Por que a Salesforce igualou os salários de homens e mulheres

Por que a Salesforce igualou os salários de homens e mulheres

A companhia norte-americana gasta 3 milhões de dólares a mais por ano depois de equiparar a remuneração dos que fazem a mesma coisa, sem importar o gênero; ela dá o exemplo e cria o precedente de que o mundo empresarial precisa

Adriana Salles Gomes

18 de março de 2016 | 11h21

Era uma vez uma empresa que descobriu que funcionários que faziam a mesma coisa não necessariamente ganhavam a mesma coisa. Frequentemente, isso acontecia com homens e mulheres. E ela corrigiu o erro.

Esse conto de fadas contemporâneo aconteceu de verdade, em 1º de agosto de 2015, e acho que não teve toda a repercussão que deveria ter. Talvez no futuro esse até seja um dia importante na história empresarial mundial. A empresa Salesforce, que se destacou na computação em nuvem, resolveu analisar a remuneração de seus mais de 17 mil funcionários ao redor do mundo para descobrir se havia disparidades no que homens e mulheres ganhavam pelo mesmo trabalho. E descobriu.

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Cerca de 6% do pessoal da Salesforce, mulheres e homens, ganhavam salários que eram menores do que deveriam ser de modo estatisticamente significativo e tiveram a correção para cima, a um custo de 3 milhões de dólares ao ano para os cofres corporativos.

A força de trabalho da empresa, apesar de ser de tecnologia (área tradicionalmente com menos DNA feminino), tem bastante mulheres: 30% do todo, que agora é de mais de 20.000 empregados.

A decisão está envolta em um conto de fadas contemporâneo, porque o gatilho que a disparou foi o discurso de Patricia Arquette ao ganhar o Oscar em 2015. Na cerimônia, a então melhor atriz coadjuvante chamou a atenção para a desigualdade de gêneros no pagamento pelo trabalho.

Este blog conversou com os porta-vozes da matriz da Salesforce, que explicaram o seguinte: “O gap salarial entre os gêneros na indústria da tecnologia era nosso conhecido antes, mas o discurso da Sra. Arquette inspirou Cindy Robbin e Leyla Sekaa [ambas executivas em nível de vice-presidência na empresa] a lidar com essa questão”. E eles continuam: “Nós nem sabíamos se esse gap existia na Salesforce; nos comprometemos a descobrir isso e, se o descobríssemos, nos comprometemos a eliminá-lo.”

A análise, que levou em conta função, nível hierárquico e localidade, mostrou que cerca de 1.000 funcionários sofriam essa injustiça e houve a reparação. A reação das pessoas a essa atitude “não poderia ter sido melhor”, segundo a empresa. “Tanto mulheres como homens se entusiasmaram com a reavaliação salarial, orgulhosos de trabalhar para uma companhia associada à equidade de gênero.”

(Não pensem os leitores que a boa resposta eram favas contadas. Não eram. Ficou famosa em 2015 a história do empresário Dan Price, dono da Gravity Payments, que reduziu o próprio salário para que todos os seus 120 empregados pudessem ganhar o que era apontado em uma pesquisa como o valor mínimo para alguém ser feliz: 70 mil dólares anuais. O plano de reajuste na Gravity ainda vai até 2017, mas veio à tona que alguns funcionários de remuneração superior reclamaram da redução da diferença com os demais, porque lhes pareceu falta de reconhecimento sobre seu trabalho e seus resultados, contrariando um princípio meritocrático.)

Voltando à Salesforce, a empresa se comprometeu a revisar constantemente os salários, para não haver risco de as distorções voltarem a acontecer, já que mulheres parecem ser menos assertivas ao pedir aumentos e também menos bem avaliadas por ter uma atitude mais humilde (dois temas para uma próxima coluna).

A companhia norte-americana está mexendo com a própria cultura, ao declarar ter entrado em uma longa jornada pela equidade, pela diversidade e pela inclusão. Por exemplo, ela focou também em possibilitar às mulheres maior acesso a oportunidades de desenvolvimento e promoção na carreira. O percentual de mulheres promovidas em 2015 aumentou 33%. Também sem ser obrigada pela lei norte-americana, ela aumentou a licença-maternidade ou paternidade para 12 semanas com 80% da remuneração (incluindo a remuneração variável).

Por que eu chamo a mudança promovida pela Salesforce de conto de fadas? Porque é melhor que o seja, já que contos de fadas moldam modelos mentais (ou tantas mulheres não teriam desejado ser frágeis princesas na vida). Notícia recente do Estadão mostrou uma diferença de 34% nos salários de homens e mulheres com nível superior completo (a favor deles), segundo o levantamento de 2015 do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

(Confesso que esse número me surpreendeu; as consultorias de RH têm divulgado nos últimos anos que a diferença contra elas nos cargos de gerência das grandes empresas iria de 5% e 15%. Mas, até se for 5%, já é uma diferença estatisticamente significativa.)

Assim como Patricia Arquette inspirou a Salesforce, espero que esta coluna inspire nossas empresas a fazerem alguma coisa a respeito. Aliás, é a expectativa da Salesforce também, segundo seus porta-vozes disseram a este blog: “Nossa esperança é sermos líderes da mudança nessa área e que outros sigam nosso exemplo”. Pode dar certo no médio e longo prazo, porque a Salesforce de fato é uma empresa muito admirada pelas demais, por toda a sua capacidade de inovar (na foto, vê-se a torre de sua sede em San Francisco, Califórnia, com a ponte Golden Gate ao fundo).

É claro que, no Brasil, há a desculpa da crise para não fazer nada, e é uma desculpa razoável, mas às vezes fica mais fácil mudar na crise, não é verdade?