes de Estado da América Latina foram convidados, inclusive o antiglobalizante Hugo Chávez, da Venezuela.



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