A poluição do ar pode aumentar a criminalidade?

A poluição do ar pode aumentar a criminalidade?

Estudo de pesquisadores americanos mostra que áreas com maior exposição a poluentes têm aumento na incidência de crimes violentos

Eduardo Zylberstajn

05 de janeiro de 2016 | 10h00

Para além dos impasses na política brasileira e a recessão, um dos temas ‘quentes’ de 2015 foi a poluição e seus efeitos devastadores sobre o meio-ambiente e as condições de vida das populações.

A poluição em Pequim, China (Créditos: Reuters/Kim Kyung-Hoon)

As condições críticas nas cidades chinesas, o desastre brasileiro de Mariana (MG), os impasses do acordo climático de Paris – sem esquecer a experiência diária de cada um de nós nas grandes metrópoles brasileiras – mostram o caráter multifacetado e onipresente da poluição na contemporaneidade. Neste âmbito, o ano de 2016 promete: da expectativa de um El Niño fortíssimo até a vista “surreal” da disputa das provas olímpicas de remo e vela na Baía de Guanabara, o tema deve assumir novas proporções no debate nacional e internacional.

Que a poluição produz danos à saúde humana, trata-se de algo indiscutível. Novas pesquisas, entretanto, têm mostrado que a poluição – em suas diversas formas – pode representar um perigo muito maior do que aqueles já consagrados pela medicina. Desde o famoso estudo que originou a teoria das janelas quebradas, acadêmicos de diversas áreas, como psicologia ou economia, têm demonstrado como os efeitos negativos da poluição podem se estender sobre outros campos da vida humana.

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 pelo National Bureau of Economic Research (NBER), por exemplo, os pesquisadores Evan Herrnstadt (Harvard) e Erich Muehlegger (Universidade da Califórnia, Davis) empregaram uma técnica curiosa e inusitada para medir o impacto da poluição sobre a criminalidade. Combinando uma base de 2 milhões de registros de crimes ocorridos próximos à grandes rodovias na cidade de Chicago entre 2001 e 2012 com informações climáticas, os pesquisadores puderam constatar que a incidência de crimes violentos (estupros, homicídios, agressões etc.) foi maior no lado da estrada que fica contra o vento, isto é, no lado que ‘recebia’ a maior parte da poluição gerada pelas rodovias.

Mais precisamente, o estudo apontou que a incidência de crimes violentos foi 2,2% maior nos lados que recebiam o fluxo de ar do que nos lados que eram ‘protegidos’ da poluição pelo vento.

Claro que a direção do vento variou bastante ao longo do período analisado. Este, na verdade, é o fator que permitiu chegar aos resultados: a quantidade de crimes praticados foi consistentement maior exatamente nos lados que recebiam o fluxo de poluentes, já levando em consideração que esses lados mudavam a cada dia. Interessante também ressaltar que o efeito apresentado não foi observado em crimes contra a propriedade (roubos, furtos etc), casos que normalmente dependem (em certa medida) de algum planejamento – isto é, são comumente premeditados.

Um parêntesis: talvez a taxa de 2,2% não pareça elevada aos leitores. Sabe-se que o estudo foi conduzido em Chicago (EUA) e nada garante que no Brasil a magnitude do efeito é a mesma. Entretanto, em um esforço para trazer esse percentual para nosso contexto, é válido lembrar que vivemos em um país no qual a cada hora duas pessoas morrem assassinadas no conjunto das 27 capitais (o equivalente a cinquenta homicídios por dia). Em outras palavras, um aumento de 2% nesse número significa uma vida humana a menos por dia. Isso, claro, sem levar em conta os outros crimes violentos que também ocorrem com frequência assustadora no país.

Os autores do artigo supracitado se apoiaram no conhecimento de outras áreas da ciência para interpretar os resultados encontrados. Há, neste caso, uma vasta literatura que evidencia que indivíduos expostos a certos poluentes (como óxidos de nitrogênio ou monóxido de carbono, para citar dois exemplos) estão mais propensos a apresentar comportamentos violentos e antissociais. Tal fenômeno seria explicado, no caso, pelos efeitos das partículas sobre o sistema nervoso central, ou ainda pelo desconforto causado pelos altos níveis de poluição sobre a saúde psíquica e emocional das pessoas.

Independente do canal de transmissão, fato é que há ampla documentação científica para reforçar a hipótese de que poluentes afetam, em maior ou menor grau, a capacidade cognitiva dos indivíduos. Neste sentido, é possível discutir e estudar como e em que medida a poluição pode afetar negativamente o desempenho escolar, a produtividade no trabalho e até mesmo as relações pessoais.

Esse novo estudo é um dos pioneiros em demonstrar como os danos da poluição extrapolam os seus efeitos “convencionais” ou mais imediatos, mais vinculados à saúde pública da população. Com isso, os autores esperam ajudar nossos políticos a enxergarem que os custos da poluição podem ser bem maiores e mais amplos do que as já alarmantes questões do aquecimento global ou da incidência de doenças pulmonares. O interessante a notar também é o quanto seremos capazes de aprender sobre questões contemporâneas quando bons pesquisadores fazem perguntas relevantes e têm acesso a ricas (e muitas vezes inexploradas) bases de dados.

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