Consecitrus. Será que vai?

Estadão

20 de outubro de 2010 | 21h56

Durante o evento de hoje em São Paulo (SP), para apresentar o estudo do prof. da USP Marcos Fava Neves sobre os números da citricultura, um dos principais assuntos abordados, inclusive em um dos painéis, foi a formação do Consecitrus, um conselho que reuniria representantes da cadeia produtiva de laranja para formar, de maneira transparente e consensual, os preços da caixa da laranja e, no futuro, pagar a laranja por sólidos solúveis (ou seja, quanto ela efetivamente rendeu na indústria para fazer suco), e não por caixa de 40,8 quilos, que é o padrão adotado atualmente. Para o secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, João Sampaio, o otimismo é a palavra de ordem. “Dia 25 de outubro teremos nova reunião. Eu gostaria muito que, desta reunião, saíssemos já com o estatuto do Consecitrus aprovado por todos”, diz Sampaio, que se inspirou no texto do Consecana para fazer o texto do Consecitrus. “Se não, no máximo até novembro isso deveria ser assinado; daí para a frente, passaríamos a discutir questões técnicas, como formação de preços”, diz Sampaio. “O importante é começar.”

O presidente do Conselho da maior esmagadora mundial de laranja, a Cutrale, José Luís Cutrale, garantiu, ao Estado, que a indústria é a principal interessada em que o Consecitrus comece. “O Consecitrus é fundamental para toda a renovação por que vem passando o setor de sucos no mundo”, diz Cutrale. “É a participação de todo o mundo, um passo para modernizar a cabeça das pessoas e ir para a frente. E nós queremos ir para a frente”, conclui.

Para Carlos Viacava, que foi chamado por José Luís Cutrale a ocupar o cargo de diretor-corporativo da empresa para facilitar o diálogo entre os produtores e a esmagadora, independentemente da criação ou não do Consecitrus (que depende, na opinião de Viacava, principalmente de uma decisão política), as conversações técnicas sobre a formação do preço da caixa da laranja já começaram. “Existindo ou não o Consecitrus as discussões operacionais, como valor do suco, custo de produção, preço da caixa, etc., já começaram”, diz ele. E, caso o Consecitrus seja efetivado, para Viacava, “participa quem quer, permanece quem confia”.

E confiança é, na opinião da pesquisadora do Cepea/Esalq/USP, Margarete Boteon, um dos principais obstáculos para a criação e o funcionamento do Consecitrus. “Em entrevistas com os citricultores detectamos uma grande falta de confiança por parte deles na indústria esmagadora”, diz Margarete.

Isso é notório, na opinião de um dos principais opositores do Consecitrus nos moldes atuais, o presidente da Associtrus, Flávio Viegas. “O que a indústria quer, com esse Consecitrus, é se livrar da acusação de formação de cartel, em análise no Cade”, diz Viegas, apostando que, caso o conselho seja criado, no máximo um mês depois a indústria assinará um TCC (Termo de Cessação de Conduta) para se livrar da acusação de formação de cartel – e, consequentemente, de uma multa milionária, como indenização aos citricultores. “Em seguida, tentará esvaziar o Consecitrus, porque não há o menor interesse da indústria que ele realmente funcione”, diz Viegas.

“Fica todo mundo falando que não deve haver, por parte dos produtores, pré-condição para a aprovação do Consecitrus e dizem para esquecer o passado, como disse o sr. João Sampaio em sua exposição. Mas o que eles não falam é que a indústria impõe uma pré-condição aos produtores: a assinatura de um documento que será usado para encerrar as investigações no Cade sobre formação de cartel por parte da indústria de suco de laranja no Brasil”, diz Viegas. “Os produtores não podem impor condições; a indústria pode?”, indigna-se Viegas, garantindo que a indenização devida aos produtores de citros, de 1994 para cá, chegaria a US$ 7 bilhões.

O presidente da entidade que reúne as indústrias do setor, a CitrusBR, Christian Lohbauer, garante que, por parte da indústria, a formação do Consecitrus é mais consensual. “As quatro indústrias do setor no Brasil estão de acordo”, diz Lohbauer, acrescentando que a Associtrus, que tem uma agenda “bem agressiva”, vinculada a questões do passado, não representa a opinião dos citricultores brasileiros. “Eles não divulgam números de associados, mas o peso deles é pequeno, talvez representem 1 milhão de caixas de laranja num universo de 250 milhões de caixas”, diz Lohbauer, garantindo que o Consecitrus – que, aliás, destaca, foi uma ideia que se iniciou na própria Associtrus – existirá, independentemente de TCC ou do processo por formação de cartel. O Consecitrus vai existir”, finalizou o representante das indústrias de laranja.

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