2018: o primeiro ano do resto das vidas das mulheres

2018: o primeiro ano do resto das vidas das mulheres

Entenda o que foi um passo adiante, um passo atrás e ficar parado em 2017, o ano do feminismo, e saiba como este ano pode ser melhor quanto à equidade de gênero

Adriana Salles Gomes

02 de janeiro de 2018 | 11h10

Entramos em 2018. O ano encerrado anteontem foi o ano do feminismo. Pelo menos, o dicionário norte-americano Merriam-Webster apontou “feminismo” como “a palavra do ano” em 2017, com base na quantidade de buscas do termo na internet, que cresceu 70% em relação a 2016. As pesquisas devem ter sido impulsionadas sobretudo por dois fatos: as marchas de mulheres que ocorreram principalmente nos Estados Unidos no primeiro semestre e as denúncias de assédio sexual contra mulheres envolvendo famosos de Hollywood no segundo. Estas viralizaram e viraram hashtag de rede social: metoo (eu também, em inglês).

Em 2017, foi lançada no Brasil a quarta e última parte da série napolitana da escritora italiana Elena Ferrante –História da Menina Perdida – e 2017 foi, para mim, o ano de conhecer Ferrante, autora que pratica um tipo de feminismo que me agrada particularmente. É feminismo à medida que apresenta duas protagonistas femininas que praticam a chamada sisteragem em várias etapas das vida (infância, adolescência, maturidade e velhice) e me agrada porque trata as coisas em sua real complexidade em vez de ficar tomando partido – prefere dedicar-se às zonas cinzentas a escolher o branco ou o preto.

Mais que recomendar Ferrante a quem ainda não a leu (dei de presente de Natal a muita gente), eu queria primeiro usar um trecho de História da Menina Perdida para fazer um balanço do “ano do feminismo”. No quarto livro da saga, o personagem Nino diz, a propósito do cenário político italiano dos anos 1970: “Vocês não são capazes de distinguir entre um passo adiante, um passo atrás e ficar parado”. Pois pego a frase emprestada para diferenciar o que, em minha opinião, está sendo avanço, retrocesso e estagnação na luta feminista.

Comecemos pelo avanço. Nunca houve tanta gente, mulheres e homens, saindo do armário para se posicionar como feminista. Tradicionalmente a maioria das mulheres tinha vergonha de se apresentar como feminista, como se isso significasse que ela rejeitava os homens ou que não eram suficientemente delicadas, bonitas, perfumadas e quetais. Hoje, mais e mais mulheres não apenas se orgulham de dizê-lo como se institucionalizam em organizações, em torno do trabalho, estudo, vida social, atividades diversidades. Por sua vez, nenhum homem se atrevia a assumir-se feminista, pois logo seria visto como gay e fraco, e agora já pega bem ser um homem feminista.

Livros como o de Elena Ferrante têm responsabilidade sobre essa naturalização do feminismo. Filmes como A Mulher Maravilha estrelado pela atriz israelense Gal Gadot também. O livro da nigeriana Chimamanda Adichie, Para educar crianças feministas: Um manifesto, e sobretudo suas entrevistas, igualmente contribuíram para construir a ideia de que também o homem pode – e deve – ser feminista. Duas declarações suas dirimem as dúvidas que muitos têm em relação à utilidade do feminismo: (1) “O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral – mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. (2) “A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos de melhorar’. Todos nós, mulheres e homens, temos de melhorar” (A palestra de Chimamanda no TED, We Should All Be Feminists, continua a ser bastante visualizada.)

Séries de vídeo em streaming como as duas baseadas em livros da autora canadense Margaret Atwood que estrearam em 2017 idem: uma foi Alias Grace [na foto] disponível na Netflix, que parte da história real de uma mulher acusada de assassinar os patrões em 1843 no Canadá; outra é The Handmaid’s Tale, ligada ao Hulu, concorrente da Netflix nos EUA (chegou a mim por meio de comentários de amigos). Observe-se que os homens assistem a essas séries e filmes, e leem esses livros, tanto quanto as mulheres. Nesse caso, não tem a tal ficção de mulherzinha – aquela que o homem vê com sono, só para agradar à parceira, como uma comédia romântica ou um livro que fale de sexo com elegância.

(Vou abrir parênteses apenas sobre a ficção futurista The Handmaid’s Tale, já que as outras obras citadas são de mais fácil acesso. A série do Hulu é um Admirável Mundo Novo feminista. Ou um Blade Runner feminista, se preferir. Em um futuro não muito distante, o mundo vive uma infertilidade epidêmica por causa da poluição e de doenças sexualmente transmissíveis. No lugar onde ficavam os Estados Unidos há um país de outro nome e governado por fanáticos, onde as mulheres não têm permissão para trabalhar, nem para ter propriedades, nem para controlar dinheiro ou sequer ler. E as poucas mulheres férteis que sobraram passam a ser chamadas de “servas”, obrigadas a viver nas casas da elite governante, onde se submetem a estupros dos senhores para lhes dar filhos. Fecho parênteses.)

