Sobre as Amélias corporativas

Sobre as Amélias corporativas

Pesquisa ajuda a entender as dificuldades das executivas brasileiras que chegam ao topo das empresas: apenas 20% têm um parceiro amoroso estável, ante 80% dos homens na mesma posição

Adriana Salles Gomes

11 Fevereiro 2016 | 09h57

“Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia é que era mulher de verdade.”

Mesmo a moçada deve conhecer esse samba clássico de Ataulfo Alves e Mário Lago, sobre uma mulher que trabalhava demais abrindo mão de suas vontades – e que, não valorizada pelo parceiro, foi substituída. Eu o conheci muito cedo porque minha avó materna, Amélia, odiava-o com todas as forças. Tinha sido ativa como professora, e continuava ativa depois de aposentada ao costurar roupas lindas para as netas, mas tinha pavor de ser vista como alguém que trabalhasse demais para os outros sem cuidar de si e sem merecer respeito.

Minha avó Amélia não foi uma amélia de Ataulfo, mas, ao longo do século 20, tudo indica que muitas mulheres de diferentes nomes encarnaram a personagem. O engraçado é que, no século 21, nenhuma mulher se considera ameliana, e muitas somos, em número maior até. Deixando o preconceito de lado, você já parou para pensar nisso?

A amélia atualizada tende a ser corporativa, trabalhando demais pela família e também pela carreira. Se não chega a ser explicitamente desvalorizada, não tem a ascensão profissional que poderia ter, pode ser submetida a fatores de estresse acima da média e a sociedade ainda a crítica, como uma mãe “ausente”, uma dona-de-casa “dependente” e uma companheira que nem sempre está “disponível, descansada e bela”.

“Amélia corporativa” foi uma expressão cunhada pela professora, pesquisadora e consultora Betania Tanure em um estudo pioneiro, quantitativo e qualitativo, com mulheres executivas de mais de 300 empresas do País, em coautoria com Antônio Carvalho Neto e Juliana Oliveira.

Com a primeira edição feita em 2002 e atualizada regularmente, o estudo busca entender como a executiva brasileira que chegou a cargos de poder lidou e lida com aspectos-chave de sua vida: a carreira em si, o relógio biológico e o exercício da maternidade, os amores e os preconceitos. O estudo nos leva a fazer perguntas fundamentais – como é ser uma mulher e ter uma carreira, hoje? Quais são as dores e delícias de ser amélia hoje?

Vivemos um momento caracterizado pelo neofeminismo, que traz à tona problemas de gênero longamente abafados e que representa uma oportunidade de melhorar as coisas, e este blog tentará reunir dados e análises para retratá-lo. Por isso, nenhum post poderia ser melhor para inaugurar o espaço do que este estudo sobre a nova amélia, suas dores e delícias. Conversei com Betania a respeito e destaco os aspectos mais importantes:

A carreira. Os números do estudo de 2015 sobre a amélia corporativa – e vamos entender aqui a expressão amélia de forma respeitosa e corajosa – mostram que houve uma evolução. Se só 1 em 100 posições de presidência nas grandes empresas brasileiras era ocupada por uma mulher em 2002, agora são 9; se elas estavam em 9% dos cargos de diretoria executiva, agora estão em 15%.

Porém, 64% das entrevistadas ainda dizem encontrar dificuldades por serem mulheres nas carreiras gerenciais, percentual que cai para 46% nas carreiras técnicas. Nas carreiras gerenciais, isso acontece principalmente no início, quando a competência ainda não está consolidada e a questão da maternidade tende a se colocar.

Betania: 'Mulheres são menos agressivas na negociação dos salários'

Betania: ‘Mulheres são menos agressivas na negociação dos salários’

Quanto à remuneração, na amostra geral do Brasil do IBGE/Pnad, elas ainda ganham menos do que eles pelo mesmo trabalho – 25% a 30% menos. No cargos de gestão de grandes empresas, a diferença a favor deles diminui, mas ainda existe – varia entre 5% e 15%, segundo levantamento de consultorias. Puro preconceito? “Ao menos nas grandes empresas dos principais centros urbanos, a diferença pode ser explicada também pelo fato de as mulheres serem menos agressivas do que os homens na negociação de seus salários”, afirma Betania.

Apesar da evolução, Betania não consegue enxergar um futuro em que os gêneros se equilibrem meio a meio nas posições de poder, ao menos não em 20 ou 30 anos. “Não necessariamente por causa do preconceito. Acontece que, em determinado momento da carreira da mulher, que coincide com a maternidade, opções são feitas.”

O relógio biológico e o exercício da maternidade. Segundo o estudo, a decisão de abrir mão de algo, seja limitando a família, seja desinvestindo na carreira, é normalmente tomada entre os 27 e os 34 anos de idade. “Na sociedade brasileira, as mulheres ainda interrompem a carreira ou desaceleram seu ritmo no momento de maternidade”.

Traduzindo, interromper a carreira é pedir demissão ao dar à luz e ficar em casa por um tempo; desacelerar significa diminuir o investimento emocional e até físico na carreira – por exemplo, apresentando impedimentos para viagens de trabalho ou querendo cumprir meio expediente. Segundo a professora, a desaceleração pode influenciar o rumo da carreira futura tanto quanto a interrupção, pois em ambos os casos é fica difícil retomar a carreira com a mesma inclinação anterior. Também as mulheres saem temporariamente do radar do sistema político das organizações, perdendo oportunidades de ascensão.

O estudo constata que o percentual de mulheres no topo com apenas um filho (44%) é maior que o de homens no topo (29%) e o percentual de homens das cúpulas das empresas que têm mais de um filho (71%) é significativamente maior do que mulheres com mais de um filho (56%). Ou seja, as mulheres executivas têm um número menor de filhos que os homens na mesma posição. Betania faz questão de enfatizar que a escolha de interromper ou desacelerar a carreira, ou a de limitar a família, se feita com consciência, é tão legítima quanto a de manter o foco na carreira.

