Novembro, 2017: o Vale do Silício anuncia a era da igualdade

Novembro, 2017: o Vale do Silício anuncia a era da igualdade

O megaevento Dreamforce, que recentemente reuniu 170 mil pessoas de negócios e tecnologia em San Francisco, teve viés feminista; isso pode ser interpretado como um bom presságio, porque, na economia globalizada, as práticas empresariais têm sido fortemente influenciadas pelo que acontece naquela região

Adriana Salles Gomes

21 de novembro de 2017 | 07h21

No começo deste mês estive em San Francisco, Califórnia, cidade-âncora do Vale do Silício. Fui participar do megaevento Dreamforce 2017, organizado pela companhia de software sob demanda Salesforce. Trata-se de uma superprodução dos negócios: vários prédios abrigam palestras, talk-shows, workshops, exposições, rituais e shows, e 170 mil pessoas comparecem a tudo isso, aumentando em 20% a população da cidade.

Voltei mais esperançosa para o Brasil. Primeiro, a crença no crescimento econômico é sempre contagiante, mesmo para uma cidadã brasileira nas circunstâncias atuais. Segundo, e foi isso que me animou realmente, o empenho das pessoas em mudar o paradigma dos negócios foi inegável – o empenho de pessoas poderosas, o que não deixa de ser uma surpresa. Normalmente quem alcança o poder em determinado contexto luta com todas as forças para que esse contexto não mude, como os políticos brasileiros vêm nos ensinando todos os dias. Só que aparentemente está surgindo um novo normal no Vale. Ouso dizer que o Dreamforce 2017, evento de uma empresa fundada por homens, teve viés feminista.

A verdadeira razão da minha animação é que o Vale do Silício funciona como uma espécie de farol para as embarcações da economia globalizada. O “business as usual” da região vem se transformando muito nas últimas décadas e, seja ele qual for, acaba servindo de modelo para a maioria das empresas mundo afora. As ondas da tecnologia da informação, da inovação e do empreendedorismo, ocorridas lá antes e aqui depois, são provas disso. Da Apple ao Google, passando pelo Facebook, os negócios de lá são imitados cá. Agora, o Vale está fazendo autocrítica e buscando ser mais inclusivo em relação à diversidade – e usando justamente a tecnologia, a inovação e o empreendedorismo para incluir. E, se o Vale está criando essa nova onda, é provável que o sistema empresarial do Brasil embarque nela em algum momento.

(A propósito, Marc Benioff, o fundador e presidente do conselho de administração da Salesforce, batiza essa onda de era da igualdade.)

Destaco a seguir algumas evidências da nova onda – especificamente em relação à inclusão das mulheres, que são o tema desta coluna:

Líderes negras. Por muito tempo, as mulheres tinham escassez de modelos de liderança feminina a seguir, mas isso não é mais verdade. Os exemplos abundaram no Dreamforce e um deles foi Mellody Hobson, presidente da Ariel Investments, membro do conselho da Starbucks e da Estee Lauder, e considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Especialista em investimentos, Mellody resumiu o grande desafio da era da igualdade de um modo interessante: falta as empresas atribuírem à diversidade de pessoas o mesmo (e óbvio) mérito que enxergam na diversidade de investimentos, e dar à implementação dessa diversidade o mesmo senso de urgência que dão à busca de qualidade em seus produtos. Outro exemplo foi a ex-primeira dama dos Estados Unidos Michelle Obama, que dispensa apresentações. O conteúdo de sua palestra (um talo-show com Benioff, na verdade) não pôde ser publicado pela imprensa presente, devido ao contrato estabelecido entre as partes, mas o que foi veiculado pelo público no YouTube e por um não-jornalista no site da revista Inc. pode ser reproduzido. Michelle puxou as orelhas dos líderes empresariais com a elegância que lhe é peculiar, afirmando que eles não podem pensar só em sustentar produtividade, mas devem pensar também em sustentar famílias saudáveis. Segundo ela, as empresas precisam criar culturas organizacionais que apoiem os pais, além de estruturas que ajudem a promover as famílias saudáveis. E Michelle observou que, para que isso seja possível, os executivos precisam colocar pessoas diversas nas conversas importantes. “Se falta diversidade na mesa, é hora de mudar quem senta à mesa”, pontuou Michelle. Enquanto, no Brasil, ainda temos de utilizar o Dia da Consciência Negra como um lembrete da exclusão, como fizemos ontem, duas mulheres negras poderosíssimas foram ouvidas com a máxima atenção no Dreamforce.

