Conheça a “Luiza Trajano do empreendedorismo”

Conheça a “Luiza Trajano do empreendedorismo”

Novo livro desvenda o fenômeno Ana Fontes, que, com sua Rede Mulher Empreendedora e seus eventos, montou um ativo ecossistema de 270 mil mulheres que empreendem

Adriana Salles Gomes

27 de março de 2017 | 13h09

AnaFontes_Livro

 

Se tem um conceito que eu aprendi com a fase dos pokemons e bakugans do meu filho é o de evoluir. Essas formas de vida fictícias acumulam determinado tipo de conhecimento ao longo de muitas lutas e, de repente, transformam-se em algo diferente, e com mais poderes.

Trata-se de uma simbologia muito forte e que, faz algum tempo já, eu tenho associado especialmente a empreendedores e a mulheres que trabalham. Todos os seres humanos evoluem, é claro, mas, nesses dois casos, acho que as evoluções são mais frequentes e acintosas. Mais ou menos como quando um pokemon passa a voar.

Hoje, às 19 horas, vai ser lançado em São Paulo o livro Empreendedoras por Natureza, que conta a história das empreendedoras Ana Fontes e Rosely Cruz, fundadoras respectivamente da Rede Mulher Empreendedor e da Rosely Cruz by neolaw, uma sociedade de advogados com um sistema de gestão diferenciado (que está virando aplicativo).

Um dia vou falar da Rosely, mas esta coluna de hoje quero concentrar na Ana Fontes, que para mim é um pokemon intensivo, acumulando as evoluções de mulher e de empreendedora e ajudando pokemons em seu entorno a evoluir. Já tive a oportunidade de ler o livro e o ciclo evolutivo da Ana poderia servir de espelho para todas as mulheres, sejam empreendedoras ou funcionárias de empresas (papel este que ela também já desempenhou).

Nem todo mundo sabe, mas a alagoana Ana Fontes veio para São Paulo com a família fugida da seca de 1970 no Nordeste, aos 4 anos de idade. Ela, os sete irmãos e os pais  trocaram a casa de taipa perto do rio São Francisco por um quarto-e-cozinha na cidade de Diadema, na Grande São Paulo. O pai foi trabalhar como torneiro-mecânico, os irmãos mais velhos também trataram de trabalhar, e Ana foi para escola, onde enfrentou dificuldades como a de não ter sapatos.

E as evoluções? A primeira talvez tenha começado a acontecer aos 11 anos, quando ela começou a trabalhar – fazendo faxinas, cuidando de crianças dos vizinhos. Aos 14, virou vendedora de um bazar de artigos infantis e, um ano depois, entrou na linha de produção de uma fábrica de brinquedos infláveis de plástico. Como ela “falava direitinho”, recebeu promoção para auxiliar administrativa, depois escriturária e auxiliar de vendas, uma carreira de quatro anos.

Em sua segunda evolução, estava em uma empresa de conexões de ações fornecedora da Petrobras e resolveu prestar vestibular. Bancou o cursinho, que foi pagando com seu trabalho, embora com muita dificuldade. Lá conheceu seu marido, companheiro até hoje e sócio, Luciano Fontes. Entrou em um curso de publicidade e, por conta dele, foi pedir estágio na área de propaganda de outra empresa – o Banco Volkswagen, o que definiria os próximos 17 anos de sua vida. Teve frustrações – não ter conseguido entrar na área de recursos humanos, não ter obtido uma promoção pela falta do inglês (ela correu atrás depois), sem falar na dor de uma gestação desencaminhada. Em outra gravidez, deu à luz a filha Daniela, e começou a entender a loucura que é ser mãe e executiva ao mesmo tempo. Aqui copio um trecho do livro:

[Ana] Percebia a operação de uma máquina onde pessoas quase nada cooperativas entre si trabalham de segunda a sexta, cumprem metas, executam funções restritas, repetem os chavões de visão e valores da corporação, mas, “embaixo do traço”, como gosta de dizer, levam uma vida onde o que vale mesmo é o tamanho da sala e o número de funcionários. Todos instruídos a não errar e, por consequência, jamais impelidos a criar, inventar.

Funcionário que erra leva um “xiszinho na testa” e o resultado global é um enorme e paralisante medo.

