A recessão e seus custos

A recessão e seus custos

Além dos efeitos mais evidentes e imediatos da crise, como a perda do emprego e a dificuldade de recolocação no mercado de trabalho, as crises econômicas costumam condenar uma geração inteira a um futuro pior

Eduardo Zylberstajn

23 Dezembro 2015 | 16h58

Repercute hoje na imprensa e nas redes sociais matéria publicada pela Folha de S. Paulo com o custo da recessão de 2015 a partir de estimativa da economista Zeina Latif (nossa ‘vizinha virtual‘ aqui no Estadão). A cifra apresentada – R$ 240 bilhões – é resultado da diferença entre o que o país produziu no ano passado (2014) e o que produzirá até o final deste ano (2015), descontados os efeitos da inflação no período. Trata-se de um número enorme, mas que conta apenas parte da história. É ótimo que o debate sobre os custos de uma recessão para a sociedade tenha finalmente surgido.

Além do que deixaremos de produzir no presente, não devemos nos esquecer do que talvez seja o lado ainda mais perverso da recessão: o impacto que ela terá no futuro das pessoas. Empresas estão quebrando, mas em boa parte dos casos não porque eram ineficientes ou obsoletas e sim porque não aguentam o ‘tranco’ da falta de crédito ou do aumento do calote dos clientes. Além do impacto direto sobre as empresas, as famílias de pessoas que perderam seus empregos têm que se adaptar a uma nova realidade: filhos deixam de estudar para buscar trabalho; mães/pais que cuidavam das crianças precisam ingressar ou retornar ao mercado e, com isso, filhos pequenos em domicílios de menor renda correm o risco de ter cuidados eventualmente mais precários – fenômeno que pode afetar a primeira infância e deixar sequelas por toda a vida.

Um efeito particularmente negativo das recessões, já bastante documentado em outros países, diz respeito àqueles que sofrem para conseguir uma oportunidade de emprego em momentos de crise. Há dois casos específicos que gostaria de citar: de um lado, os que foram demitidos, perderam seus postos e demoram para conseguir se recolocar no mercado; e os jovens recém formados (no ensino superior ou mesmo no médio) que devem ingressar no mercado de trabalho durante um período recessivo

Em ambos os casos, há o efeito imediato que é a perda de renda corrente, já que as pessoas gostariam de trabalhar e não conseguem – efeito semelhante ao mencionado à matéria supracitada. Entretanto, quando pensamos em como os salários evoluem ao longo do tempo [1], percebemos que o problema é ainda mais severo.

Grosso modo, a remuneração de um(a) trabalhador(a) é proporcional à experiência que ele/ela adquiriu ao longo da carreira (além de outros fatores, obviamente). Acumular experiência profissional é uma das formas de aumentar o chamado capital humano, que por sua vez ajudará a determinar o valor do trabalho (salário) no mercado. Nesse sentido, quando a recessão impede as pessoas de conseguirem trabalho, além dos impactos mais óbvios, é necessário considerar que elas deixam de acumular experiência e passam a ganhar menos também no futuro. Há estudos [2] que demonstram que, nos EUA, pessoas que se formam no ensino superior durante uma recessão recebem salários significativamente menores por até 10 anos após a crise. Em outros países há estudos com resultados semelhantes e estamos trabalhando para tentar estimar mais precisamente esses efeitos aqui no Brasil.

Desnecessário dizer que, quanto mais tempo durar o período de crise, mais pessoas sofrerão com os seus efeitos. A economia do país precisa urgentemente reagir, sob o risco de condenarmos uma geração inteira a ter uma vida muito pior do que aquela com a qual sonhou.


[1] Há duas questões aqui. Uma diz respeito à produtividade do(a) trabalhador(a), que é função de suas características pessoais, profissionais e do ambiente no qual ele/ela está inserido(a). Outra diz respeito à uma noção de histerese, no sentido de que o que observamos hoje depende do que ocorreu ontem, que depende do que ocorreu anteontem e assim por diante.

[2] Ver esse artigo:

Documento

.