Ginni Rommety com Marc Benioff, fundador da Salesforce

Líderes tecnológicas. Era quase como se Madame Curie estivesse falando a uma plateia de cientistas, mulheres e homens. Diane Greene, que nos anos 1990 criou o predecessor da nuvem computacional na empresa VMWare e hoje é vice-presidente de nuvem do Google, e Ginni Rommety, CEO mundial da IBM, empresa com valor de mercado de US$ 139,35 bilhões, foram reverenciadas no Dreamforce. A primeira compartilhou desde sua surpresa com a dimensão que sua criatura “nuvem” ganhou até a convicção de que as tecnologias e os negócios estão sendo democratizados pela nuvem – a ponto de, em breve, qualquer pessoa se tornar capaz de criar algo útil com tecnologia. A segunda falou de como a quarta revolução industrial mudará o mundo (e sua IBM é uma das capitãs da mudança) e alertou sobre a necessidade de as pessoas deixarem a zona de conforto para lidar com isso: “crescimento e conforto raramente coexistem”. Foi interessante, nos dois casos, ver mulheres poderosas derrubando as idealizações do poder. Diane, figura lendária do Vale do Silício, não disfarçou uma relativa insegurança ao narrar sua trajetória pessoal com voz trêmula, como quando contou que passou por quatro faculdades, indo do sonho de desenhar plataformas petrolíferas offshore (frustrado por ela, sendo mulher, não poder ir checá-las in loco) até a descoberta da ciência da computação em Berkeley. Ginni revelou que, quando tinha 16 anos de idade, seu pai abandonou a família – e a mãe, tendo quatro filhos para criar e contrariando as expectativas gerais, voltou a estudar, de noite, para conseguir trabalhar como gerente em uma clínica de distúrbios do sono. Ginni podia ter se concentrado na rejeição paterna, mas preferiu a lição materna. “Com minha mãe aprendi a nunca deixar ninguém definir quem eu sou”.

 É preciso mudar as ambições. Foram apresentados muitos casos de uso de tecnologia para promover a era da igualdade, porém um dos mais interessantes foi os das Girl Scouts, as escoteiras dos Estados Unidos. Sylvia Acevedo, líder da entidade, subiu ao palco para contar como a organização, que já se destaca por ensinar meninas a se virarem sozinhas, está expondo-as às disciplinas STEM – ciências, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês. A ideia é que as carreiras apoiadas nessas disciplinas possam entrar no campo de visão feminino tanto quanto no masculino, o que não acontece hoje. Em outras palavras, essas carreiras profissionais também estão ao alcance delas. A jornada de liderança das escoteiras inclui insígnias (os broches que elas costuram nos uniformes) ligadas especificamente ao STEM. Há insígnia de arte digital para quem desenvolve habilidades de computação, insígnia de inovação para quem tem aprendizados de antropologia, engenharia e negócios, insígnia ligada à educação financeira, entre outras. As escoteiras têm de conduzir projetos para obter essas insígnias. Mais de 160 mil meninas participam dos programas de escoteiras todos os anos nos EUA e são oferecidos mais de dez programas ligados às disciplinas STEM. Isso já vem acontecendo há algum tempo; a novidade é que vem ganhando escala com ajuda da tecnologia e com o patrocínio de empresas.