Os momentos de maior estresse para as mulheres, segundo dados de pesquisa da professora, têm início na gravidez e duram em geral até o filho fazer 10 anos de idade, o que é facilmente compreensível. Em termos culturais, o Brasil é considerado uma sociedade mais masculina do que feminina, assim como os Estados Unidos. Em sociedades mais masculinas, as expectativas de desempenho de papel de homens e mulheres na sociedade é diferente da dos países escandinavos, por exemplo, considerados de cultura mais feminina. Em uma sociedade masculina como a brasileira, se um homem vai à reunião da escola do filho, ele próprio considera isso um sucesso e, se não vai, é normal. Já a mulher que não vai à mesma reunião sente-se culpada.

“O que acaba acontecendo ainda hoje em sociedades como a do Brasil é que trabalho e família não brigam pelo tempo do homem, mas entram em conflito para grande parte das mulheres”, resume Betania.

 Os amores. Apenas 20% das executivas no topo da carreira tem um parceiro amoroso estável, ante 80% dos homens. Esse é um dado de muito impacto; mulheres executivas enfrentam mais dificuldades para encontrar um parceiro amoroso. Elas declaram ser complicado até iniciar uma relação amorosa com alguém que não seja do ambiente de trabalho, por absoluta falta de tempo. (Lembrando que a sexualidade no trabalho é um tabu, fica bem complicado.)

É curioso que as mulheres que têm parceiros frequentemente relatam sacrifícios do tipo acordar mais cedo do que eles para fazer as coisas e conseguir mais tempo para a convivência do casal.

Os Estados Unidos, reis das estatísticas, escancaram o que no Brasil é apenas intuído: lá, quanto mais bem-sucedido o homem, maior é a probabilidade de que ele se case e tenha filhos, enquanto acontece o inverso com as mulheres, especialmente com as que têm salário superior a US$ 100 mil por ano.

Betania faz questão de observar, no entanto, que vivemos uma transição nesse tipo de situação, porque os homens também estão em crise quanto a seu novo papel na sociedade e querem mudar; eles estão é tentando descobrir como fazer isso. “É um momento de transição e de ajuste de papéis sociais.”

 Os preconceitos. Esse é o ponto mais positivo da pesquisa talvez: os resultados qualitativos, das entrevistas em profundidade feitas com as executivas, permitem à Betania afirmar que o preconceito de gênero não é mais um grande impeditivo, especialmente depois de determinado estágio na carreira em empresas de primeira linha situadas nos grandes centros urbanos.

Não significa, contudo, que ter um ambiente mais igualitário nas empresas e uma cultura que acolha e valorize e diversidade deixou de ser desafio, como lembra Betania. “Ainda é, e não apenas no que se refere a diversidade de gênero; trata-se de mudar o modelo mental.”

As dores. Pelo fato de as amélias terem acrescentado um grande número de responsabilidades em suas agendas sem tirar tantas outras, elas têm uma sobrecarga.

Não é de surpreender que a insatisfação com o tempo e o nível de estresse delas seja particularmente elevado: 57% das entrevistadas se declaram insatisfeitas com a distribuição do tempo para si e para a família, e as mulheres casadas apresentam 85% de insatisfação com isso (o que sobe para 92% entre as que têm filhos até 10 anos de idade).

Tempo para si mesma é uma extravagância das executivas que têm família: só 18% delas fazem alguma atividade para si, como ir relaxar com amigos. No caso dos homens, você adivinha quantos têm atividades extra-trabalho? Um total de 82%. Elas correm para casa para cuidar da família em qualquer tempinho que sobra; eles, não.

O jogo é duro do ponto de vista emocional para as mulheres e a palavra “culpa” é recorrente nas entrevistas com elas. Nas jornadas de trabalho de 12 horas diárias ou mais, tanto para homens como para mulheres, os homens não mostram sentir-se culpados pela ausência em casa, e as mulheres, sim. Se o fato de poderem contar com babás e empregadas domésticas alivia? Não.

As delícias. A pesquisa evidencia uma coisa muito bacana: as mulheres que atingiram o Olimpo empresarial sentem enorme prazer com a carreira. Elas encontram mais significado no trabalho e ficam satisfeitas com seu poder de realização. Suas delícias são vencer desafios, aprender, ser financeiramente independentes. “Esse prazer certamente aumenta as chances de as mulheres se sentirem mais plenas e ter mais momentos felizes”, comenta Betania.

Será que as delícias poderiam aumentar para as mulheres se os homens agissem de forma diferente? Poderiam e isso tende a acontecer um dia. Como confirma Betania, “cresce no mundo corporativo a consciência de que os profissionais de todos os gêneros devem conciliar de forma razoavelmente adequada os desafios da vida profissional e pessoal, não só as mulheres”.

E as empresas? Poderiam agir de modo diferente e beneficiá-las? “Sim, as empresas podem criar melhores condições para as mulheres conciliarem a carreira profissional e a vida pessoal, mas não vamos cair na armadilha de colocar toda a responsabilidade nas empresas”, avisa a professora. Jogar a responsabilidade nos ombros alheios é uma armadilha, segundo ela.

“As mulheres têm de parar de acreditar no conto de fadas de que podem ter tudo ao mesmo tempo o tempo inteiro. Precisamos fazer escolhas, definir o que é e não é negociável, e viver bem com as decisões”, reforça Betania.

Acho que minha avó Amélia, uma mulher sábia, conviveria melhor com essa amélia das escolhas. Estou cá pensando é se eu, meu estresse e minha culpa conseguimos. E você?