Votação do impeachment: projeções atualizadas e considerações sobre um possível ‘estouro da boiada’

Projeções atualizadas para o resultado da votação do impeachment de Dilma indicam fortalecimento do 'Sim', mas a possibilidade do 'efeito manada' ainda deixa o resultado incerto.

O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2016 | 15h12

Por Marcelo Griebler (UFRGS) e Guilherme Stein (FEE/RS), especialmente para o Blog

O Placar do Impeachment do Estadão mostra no momento em que este post é escrito que os votos favoráveis ao impedimento da presidente Dilma Rousseff totalizam 334, enquanto os votos contrários somam 126. Com a incorporação dos novos dados, nosso modelo estima que o total de votos pró-impeachment deve ficar próximo a 364, podendo oscilar entre 355 e 372 no dia da votação. Sobre o modelo, sugerimos a leitura deste post.

As mudanças no placar destacam em grande medida o aumento na velocidade da migração dos parlamentares da base aliada para o grupo dos favoráveis ao impeachment. Como exemplo, temos os casos de Iracema Portella (PP –PI), Lázaro Botelho (PP –TO) e Ricardo Barros (PP – PR), que alteraram seus votos de contrários para favoráveis ao impeachment. Tais mudanças, muito provavelmente, são em função do recente desembarque do PP do governo. Esse movimento pode ser um indicativo de que os deputados dos partidos que não são nem do núcleo duro do governo (PT e PCdoB) e nem da oposição (DEM, PSDB, Solidariedade e PSC) e que até então estavam indecisos, passam a se coordenar para votar favoravelmente ao impeachment. Começa a acontecer, por assim dizer, um “estouro da boiada” na direção do impedimento da presidente.

Desde o começo do processo, era possível dividir os parlamentares em três grupos: ‘núcleo duro oposicionista’ (que definitivamente votarão a favor do impeachment), ‘núcleo duro governista’ (que definitivamente votarão contra o impeachment) e um grupo que não tem preferência explícita a respeito de um lado ou outro e, portanto, votam estrategicamente.

O que um deputado que está no terceiro grupo leva em conta na hora de tomar sua decisão? Uma possibilidade é que ele pode negociar cargos, emendas ou outros benefícios ou com o governo atual ou com o governo que pode vir a surgir. Outra possibilidade é que o deputado não negocia cargos, mas mesmo assim entende que é sempre bom estar do lado vencedor. Em ambos os casos, ele tem uma estratégia clara a adotar: se acha que o impeachment será aprovado, vota a favor; se acha que não será, vota contra. Afinal, uma promessa de cargos de um governo que não existe mais ou que não virá a existir tem pouco valor. Ou seja, mesmo que exista uma promessa de cargo, ainda sim só faz sentido “cumprir” o acordo se ele espera que o lado do acordo sairá vitorioso.

Um deputado nessas condições, portanto, optará por votar a favor do impeachment se acredita que ao menos 2/3 de seus colegas farão o mesmo, e votará contra caso a proporção seja menor que 2/3. Posto desta forma, a escolha parece simples. Contudo, uma característica fundamental torna a situação mais complexa: o deputado não tem certeza sobre a proporção de colegas que votarão a favor. Portanto, sua decisão é baseada, fundamentalmente, no juízo que ele faz a respeito das informações de bastidores e informações públicas que ele possui.

No momento em que escrevemos este post, existem 53 deputados cujos votos não foram declarados e, para que o impeachment seja aprovado, é necessário apenas mais 8 votos (aproximadamente 15% dos 53). Isso quer dizer que é preciso que menos do que um sexto dos parlamentares que não abriram seu voto decidam apoiar o impeachment para que ele seja aprovado (desde que, claro, nenhum favorável mude de opinião). Um deputado indeciso, portanto, que acha que a chance de seus colegas indecisos votarem a favor do impeachment é maior do que 15% tem todo o incentivo de votar favoravelmente para o impedimento da presidente. Isso acontece porque, se ele acha que a chance é maior do que 15%, então, em média, existirão mais do que 8 parlamentares indecisos dispostos a votarem para o impeachment e isso é suficiente para aprova-lo. Se o deputado indeciso tem desejo de estar do lado vencedor, então ele precisa votar a favor do impeachment, mesmo tendo “negociado seu voto”. O mesmo raciocínio vale para os demais parlamentares indecisos: se todos acham que a chance dos outros parlamentares indecisos de votarem pelo impeachment é maior do que 15%, então todos devem votar favoravelmente ao impeachment. Isso é o que se está chamando de “estouro da boiada”. Existe um certo patamar de votos que, se atingido, faz com que boa parte dos parlamentares indecisos acabem migrando para o lado que se acredita será o “vencedor”. Para ilustrar ainda mais, pense no caso em que já existam 342 votos favoráveis ao impeachment. Nessa situação, os indecisos têm zero incentivo a votarem contra o impeachment. Por isso, é possível que no dia da votação o resultado seja ainda mais expressivo ao favor do impedimento. Da mesma forma, caso haja alguma reversão na tendência e as crenças mudem para o cenário de que o governo conseguiu 172 votos, o resultado pode acabar sendo ainda mais favorável ao governo.

Nesse contexto, cabe ressaltar que os resultados das projeções que apresentamos nos últimos dias baseiam-se em modelos que não consideram completamente esse efeito manada. Atribuímos a probabilidade de voto no ‘sim’ e no ‘não’ a cada parlamentar com base em seu histórico de votações nos assuntos de interesse do governo (com os dados do Basômetro) e com base nas declarações de votos dos deputados de seus respectivos partidos e Unidades da Federação, além de avaliar também se o deputado é suplente ou titular. É claro que muitos dos que já declararam votos já formaram suas crenças sobre o resultado da votação, mas certamente há ainda alguma incerteza quanto ao resultado final.

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