O empoderamento feminino está sob ataque?

O empoderamento feminino está sob ataque?

A misoginia por trás dos boatos sobre Macron talvez explique também as críticas ao empoderamento vistas nas redes sociais. Questione-se e confira lições pouco óbvias para as mulheres se empoderarem

Adriana Salles Gomes

12 de maio de 2017 | 10h28

Como sabemos, o presidente recém-eleito da França, Emmanuel Macron, sofreu um ataque hacker nas vésperas da votação – o MacronLeaks. O vazamento apresentaria “provas” de que ele é gay.

Entre as minhas amigas, a reação em uníssono foi: “Ah, estão dizendo que ele é gay por ser casado com uma mulher mais velha”. Mais de uma lembrou que o mesmo boato acometeu o ator Hugh Jackman (o mutante Wolverine), também casado com uma mulher mais velha. E, após o resultado das urnas, Macron ele mesmo relacionou o fato com a idade de sua mulher e a misoginia.

Qual a lógica embutida aí? A de que é impossível alguém sentir desejo sexual por uma mulher mais velha. “Donde”… os casamentos de Macron e Jackman só poderiam ser de fachada. (Isso é inconsciente, viu?!)

Algo semelhante talvez esteja ocorrendo na polêmica sobre “empoderamento” que volta e meia aparece nas redes sociais. Já vi vários posts que ridicularizam a palavra, ora como um estrangeirismo deslumbrado (imitação pobre de empowerment), ora como mais um jargão corporativo esvaziado de significado.

Como a construção da palavra em português é absolutamente correta – não um puxadinho, como ocorre em muitos casos – e como ninguém menos do que o educador Paulo Freire a prestigiou décadas atrás, minha hipótese é de que a palavra incomoda tanto por estar sendo acintosamente associada às mulheres.  De novo, é inconsciente. Tem gente bem-intencionada e inteligente combatendo o termo. Mas é fato que, na prática, ridicularizar o “empoderamento” funciona como uma sabotagem ao movimento de ascensão feminina nas empresas e na sociedade.

Dado o alerta sobre a potencial sabotagem, uma coisa boa que pode vir da polêmica é nos fazer pensar nos dois sentidos atribuídos à palavra: o inglês empowerment diz que uma pessoa empodera a outra; o português de Freire afirma que só a própria pessoa se empodera. (É mais ou menos a mesma discussão que existe sobre motivação: são os outros que nos motivam ou só nós somos capazes de nos motivar?)

Eu particularmente acredito no empoderamento de Paulo Freire (embora não tenha dúvidas de que um ambiente pode facilitar, ou dificultar, o poder feminino). E, para fortalecer o empoderamento freireano, reproduzo dez lições compartilhadas recentemente pela nova-iorquina Violetta Ostaffin [na foto acima], uma das duas mulheres que conseguiram ser sócias do Boston Consulting Group no Brasil. Sugiro ler com atenção; não é a listinha óbvia de sempre.

Faça – o que a inspira.

 Violetta cita um estudo de uma psicóloga da Colômbia segundo o qual as recomendações para homens e mulheres na vida diferem muito. Mulheres escutam “seja boa” (“be good”), enquanto homens ouvem “faça melhor” (“do better”), o que funciona como uma programação para a vida. Só que a lógica do empoderamento inclui o fazer, porque pressupõe a melhoria contínua do ser. “É preciso aprender a fazer coisas, refinar-se e seguir em frente”, explica Violetta. Importante: fazer fica bem mais fácil quando escolhemos fazer o que nos inspira.

Com as pessoas, procure os pontos em comum.

 Nos relacionamentos, a maioria das pessoas pensa imediatamente nas diferenças que tem com a outra parte. As mulheres fazem muito isso ao se comparar com outras mulheres e com homens, e isso não é bom para fazer fluir a colaboração. Focar as semelhanças (e sempre há semelhanças, acredite), é muito mais produtivo, garante Violetta.

Nas ideias, ressalte as diferenças.

 As diferenças devem ser destacadas nas ideias, nas ações, no trabalho em si. É muito frequente que as mulheres se abstenham de dar opiniões que destoem da maioria (geralmente, uma maioria masculina), preocupadas de aquilo ser uma bobagem. Elas precisam “dar mais a cara para bater”, ter mais coragem de se expor com ideias diferentes.

Forme uma comunidade.

 As mulheres são boas em fazer amizades em geral, mas isso não significa que elas saibam formar comunidades. O conceito de comunidade implica o de diversidade e tem de ir além das fronteiras familiar e profissional. Não são as velhas e boas panelinhas. “É importante formar redes que misturem perfis de pessoas bem diversos”, como ressalta Violetta.

