Jovem brasileira quer conquistar equilíbrio de modo “neoliberal”

Jovem brasileira quer conquistar equilíbrio de modo “neoliberal”

Em uma pesquisa qualitativa com universitárias da classe média paulistana, Cecília Russo Troiano revela que as brasileiras não tendem a adotar posições extremas pró carreira ou pró família; seu caminho é o do equilíbrio, mas pautado por um empreendedorismo individualista

Adriana Salles Gomes

19 de abril de 2016 | 10h42

Cecilia Russo 2Como as jovens brasileiras estão planejando seu futuro em relação a trabalho e família? Para responder a essa pergunta, a pesquisadora Cecília Russo Troiano [na foto] fez uma tese de mestrado na Georgia State University, em Atlanta, nos EUA, baseada em uma pesquisa qualitativa com nove universitárias de São Paulo que cursam administração de empresas, direito, comunicação e engenharia, têm entre 20 e 24 anos de idade, e pertencem à classe média e média alta. Havia entre elas brancas, negras, hetero e homossexuais, várias não namoravam e só uma não morava mais com os pais.

A intenção da Cecília era também saber em que medida se repete no Brasil a polarização observada nos Estados Unidos, entre as mulheres que centram forças na vida profissional e aquelas que optam por largar a carreira para ser mães. O primeiro movimento ficou conhecido como “lean in”, capitaneado pela executiva do Facebook Sheryl Sandberg (também é reconhecido na tendência das mulheres alfa tratada nesta coluna). O segundo é chamado de “opt out”, identificado com Anne-Marie Slaughter, que foi membro do governo americano e escreveu um artigo no The New York Times a esse respeito, e pela acadêmica Pamela Stone, entre outras.

A tese de Cecília, intitulada Lean In”, “Opt Out” e a Jornada da Felicidade: Mulheres Universitárias Brasileiras Vislumbram a Liberdade, fez várias descobertas significativas, mas quero trazer aqui, nesta véspera de feriado que homenageia um herói, Tiradentes, especialmente duas.

A primeira delas é que as brasileiras não se identificam nem com o lean in, nem com o opt out; estão dispostas a encontrar uma posição de equilíbrio entre os dois extremos – “em que não sejam marionetes de ninguém”, como disse uma delas, e “que não lhes sufoque”, como argumentaram outras. “O trabalho sempre aparece em primeiro lugar na fala delas, mas, de fato, nenhuma abre mão de ter uma família, na configuração que for”, conta Cecília.

A segunda descoberta é que as universitárias querem atingir esse equilíbrio futuro sozinhas, com base em uma filosofia neoliberal, no sentido de neoliberalismo concebido pela escola de Foucault: um projeto cultural do tipo faça-você-mesmo, no qual pessoas autorreguladas e inteiramente responsáveis por si atuam conforme uma racionalidade típica de mercado. Por essa lógica, nossa felicidade depende apenas de nossas próprias ações e de nossa capacidade de nos manter nos trilhos.

“Pelo que as jovens disseram, até as escolhas da carreira e do parceiro ou parceira podem ser condicionadas pelo objetivo da vida equilibrada”, comenta Cecília, que completa: “essas meninas se mostram como ‘empreendedoras do self’, conforme o conceito de Foucault”. O conceito remete ao indivíduo que assume riscos e gerencia sua vida de acordo com uma racionalidade de mercado, ainda que movido por emoções. E o empreendedorismo do self inclui um empreendedorismo de fato: embora uma das meninas tenha simpatia por uma carreira no funcionalismo público, várias planejam montar negócio próprio, como um centro de estética, um escritório de arquitetura etc.

O discurso do equilíbrio parece um movimento bem-vindo depois de uma geração de avós focadas na família e outra de mães focadas no trabalho. “Essas meninas estão olhando para trás, avaliando o que não funcionou e tentando criar uma possibilidade diferente para elas.” O individualismo contido nele, porém, chama a atenção da pesquisadora. “ Ainda é uma geração cujo olhar é mais para o individual do que para o coletivo; tenho dúvidas sobre se assim é possível promover uma mudança estrutural real no papel da mulher na cultura brasileira.”

 

PS 1: É interessante acompanhar como a Cecília Russo Troiano está mapeando o movimento das mulheres em relação a carreira e família. A tese tratada aqui, defendida em abril de 2015, deve ser seu terceiro livro sobre o assunto (a ser lançado até o início de 2017) e o terceiro pedaço de um mapa. O primeiro, Vida de Equilibrista – As Dores e Delícias da Mãe que Trabalha, lançado em 2007, foi um pioneiro na abordagem da mulher dividida entre carreira e família, descrevendo vários dos dilemas comuns a todas. O segundo, Aprendiz de Equilibrista – Como Ensinar os Filhos a Equilibrar Vida e Carreira, de 2011, investigou no que deram os filhos de mães que trabalham fora, comparando-os com os filhos de donas-de-casa, para entender as consequências das duas escolhas. Entre os achados destaca-se o de que estão melhores os filhos de mães bem resolvidas em relação a suas escolhas, quaisquer que estas tenham sido. E que todos, eles e elas, querem trabalhar fora, porém sofrendo menos desgaste do que os pais.

PS 2: A repórter Janes Rocha fez uma matéria na revista HSM Management abordando a pesquisa da Cecília e falando sobre como as empresas brasileiras estão reagindo aos três movimentos, lean in, opt out e busca do equilíbrio.

PS 3: Cecília pensa em fazer um follow-up da pesquisa daqui a dez anos para saber se as meninas conseguiram se comportar tão racionalmente como planejado. Vou querer acompanhar.

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