 

Natalie Portman

É preciso mudar a conversa. Quando ganhou o Oscar de melhor atriz por Cisne Negro, a israelense Natalie Portman descobriu que recebia por seus trabalhos um terço do que ganhavam os atores homens vencedores do Oscar e tornou-se uma ativista da causa da igualdade salarial entre os gêneros. Num dos palcos do Dreamforce 2017, Natalie compartilhou o que aprendeu com essa experiência e outras, como a de ser mãe de dois filhos e uma profissional, seu trabalho filantrópico com microcrédito, sua graduação em Harvard, a direção do filme “A Tale of Love and Darkness”, a escolha de papéis no cinema e encruzilhadas pessoais. “A quantidade de energia mental necessária para conseguirmos nos organizar entre a maternidade e a carreira é imensa; as mulheres precisam se juntar, por setor, para uma ensinar a outra a se organizar na prática, aproveitando melhor a energia mental”, comentou. “Fui promover o microcrédito por influência da rainha Rania da Jordânia; ela me ensinou que o microcrédito concedido às mulheres tem grande impacto na comunidade e é o que pode reduzir o gap de esperança”. A Universidade Harvard exigiu de Natalie que tivesse a própria voz, algo que as mulheres não são socialmente encorajadas a fazer. “Seria bom haver escola de chefe para todas as mulheres, para mudarmos a conversa e aprendermos a exigir as coisas de um jeito direto, não pedindo licença ou desculpas – não é certo as mulheres que exigem serem vistas como difíceis, enquanto se considera que os homens exigentes têm o comportamento normal”. Dirigir um filme funcionou como um curso prático de chefia para Natalie. A atriz contou ainda que recusa personagens motivadas a agir por terem sido violentadas ou por algum trauma com os filhos, porque passam a mensagem de que só algo extremo pode gerar uma mulher aguerrida. (Mas ela também se coloca contra os estereótipos de mulheres fortes que um certo movimento feminista quer fazer prevalecer – toda pessoa é forte em alguns momentos e vulnerável em outros, frisou.) Cito mais duas lições valiosas que Natalie disse ter aprendido em suas encruzilhadas pessoais: (1) temos de parar de nos dedicar a agradar os outros, algo que muitas mulheres ainda priorizam inconscientemente, e focar em buscar nossos próprios caminhos; (2) temos de fazer a conversa mudar: parem de dizer que vocês não contratam mulheres por não haver mulheres com experiência para determinada função; vocês precisam é dar a elas a chance de acumularem experiência.

 

Ashton Kutcher

Reescrevendo o conto-de-fadas. Vi ainda Ashton Kutcher, outro ator de Hollywood, subir num dos palcos do Dreamforce para falar de sua ONG, a Thorn, que combate a exploração sexual de crianças. Ele começou a palestra subvertendo as histórias mágicas da infância: era uma vez a princesa Maria, menina que foi abusada por um amigo do rei durante anos e que nunca teve coragem de denunciá-lo, com medo de suas ameaças, por sentir culpa, por ter vergonha de si mesma. A Thorn tem usado tecnologia para identificar pedófilos na Dark Web e então alertar as autoridades, e também tem ajudado a recuperar as meninas e os meninos “que tiveram suas almas roubadas”. A recuperação é o conto-de-fadas da vida real, uma conversa reescrita, e começa por tratar as crianças em questão não como vítimas, e sim como sobreviventes.

Sublinhe-se, com underline vermelho e marcador amarelo, esse reenquadramento que Kutcher fez – de vítimas para sobreviventes. Serve para as crianças abusadas sexualmente e serve, ainda que guardadas as devidas proporções, para mulheres discriminadas de maneira geral, até no trabalho. Deixar-se vitimizar não altera o status quo; ir à luta, sim. Com o apoio de uma elite esclarecida, como a do Vale do Silício que eu vi no Dreamforce 2017, acho que ficará cada vez mais fácil para cada uma de nós lutar e obter resultados. Talvez possamos chegar antes do que esperamos à era da igualdade anunciada por Marc Benioff, o fundador da Salesforce. Quem sabe?

 PS- Suspiro. O jornalista Charlie Rose é o mais novo nome na relação de chefes que assediaram sexualmente funcionárias e candidatas a um emprego. Foi denunciado por oito mulheres. Porém, antes de você escrever qualquer coisa nas redes sociais, lembre-se do conteúdo desta coluna: as mulheres que denunciaram Rose não são vítimas nem mulheres fortes estereotipadas; são sobreviventes e estão mudando a conversa.

Fotos: Divulgação/Salesforce-Jakub Masur Photography.