Escolha bem o parceiro amoroso.

 “Se você for se casar com alguém, escolha alguém que apoie você profissionalmente”, diz Violetta. Algumas pessoas podem achar absurdo colocar esse fator na conta de uma relação amorosa, mas eu tenho testemunhado que em substanciais 100% dos casos das mulheres que foram mais adiante na carreira (e que não optaram pela solteirice), a cara-metade oferece um apoio atroz.

Garanta que a olhem diferente.

 Para Violetta, não adianta bater de frente com os colegas que fazem piadas e comentários machistas. (Algumas mulheres acham que é preciso se posicionar sempre, mas ela discorda.) Para a sócia do BCG, é muito mais efetivo ignorar o machismo na hora que ele se manifesta (para não criar resistência) e voltar ao assunto indiretamente em outra ocasião, com conversas ou ações que mostrem que você não é “daquele jeito”. Se eles a olharem diferente, começarão a enxergar as mulheres de jeito diferente.

Prefira uma mentoria pessoal.

 Apesar dos insistentes conselhos sobre ter mentores (e dos programas de mentorship instituídos), Violetta acredita mais em eleger um mentor informal pessoal, que sempre dê sua opinião sincera. E a relação com ele deve ser baseada em perguntas objetivas, em sua opinião. A sócia do BCG elegeu uma ex-professora da faculdade, especializada em liderança, que hoje tem 75 anos de idade, e investe nesse relacionamento. Ela frequentemente telefona para a professora, que mora nos Estados Unidos, com uma pergunta bem objetiva. E ouve uma opinião sincera do outro lado. “Mas tem de ser uma via de duas mãos; minha mentora também tem ganhos com esse relacionamento”, diz Violetta.

Não pare de estudar por nada.

 Esse é o conselho mais óbvio de Violetta, mas é necessário. O estudo é uma das maiores alavancas para as mulheres. Sabe-se, por exemplo, que as mulheres estudam muito em faculdade e MBA, mas e quanto aos cursos livres? E o ensino a distância? E coaching? E os livros? (Algumas estatísticas dizem que elas leem menos do que eles, por exemplo.) O fato de serem mães ou de terem de cuidar de pais idosos às vezes as tira dessa rota, como diz Violetta. Não deveria.

Peça mais, peça muito, peça sempre.

 Pesquisas variadas já comprovaram que as mulheres pedem menos. Não só pedem menos aumento salarial e promoção, como pedem menos para mudar de área, para ter um curso bancado pela empresa etc. Uma coisa típica é quando elas mudam de emprego: se a oferta já prevê uma remuneração maior do que a atual, elas rapidamente se contentam, enquanto os homens pedem ainda mais. As mulheres têm de desenvolver autoconfiança para pedirem o que querem e na frequência que quiserem (nada de “agora vou ficar um ano sem pedir nada para não me desgastar”). E precisam entender que não é o fim do mundo se receberem um “não” como resposta.

Sinta orgulho de ser mulher.

Parece frase de livro de autoajuda, mas está longe de ser. Em pleno século 21, ainda há muitas mulheres se desculpando por serem mulheres. Claro que isso não acontece literalmente, do tipo “peço perdão por ser mulher”. Mas elas se desculpam por falar com os filhos ao telefone, por exemplo. Ou por ouvir com atenção a algum drama pessoal de um colega de trabalho. Por não serem tão assertivas em relação a algo, permitindo-se ter mais dúvidas. Ou se criticam e se culpam pelas dificuldades das agendas profissionais e pessoais, o que não traduz orgulho algum.

E O DIA DAS MÃES?

Para ninguém dizer que não falei das flores e do Dia das Mães (que vou celebrar feliz da vida com meu filho)… minha sugestão é que você aproveite o dia também para pensar nos possíveis efeitos nocivos da malhação do empoderamento e nos conselhos de Violetta para você se empoderar.

E caso esteja se questionando sobre se esses conselhos são eficazes em uma cultura machista como a brasileira, acrescento algumas informações: Violetta, que já é fluente no português brasileiro, cresceu em uma família polonesa, os Estados Unidos também são machistas segundo as pesquisas, e a maioria dos países em que ela atuou (cinco, incluindo a Colômbia) tem cultura machista.

PS: Se você estiver em São Paulo e quiser praticar o antepenúltimo item da lista ainda no mês de maio, experimente o evento gratuito “O Impacto das Mulheres”, organizado pelo site Mulheres Ágeis, que acontecerá no Google Campus.

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