Insconscientemente, Ana Fontes começou a lidar com o empreendedorismo e com a questão de gênero. De um lado, identificava o que chama de “túmulos da criatividade dentro das organizações tradicionais” e, de outro, rebelava-se contra constrangimentos que lhe eram impostos por ser a única executiva mulher no time do marketing. Até coisas simples do tipo sempre ser encarregada de fazer as anotações da reunião de que participava. Com bom humor, ela retrucava: “Não anoto nem por um [palavrão]. Minha letra é horrorosa e eu não sou secretária de vocês. ”

A resistência era cansativa, mas ela tocava em frente. Até o dia em que preterida em uma promoção a que se candidatou e, logo depois, viu um colega homem menos experiente e de pior desempenho ganhar um cargo semelhante. Ela foi discutir com todos os chefes para entender o que tinha havido e entendeu: não faziam por mal; só conseguiam ver capacidade em quem era parecido com eles. Entendeu ainda que, para outros discriminados, tudo isso era normal, porque discriminados se acostumam a ser discriminados.

Com viagens cada vez mais frequentes e uma filha de 5 anos que precisava de sua atenção, Ana se preparou para uma ruptura. Abriu mão de “belo salário, plano de saúde de livre escolha, dois carros luxuosos por ano, gratificações e estabilidade” e foi para casa cuidar de Daniela. Mas a pausa só durou oito meses e ela já começou a se encontrar com amigos com ideias de montar um negócio. Era a Ana quase evoluída mais uma vez. Digo “quase”, porque ela uma breve recaída – antes de chegar a concretizar o novo negócio, ela cedeu à tentação de uma proposta de emprego da Febraban. Só que logo houve uma licença-maternidade – ela e o marido tinham entrado na fila para adotar uma criança, conforme avisara a Febraban,  a adoção saiu repentinamente  e a receptividade do novo empregador não foi das melhores. No fim da licença, Ana pediu demissão e já tinha sua primeira empresa já montada em casa: ElogieAki, o oposto do ReclameAqui. Agora, sim, Ana evoluída.

Lembram que eu associei evolução a luta no início deste texto? Então: Ana pleiteou vaga (e bolsa) no concorrido programa 10.000 Mulheres que a Fundação Goldman Sachs estava organizando com empreendedoras do mundo todo (três meses de curso mais consultoria da FGV no Brasil), e conseguiu ser uma das 35 finalistas entre as 1.000 que competiam. Sua ambição era fazer do ElogieAki um sucesso.

No programa se deu conta de muita coisa. Por exemplo, entendeu que o ElogieAki precisaria mudar muito para ser um bom negócio e desistiu dele. Também percebeu que se falava muita bobagem quando o assunto era empreender. E ainda observou o movimento das mompreneurs nos Estados Unidos, mulheres que tinham filhos e empreendimentos, e enxergou a oportunidade de fazer o mesmo no Brasil, unindo um bom negócio a uma causa. Então, pensou em montar um espaço físico e um virtual para lidar com esse público (um espaço de coworking e uma plataforma digital, no caso).

Em 2013, fez o coworking com sócios e a Rede Mulher Empreendedora sozinha, que não era para dar dinheiro. A segunda decolou de imediato em número de seguidoras, mas o primeiro não foi bem e teve de ser fechado. Ana ficou sem dinheiro de sustento e ainda perdeu amigos de 25 anos. O que faria? A RME precisava ser monetizada – a RME se tornou, então, a nova evolução de Ana Fontes.

ana_fontes

 

Não vou contar o resto, para não fazer spoiler. Ana transformou a plataforma RME também em uma empresa de eventos e de consultoria, que, entre outras coisas, passou a promover a bem-sucedida Virada Empreendedora. E ela pessoalmente virou uma das maiores influenciadoras do ecossistema empreendedor brasileiro, influenciando mulheres e também homens.

Por baixo, contabilizo que Ana teve umas quatro evoluções nos últimos quatro anos. Para nós, mulheres, Ana foi além – ela é “a” persona do empoderamento feminino. Ou a “Luiza Trajano do empreendedorismo”, em uma definição muito feliz de Rosely Cruz, sua colega de livro, referindo-se à líder do Magazine Luiza.

Vale a pena ler o livro para pegar, em um texto que flui muito bem, todo o raciocínio empreendedor da líder da RME. Em determinado momento, a jornalista Alice Salvo Sosnowski, dona do blog “O Pulo do Gato”, sintetiza Ana Fontes: “Ela é doida, pensa e faz”. De fato, isso explica o fato de a Ana  evoluir mais do que a média – uma vez que cada pensar-fazer é um lutar. E, como os pokemons nos ensinam, quanto mais luta, mais evolução.

 

Empreendedoras por Natureza (ed. Inbook). 
Lançamento hoje, 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Avenida Paulista, 2.077

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

empreendedorismo

Tendências: