Sobre Camille, as mães demitidas e o estuprador da Paulista

Sobre Camille, as mães demitidas e o estuprador da Paulista

Ocorrências extremas machistas dos últimos dias são uma boa oportunidade de refletir sobre as declarações da ensaísta Camille Paglia em relação ao movimento feminista atual

Adriana Salles Gomes

01 Setembro 2017 | 16h41

Nas duas últimas semanas, três acontecimentos jogaram (ainda mais) os holofotes sobre a questão da equidade de gênero:

1. A declaração da feminista old school Camille Paglia ao jornal Folha de S.Paulo, de que as mulheres de perfil profissional precisam ser mais maternais com os homens, não cobrando deles em casa a eficiência do mundo dos escritórios.

2. A constatação, em pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas, de que 50% das mulheres brasileiras são demitidas no período de até dois anos após a licença-maternidade.

3. A ejaculação de um homem no pescoço de uma mulher em um ônibus que transitava na Avenida Paulista, em São Paulo.

São três fatos independentes, mas acho que é preciso explicitar a conexão entre eles.

Tudo começa por Camille, com quem confesso simpatizar, em parte pelo jeito meio estabanado de ser, em parte por seus arroubos de sinceridade politicamente incorreta.

Tive a impressão de que a repercussão do que ela disse se centrou nas três acusações principais feitas às feministas contemporâneas: que elas culpam os homens por tudo; que exigem dos homens que pensem, se comuniquem e ajam como mulheres; que visam diminuir o protagonismo masculino. Argumentando que tudo isso enfraquece o próprio movimento feminista, Camille sugeriu que as mulheres se concentrem em se responsabilizar por suas vidas.

Houve, contudo, outras partes igualmente importantes da entrevista de Camille:

• A epidemia do jihadismo. Segundo a ensaísta, “a ideologia do jihad emerge numa era de vácuo da masculinidade”, o que seria culpa do “sistema de carreiras ocidental”, mais do que das mulheres, em sua visão. Mas tem tudo a ver com as mulheres quererem que os homens se comportem como mulheres e que sejam menos protagonistas. É como se, só com o extremismo machista, os homens pudessem ser viris e ter as aventuras que os homens de antigamente tinham.

• A aceitação do machismo como reação. As mulheres não deveriam culpar os homens, pelo raciocínio de Camille, porque os comportamentos machistas são, sobretudo, uma maneira de esses homens dizerem que não estão sob o poder das mulheres. Na lógica dela, o machismo seria uma reação de medo ao verdadeiro poder que a mulher tem – muito antes de o feminismo ser uma reação ao machismo. E, para ela, as feministas erram feio ao tentar racionalizar essa reação e ao tentar consertá-la com mecanismos socioeconômicos, tais como cotas. A ensaísta é pela não intervenção do governo para proteger minorias. “As pessoas têm de assumir responsabilidade e estar preparadas para desaprovação e rejeição”, diz Camille, ainda que se referindo principalmente à comunidade LGBT.

• A obrigatória opção entre carreira e maternidade. Para Camille, o mecanismo de educação-treinamento será sacrificado de alguma maneira para as mulheres que escolherem ter filhos, porque a maternidade é uma experiência muito intensa. Mas ela observa que ao menos as instituições de ensino (as empresas, não) poderiam aliviar isso de alguma maneira – com a existência de creches nas faculdades, por exemplo.

Não concordo com tudo que ela diz, obviamente. Conheço inúmeros casos que desmentem a incompatibilidade entre carreira e maternidade, por exemplo – com muitas mulheres melhorando o desempenho depois de se tornarem mães, inclusive. Porém a entrevista da Camille tem de ser vista, em primeiro lugar, como um conjunto valioso de provocações para nos fazer pensar.  Ninguém deveria abrir mão de pensar; ninguém deveria se dispor a reproduzir opiniões automaticamente – as próprias ou as alheias.

(Aliás, em um mundo que ingressa velozmente na era da inteligência artificial, em que seres humanos e máquinas competirão por empregos, o melhor é ir se treinando para não ter pensamentos automáticos.)

Especificamente, Camille nos ajuda a pensar sobre os outros dois tópicos que relacionei: o imenso percentual de demissões pós-maternidade no Brasil e o semiestupro ou estupro no ônibus. (Perdão, não sei como chamá-lo, imagino que a vítima o tenha sentido como um estupro.)

