Dilma, Temer e as pequenas coisas que depreciam as mulheres

Os fracassos de líderes políticas como a presidente afastada do Brasil e a presidente chilena Michelle Bachelet, e seus desdobramentos, podem atrasar a equidade de gênero no mercado de trabalho; um estudo de caso americano oferece uma pista de como isso acontece

Adriana Salles Gomes

16 de maio de 2016 | 09h52

Um artigo publicado no New York Times (NYT) no último sábado propôs uma análise dos fracassos de líderes como a brasileira Dilma Rousseff (afastada do cargo para o julgamento de impeachment),  a chilena Michelle Bachelet (ainda presidente, mas com uma queda brutal de popularidade) e a argentina Cristina Kirchner (indiciada na Justiça depois de terminar o mandato – e fora da foto) do ponto de vista do gênero.

Vou tomar a liberdade de associar essa matéria com um texto clássico da Harvard Business Review (HBR), de 1993, intitulado The Memo Every Woman Keeps in Her Desk (“O Memorando que Toda Mulher Tem na Gaveta”, em livre tradução). Acho que os dois textos ajudam a pensar no que pode ocorrer no Brasil com as profissionais do sexo feminino e já já os leitores entenderão por quê.

O questionamento feito no NYT, por Jonathan Gilbert, é se os tombos de Dilma, Michelle e Cristina decorrem de alguma puxada de tapete discriminatória em gênero. Até onde entendi, a resposta encontrada pelo colega Jonathan é negativa – ou seja, as três políticas não caíram em desgraça por serem mulheres. Ao mesmo tempo, no entanto, seu texto sugere que o modo como as coisas aconteceram com as três líderes evidencia a persistência de atitudes machistas na região, “especialmente no establishment político”.

Vamos pensar juntos. Vocês acham que o bordão “Tchau, querida” seria utilizado com um homem – digamos, com Lula? Como li em um texto do Brasil Post, escrito pela estudante Thais Viyuela, a “intimidade não autorizada dessa frase” deslegitima a figura pública da presidente. Usar saias tem a ver com isso, sim, ainda que muitas pessoas o repitam sem a consciência do machismo embutido. (Sei que ele foi adaptado depois para Eduardo Cunha, mas nesta circunstância apenas prevaleceu a comparação jocosa entre os dois personagens.)

Um segundo ponto é que, tanto no Brasil como na Argentina, a nova safra do poder é formada majoritariamente por homens. Nem vou comentar o fato de as primeiras-damas serem o oposto das três líderes, incorporando o estereótipo feminino mais tradicional – como a bela, recatada e do lar Marcela Temer e a estilista de moda Juliana Awada, esposa de Macri, o novo presidente da Argentina. Normal, nem sempre se tem uma Ruth Cardoso à mão. A ausência de mulheres no ministério do presidente interino Michel Temer é que se revela significativa: não só confirma que a nova safra do poder é masculina como também que é sexista (ainda que de modo inconsciente).

Como gente respeitável argumenta, ministros devem ser escolhidos exclusivamente por sua capacidade de fazer acontecer e é justo isso que torna a ausência de mulheres na equipe de Temer gritante: fica implícito que, ou ele e seu pessoal não identificam a capacidade de fazer acontecer em mulheres, ou não se dão ao trabalho de conviver com mulheres capacitadas.

(ATUALIZANDO: depois de publicada esta coluna, o presidente em exercício convidou Maria Silva Bastos Marques para presidir o BNDES; o esforço precisa ser reconhecido; no mínimo, mostrou que Temer se dispõe a rever decisões, o que é bom.)

Pessoalmente, acho que, no caso do Brasil, o artigo do New York Times atirou no que viu e acertou também no que não viu. O acerto no que viu é que, em nosso país, persiste o sexismo na política e na sociedade. O acerto no que não viu foi trazer à tona o fato de a consciência sobre o sexismo ainda ser mínima, uma vez que um grande número de pessoas que leram e comentaram o artigo mostrou não ter ideia dos estragos do processo como tem sido conduzido – uma frase como “tchau, querida” ou um ministério tipo clube do bolinha fazem um senhor estrago, simbólico e prático.

Para explicar o tiro no segundo alvo, recorro, enfim, ao texto de mais de 20 anos atrás da HBR, citado no início desta coluna, de autoria de Kathleen Kelley Reardon, professora da Universidade do Sul da Califórnia. Nele, Kathleen conta uma história fictícia: uma executiva sênior fictícia, Liz Ames, lhe pede um conselho sobre se deve enviar uma carta para o presidente-executivo fictício, John Clark, reclamando do sexismo existente na empresa fictícia em que trabalha, a Vision Software, de software educacional. As histórias de sexismo, no entanto, não são fictícias: são bem reais, coletadas em muitas empresas dos Estados Unidos da época.

Liz pergunta a Kathleen se deve realmente enviar a carta, porque teme ser percebida como encrenqueira e reclamona, ou como uma feminista radical, e preocupa-se de o assunto vazar para outras instâncias e lhe criar inimigos. Liz tem medo de que sua carreira seja ameaçada pelo fato de ela apontar esses problemas.