Esse passo à frente tem um peso enorme. Significa que, em breve, o novo normal será ser feminista ou simplesmente não-machista, igualitário. A quem menospreza o impacto de uma mudança cultural, lembro movimentos como o do divórcio e o da discriminação do cigarro. Um casal separar-se era algo absolutamente condenado pela sociedade e hoje, divorciado é um estado civil tão comum quanto o casado e o solteiro. No que diz respeito aos fumantes, eles eram o padrão até recentemente e agora ninguém ousa pensar em fumar em lugares fechados com outras pessoas.

Note o leitor que as leis influíram na transformação cultural no caso do cigarro e do divórcio, e o mesmo está acontecendo com o feminismo, ainda que de maneira mais paulatina: cotas de política afirmativa adotadas em vários países do mundo estão contribuindo para a mudança, bem como a descriminalização do aborto (especialmente em caso de estupro, de malformação do bebê e de risco de morte para a mãe) e os processos judiciais que incentivam a diversidade de gênero em empresas e combatem o assédio sexual e moral no trabalho. No Brasil, as leis que tentam igualar o jogo entre homens e mulheres, como a obrigatoriedade dos partidos de terem candidatas do sexo feminino, ainda não são tão relevantes. Porém a mídia faz muito barulho em torno de casos como os de assédio sexual e o movimento das empresas multinacionais de valorizar a diversidade de gênero como algo bom para os negócios já significa muito – prêmios como o das melhores empresas para mulheres trabalharem, do Great Place to Work, colaboram para isso.

Em que ponto ficamos parados? A meu ver, estacionamos na hora de definir o que é nevrálgico no feminismo. Sheryl Sandberg, executiva do Facebook, vendeu milhões de livros argumentando que as mulheres é que têm de fazer o “lean-in” para se dar bem profissionalmente, ou seja, tinham de se atirar, sendo mais autoconfiantes, tendo menos aversão ao risco, aprendendo a negociar melhor. Como diz a pesquisadora Cecília Russo no livro Garotas Equilibristas, Sandberg fez um roteiro de como ter sucesso inspirada em sua própria história, no que é mais uma literatura de autoajuda do que um trabalho de pesquisa em profundidade, e eu concordo, embora enxergue em Sandberg o mérito de colocar os holofotes na questão feminina no meio empresarial. Para mim, o nevrálgico é entender que as mulheres de hoje se sentem escravas, no sentido de que se sentem prisioneiras, não importa qual seja sua escolha. (O leitor pode preferir a palavra “servidão”, utilizada por Atwood, mas a ideia é a mesma.) Se não, vejamos:

  1. Se escolhem ter tudo – filhos e carreira –, elas têm de arcar com duas rotinas duríssimas. Vivem exaustas e sem tempo para si .
  2. Se escolhem só cuidar dos filhos, são depreciadas. Embora as decisões relativas à educação e cuidados com crianças sejam estratégicas tanto para a vida familiar como para a sociedade, além de bastante complexas, cuidar dos filhos não é considerado algo de valor. Além de depreciadas, quando os filhos crescem elas passam a ser percebidas como inúteis. Na prática, essas mulheres são eternas dependentes financeiras dos maridos. Em geral, pobre daquela cujo marido se apaixona por outra.
  3. Se escolhem não ter família e se dedicar totalmente à carreira, enfrentam discriminação e a probabilidade de sofrerem com solidão em algum momento da vida é imensa.

Acrescente-se que as mulheres do tipo 1 e 3 geralmente continuam a não avançar na carreira e a não ganhar aumentos salariais na mesma proporção dos colegas homens, não importa seu esforço e mérito.

Ainda não estamos vivendo vidas muito diferentes daquelas das mulheres do século 19 dos romances de Jane Austen ou das mulheres de Alias Grace de Atwood, estamos? Se há 150 anos elas eram necessariamente controladas por homens, seja pelos pais, maridos, patrões e filhos, seja pelos doutores (no caso de se insubordinarem, eram tratadas como doentes), hoje são controladas pelas circunstâncias. Dá para dizer que é uma modalidade contemporânea de escravidão, claro, mas não deixa de ser escravidão.

E o que dizer do retrocesso? Eu poderia localizá-lo no discurso da resistência ao feminismo, como aquele da conselheira do Donald Trump Kellyann Conway, que disse não ser “feminista” por não ser “anti-homens” nem “pró-aborto”. Mas enquadrar feminismo como uma guerra aos homens e aos bebês é tão raso que eu jamais poderia considerá-lo um retrocesso digno de nota. É algo marginal.