A maternidade que leva a demissões tem interface com pelo menos duas “bolas” levantadas pela ensaísta:  é algo protegido pelo governo por meio da licença-maternidade (a demissão seria fruto de um medo irracional e proibir a demissão seria uma reação racional ineficaz contra esse medo irracional); e as demissões de mães não seriam culpa dos homens, pois as mulheres não conseguiriam mesmo conduzir carreira e maternidade ao mesmo tempo com qualidade (o que faria da demissão uma ação razoável por parte das empresas, que visam lucro acima de tudo).

O abuso do ônibus é, antes de tudo, um crime, mas tem a ver também – em certa medida – com o jihadismo, e essa vontade de recuperar o protagonismo e o espaço masculino. Usando o raciocínio de Camille, o frágil nessa história seria o homem estuprador; aquela mulher teria um poder contra o qual ele precisava se rebelar. E como lembrou uma amiga, isso explicaria também a iniciativa do juiz de liberar o estuprador se apoiando em tecnicalidades, amplamente percebida como fruto do machismo – o juiz também se sentiria fragilizado pelo poder feminino.

Então, por isso, devemos compreender e aceitar as demissões de mães e a ejaculação do sujeito sobre a moça no ônibus? Não, as respostas às duas perguntas precisam ser radicalmente negativas. Não é porque algo tem uma explicação razoável que deve ser tolerado.

Mas…. talvez a estratégia de lutar contra o machismo por trás desses atos tenha de ser questionada. Fato é que a equidade de gênero nas empresas continua a ser um sonho distante, em todas as partes do mundo, apesar de vermos coisas boas acontecendo. Fato é que a violência contra a mulher parece aumentar em vez de regredir, ocorrendo até em um lugar tão público quanto um ônibus na Avenida Paulista  (alguns dirão só que ela ficou mais visível por mérito – aí sim – do movimento feminista, ou que foi um caso isolado de um cara com problemas mentais, mas tenho dúvidas de que seja simples assim).

Esse exercício de revisão de estratégia pode ser, exatamente, a contribuição de Camille Paglia. Talvez precisemos descobrir outra estratégia para buscar a equidade de gênero. É claro que a nova estratégia não pode ser apenas nos responsabilizarmos, cada uma de nós, por nossas vidas – quando se quer mudar algo de raiz em uma sociedade, é necessário esforço tanto individual como coletivo. Mas pode haver um jeito mais eficaz de seguir nesse caminho. Talvez o prazo para nossas metas deva ser alongado, por exemplo, havendo mais tempo para negociação. Ou encurtado. Eu não tenho a resposta.

Agora, se os homens acham que as mulheres os culpam por tudo – e conheço homens razoáveis que acham isso –, e se o machismo permanece quase inabalado, algum pingo mínimo de razão, pelo menos, Camille tem.

Ideias?

ATUALIZAÇÃO: Respeito os comentários dos leitores e lhes agradeço enormemente pela discussão civilizada, mas sempre lamento que não haja uma educação estatística nas escolas brasileiras. Vocês sabem como se interpretam dados como 50% de demissões de mulheres após a licença-maternidade, por exemplo? Acham que ninguém se pergunta se incompetência ou crise justificariam um número tão elevado? O que posso dizer é que bons analistas, como são os da FGV, incluem  fatores como esses nas análises deles e os descontam nas conclusões para não haver distorção. Quanto à violência contra as mulheres, as estatísticas (mundiais, não brasileiras) mostram números muito superiores aos da violência contra homens – para situações que não envolvam guerra ou marginalidade (tráfico de drogas etc.). Não há como isso não ser fruto de uma sociedade desequilibrada.
É  óbvio que me oponho radicalmente à violência contra homens também, e me custa acreditar que os leitores imaginem outra coisa. Tenho filho, marido, irmãos, sobrinhos, e só não tenho pai porque o meu já morreu, mas tive um dia e o amava profundamente. Tenho grandes amigos homens. Mas esta coluna fala de mulheres, não de homens, e o foco precisa ser respeitado. Essa coluna também se baseia bastante em estatísticas. E essa coluna acredita que a equidade de gênero não beneficia apenas as mulheres; todos saem ganhando. Um bom final de semana a todos.