Então, Kathleen reproduz a carta, onde lemos que “pequenas coisas acontecem todos os dias enviando mensagens sutis de que as mulheres são menos importantes, menos talentosas, menos propensas do que seus pares masculinos a fazer a diferença (nos negócios)”. São “coisas que muitos homens não notam e que as mulheres não conseguem deixar de notar”. Por exemplo, nestas três frentes:

  • Reuniões formais. “Uma das experiências de maior desvalorização para as mulheres são as reuniões. As mulheres são muitas vezes interrompidas enquanto falam; suas ideias nunca parecem ser ouvidas. Na semana passada, participei de uma reunião com dez homens e uma ou outra mulher. Assim que uma destas começou sua apresentação, várias conversas paralelas começaram. Suas habilidades de apresentação eram excelentes, mas ela não conseguia chamar a atenção dos outros. Quando chegou a hora das perguntas, um homem disse com desdém: ‘Nós fizemos algo parecido com isso uns anos atrás e não funcionou’. A mulher que apresentava sua proposta tentou explicar por que suas ideias diferiam, mas ele não quis ouvir a explicação. Quando eu expressei interesse, fui cortada.”
  • Reuniões informais. “Um departamento faz retiros duas vezes por ano em um clube de campo onde há um bar só para homens. No final das reuniões, os homens vão todos para lá e informações importantes são frequentemente compartilhadas durante essas conversas casuais; as mulheres não podem ir. Mesmo na empresa, quase todas as reuniões formais são seguidas de uma série de reuniões informais a portas fechadas, para as quais mulheres raramente são convidadas.
  • Comentários. “São frequentes os comentários aparentemente inocentes que depreciam as mulheres. Um colega meu recentemente se vangloriou do quanto ele respeita as mulheres dizendo: ‘Minha esposa é o vento sob as minhas asas; algumas pessoas até me chamam de Sr. Karen Snyder’. Os homens riram; as mulheres não. Na semana passada, um colega do sexo masculino levantou-se às 17h30 e, como se contasse uma piada, informou ao grupo que teria de sair mais cedo: ‘Eu tenho de bancar a mãe hoje à noite’. Enquanto isso, a maioria das mulheres se esforça para passar a impressão de que não se preocupa com suas famílias. Essas histórias parecem irrelevantes, mas somadas e repetidas, são muito poderosas [para depreciar as mulheres].”

Por fim, a carta de Liz ressalta que, se quiser se tornar uma competidora relevante no mercado de software educacional, a Vision Software precisa emitir sinais claros de que os homens não são as únicas pessoas que importam. E que isso depende de um forte compromisso da liderança com uma mudança rumo ao maior respeito às mulheres. Dizendo falar por muitas colegas na empresa – o pressuposto é de que toda profissional da Vision Software (e dos EUA) guardaria um rascunho de memorando de igual teor na gaveta –, Liz afirma que as mulheres despendem toda sua energia na luta contra esses aviltamentos e, não tendo sucesso, muitas vão embora, em corpo ou em espírito (deixando de se engajar).

A professora consulta especialistas reais sobre se a executiva Liz Ames deveria enviar esse memo ao presidente da empresa ou não, e relata o placar final: 3 a 2 para o “sim”. Ou seja, três especialistas consultados acham que a carta deve ser enviada ao John Clark e dois aconselham-na a não fazer isso. (As reveladoras respostas dos especialistas podem ser lidas na íntegra em inglês nesta matéria do Washington Post.)

Se transportássemos o estudo de caso para o Brasil atual, vocês sabem o que aconteceria com essa carta, certo? Iria para a lata do lixo, porque a maioria dos especialistas seria contra seu envio. E pior: desconfio de que a missiva nunca seria escrita, não por nenhuma profissional que tivesse atingido um certo nível na carreira a ponto de poder cobrar o presidente – apesar de os constrangimentos enumerados por Liz/Kathleen continuarem a ser comuns por estas bandas.

Por quê? Bem, algumas executivas não se dão conta da hostilidade sutil de seu ambiente de trabalho. Outras já a identificam, mas teriam pavor de ser vistas como encrenqueiras, antimeritocráticas ou ingratas, algo muito mais forte do que qualquer consciência de gênero e do que qualquer desconforto. E haveria a certeza do vazamento da reclamação, além de tudo.

O que quero dizer é que as piadas ligadas direta ou indiretamente ao fato de Dilma ser mulher, como “tchau, querida”, causam o mesmo efeito que o colega da fictícia Liz Ames quando disse que bancaria a mãe para arrancar risadas na Vision Software. A moral da história de um ministério 100% masculino tem impacto parecido com o da mensagem subliminar transmitida pelos homens que não prestam atenção ao que dizem as gerentes mulheres nas reuniões. As mulheres ficam intimidadas.

Respondendo à pergunta do New York Times, os problemas das três presidentes sul-americanas não decorrem de elas serem mulheres realmente, mas, se projetarmos o caso da HBR no nosso futuro, entenderemos que profissionais do sexo feminino muito provavelmente pagarão o preço por esses fracassos e suas consequências. Os chefes brasileiros não devem receber memos como o da Liz Ames tão cedo e suas empresas não serão competidoras relevantes tão cedo em seus mercados. E o Brasil? Ao não emitir sinais claros de que não são só os homens que importam, talvez também continue pouco relevante, como a Vision Software.