A meu ver, o verdadeiro passo atrás está no viés misógino, mais forte do que nunca, apesar de todo o discurso a favor da diversidade de gênero. Vou me limitar a três provas desse viés, circunscritas ao universo do trabalho – elas foram citadas pela pesquisadora Sarah Kaplan, da Universidade de Toronto, em recente artigo publicado na revista HSM Management:

  • No californiano Vale do Silício, um dos lugares mais avançados do mundo, caiu o percentual do capital de risco que vai para startups lideradas por mulheres, ficando em apenas 2% do todo. Os investidores alegam que “as mulheres não estão trazendo boas ideias” ou “não conseguiram encontrar mulheres empreendedoras em número suficiente”. Um grupo de pesquisadores resolveu fazer um experimento de checagem: uma nova startup foi apresentada a investidores, com um roteiro padrão, ora com voz masculina, ora com voz feminina. No fim, perguntaram aos investidores: “Você investiria nessa startup?” Quando o pitch (como é chamada essa “venda” de startup a investidores) era narrado por voz masculina, tinha duas vezes mais probabilidade de ser recomendado para investimento.
  • Na contratação para trabalhar em organizações, a situação é similar. Um experimento explica o viés que ocorre, mesmo quando o departamento de recursos humanos é bem intencionado: pesquisadores usaram duas versões do mesmo currículo para uma vaga de técnico de laboratório com a diferença de que um levava o nome de John e o outro, de Jennifer. O resultado foi que John teve MUITO mais chances do que Jennifer.
  • Também na remuneração, a situação é parecida; outro experimento, feito em países ricos e desenvolvidos (não no Brasil), comprova isso. Pediram a várias pessoas que desempenhassem tarefas específicas no computador, usando exatamente o mesmo tipo de computador e desempenhando exatamente a mesma tarefa. A única diferença foi que, para alguns participantes, se disse que o nome do computador era James, e para outros, Julie. Depois de encerradas as tarefas, perguntou-se: “Qual foi o desempenho do computador?” Todos disseram que funcionou bem, não havia diferenças verificáveis entre um e outro. Mas quando se perguntou: “Diante desse desempenho, quanto você acha que esse computador vale?”, “James” valia 35% a mais do que “Julie”. Um terço a mais.

Antes que venha algum comentário hater, não estou dizendo que as mulheres são melhores empreendedoras, melhores funcionárias e mais produtivas (portanto, merecedoras de maiores salários) do que os homens; muitas são melhores, muitas são piores e muitas são equivalentes, dependendo dos homens de comparação. Estou dizendo apenas que as oportunidades dadas a ambos os gêneros são diferentes. E talvez esse seja só meio passo atrás, porque a divulgação das evidências do viés é meio passo à frente.

 

TRÊS PASSOS DE BEBÊ

O meu voto para você em 2018 são três passos adiante, que podem ser até passos de bebê, mas são potencialmente revolucionários. Sugiro:

  • Que você humildemente reconheça seus vieses e fique vigilante em relação a eles, para evitar que o impeçam de tomar as melhores decisões.
  • Que você aceite que é preciso libertar as mulheres da situação de servidão em que se encontram, simplesmente por acreditar que isso é o certo a fazer. Não porque vale a pena para os negócios ou por seguir a etiqueta do politicamente correto, mas por acreditar que é o certo a fazer, tanto quanto você acredita (tenho certeza de que acredita) que honestidade é obrigação.
  • Que você, na medida de suas possibilidades, inove, criando condições para essa libertação. Se você é gestor de empresa, que inove, como diz a pesquisadora Sarah Kaplan, oferecendo condições de trabalho mais amigáveis para mães e pais, e equiparação salarial entre homens e mulheres com responsabilidades e produtividade semelhantes. Se você é cônjuge, que divida as tarefas e decisões familiares de modo mais igualitário com a parceira. Se você tem uma posição qualquer de poder, que não abuse dela com as mulheres que lhe são subordinadas (nem com os homens, obviamente) – isso pode envolver algo tão simples quanto não ficar interrompendo-as o tempo todo nas reuniões. E se você é mulher, acima de tudo entenda qual é sua forma de escravidão (a 1, a 2 ou a 3 descritas aqui?) e pense em ações concretas que poderiam aproximá-la de sua alforria (não se trata de lean-in); logo depois de pensar, aja.

Voltando a Elena Ferrante e à adaptação de Margaret Atwood na Netflix, uma curiosidade: ambas as autoras visitaram, respectivamente com Lenu e Lila, e com Grace e Mary Whitney, os arquétipos virgem e puta que sempre foram associados às mulheres na história ocidental. Acho que essas identidades explicam os vieses existentes até hoje (nem uma nem outra são adequadas ao trabalho, afinal), durante muito tempo contribuíram para semear a discórdia entre as mulheres (virgens criticam putas e vice-versa) e, pior de tudo, têm funcionado como distração em relação ao que realmente importa – o fato de as mulheres continuarem a se sentir aprisionadas.

Entramos em 2018. Se o recém-encerrado 2017 foi o ano do feminismo, este bem que poderia ser o primeiro ano do resto das vidas das mulheres. Feliz Ano Novo para todos nós!

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