No futuro, a mulher alfa pode ser o padrão

No futuro, a mulher alfa pode ser o padrão

A emergência da mulher que se dedica mais à carreira do que à família (ou, no mínimo, tanto quanto) é uma das principais tendências comportamentais detectadas pelos futuristas até 2025

Adriana Salles Gomes

03 de abril de 2016 | 08h53

Quando vemos os republicanos aliados do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos Ted Cruz usarem sua esposa, Heidi, como argumento eleitoral contra o opositor Donald Trump, estamos vendo um pedaço do futuro. Focada na carreira, Heidi pode ser definida praticamente como uma mulher alfa. Comparada com Melania Trump, ao menos do que Melania se tornou como esposa do Donald, Heidi é extra alfa (ressalte-se que, antes do matrimônio, a eslovena teve carreira, como modelo e como designer de joias e relógios).

Por que um pedaço do futuro? Porque a emergência da mulher alfa, que prioriza a carreira em detrimento da família (às vezes adiando casamento e maternidade, às vezes desistindo deles), é uma das principais tendências comportamentais detectadas pelos futuristas para os próximos dez anos e as eleições dos Estados Unidos a revelam com perfeição, não só pelo apelo de Heidi Cruz no lado republicano como pela força da pré-candidata Hillary Clinton, ambas contrastando violentamente com Melania Trump.

A tendência é mais forte nos Estados Unidos e no Leste Europeu e também expressiva nos país latinos da Europa, como Espanha e Itália, além de Grécia. No Brasil, é notável por enquanto principalmente na cidade de São Paulo e, em menor escala, em Porto Alegre.

“Essas tendências não são coincidências. Uma tendência comportamental é detectada quando um comportamento diferente do usual pode ser observado em vários lugares do mundo e ao longo de um ou dois anos no mínimo, e isso está acontecendo com as mulheres alfa”, diz a este blog o futurista Luís Rasquilha, presidente da Inova Consulting. “As mulheres alfa fazem uma escolha entre uma família de sucesso e uma carreira de sucesso, porque as duas coisas ao mesmo tempo são quase impossíveis.”

rasquilha

 

Alguns sinais materializam a tendência identificada por Rasquilha e outros futuristas, direta e indiretamente. De modo direto, elas já estão assumindo postos importantes no mercado financeiro (ou funções financeiras em empresas não financeiras), o que não se via acontecer até há pouco tempo, e o empreendedorismo feminino alça voo. E não é à toa que esquenta o debate sobre o salários desiguais e sobre regime de cotas.

De modo indireto, a tendência é corroborada pelo crescimento do mercado pet, de animais de estimação, ao menos nos grandes centros urbanos, como lembra Rasquilha. Também os serviços como o marido de aluguel (para consertos na casa) a comprovam. No terceiro-mas-honroso lugar nesta lista de evidências aparece a transformação masculina, demarcada pelo fato de os homens estarem se preocupando mais com sua imagem e seu estilo.

Na interpretação de Rasquilha, a tendência da mulher alfa no mundo não resulta apenas de uma vontade das mulheres, mas de uma necessidade que as empresas vêm sentindo de comportamentos que são mais naturais nelas. “Tem a ver com competências e valores, como o fato de elas serem mais multitarefas e mais sensíveis”, explica o futurista da Inova Consulting. Essas duas características capacitariam as mulheres em geral a lidar mais tranquilamente com o caos e a complexidade trazidos pelas tecnologias de informação e comunicação, e a enfrentar melhor desafios como o da qualidade de vida, o da sustentabilidade, o da reputação, o da envelhecimento da sociedade e a consequente interação entre gerações.

“Nunca é demais lembrar que a capacidade multitarefas das mulheres já foi comprovada pela neurociência; as mulheres tem mais desenvolvido o corpo caloso, estrutura que liga os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, e isso permite que muito mais informações fiquem passando de um lado para outro, viabilizando várias tarefas sendo tocadas simultaneamente”. (Veja aqui.) A lógica atual dos negócios, masculina, é baseada em foco; o terreno da diversidade em qual se está entrando talvez não possa prescindir mesmo da capacidade multitarefas.

E quanto à tendência da mulher alfa no Brasil? Também é puxada pelas empresas? Bem, os leitores podem questionar se nossas companhias estão de fato preocupadas com coisas nas quais elas fariam diferença, como qualidade de vida, sustentabilidade, reputação, envelhecimento da sociedade. Minha resposta é simples: acho que não estão. Eu diria que, de modo geral, ainda não há empresas brasileiras realmente engajadas em causas, no que Rasquilha concorda comigo.

Haverá um dia? Talvez. Mas independentemente de terem bandeiras a levantar, nossas empresas precisam  dar conta dos nativos digitais, tanto empregados como consumidores, e isso é para ontem. A maioria desses jovens, ao menos os dos grandes centros urbanos, não reconhece nem aceita mais diferenças entre homens e mulheres. “Nas startups fundadas por essa moçada, por exemplo, homens e mulheres já são exatamente iguais; nos programas de trainees, também”, garante o futurista. [Startups, vale mencionar, são empresas novatas com negócios escaláveis, ou seja, que têm capacidade de crescer muito e rapidamente, em geral graças à ajuda da tecnologia.]

Nativo digital como forma de pressão é o que não falta aqui. O Brasil é o quarto país do mundo com maior população nascida sob o signo da internet. Só perde para China, Estados Unidos e Índia: são 20,1 milhões os nativos digitais brasileiros. Essa presença maciça garante não só uma permanente conectividade entre as pessoas e um aumento de exigência em relação a tudo; garante a mudança da sociedade.

Para quem tem dúvidas sobre se a tendência da mulher alfa mais como regra do que como exceção se confirmará em um mundo onde alguns ainda fazem escravas sexuais, repasso um lembrete do futurista Rasquilha: situações de crise, seja econômica, social ou política, tendem a acelerar mudanças.

Por fim, parece haver mais duas “conspirações do universo” a favor das mulheres alfa. Uma é de ordem matemática: já há mais mulheres do que homens no mundo. Outra tem a ver com o timing: as mulheres supostamente teriam mais facilidade do que os homens em lidar com o que os futuristas chamam de quinta onda da inovação e isso se amplia com a sexta onda, a partir de 2020 – as duas estão identificadas no gráfico abaixo (lembrando que, no mundo dos negócios, inovação deixou de ser crença, ou moda, e virou obrigação).

ArteInova

 

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