Diferenças no funcionamento das ligas esportivas no Brasil e nos EUA

Em economia o estudo das instituições e dos regulamentos é de fundamental importância para entendermos o funcionamento de um país. No esporte isso não é diferente! Diferentes regras podem fazer com que o futebol seja mais equilibrado e que a TV aberta transmita jogos de todos os times.

Raone Costa

02 Dezembro 2015 | 15h28

Há alguns anos, entre o começo de setembro e o início de fevereiro, minha vida pessoal muda radicalmente em relação aos outros meses.  Nesse período acontece a temporada anual da NFL (National Football League – a liga de futebol americano) nos EUA, e minha atenção esportiva, antes dedicada exclusivamente às competições de futebol tupiniquim, se desdobra também para o que está acontecendo na terra do tio Sam. Cada jogo da NFL dura cerca de 3 horas, contém múltiplos intervalos e (até por isso) é ideal para se assistir com os amigos. Desnecessário dizer que nessa época do ano o calendário pessoal se torna mais apertado.

Desde que comecei essa recente tradição fiquei fascinado com a estrutura de organização da liga. O aspecto mais marcante é que, ao contrário do que acontece com o futebol brasileiro, a televisão nacional americana não transmite jogos de cada time “grande” em base regional. Quem decide quais times irão para a TV aberta e quais terão seus jogos expostos apenas em formato pay-per-view é a própria NFL. Com isso, muitas vezes os torcedores de um determinado time acabam não vendo seu time jogar na TV aberta por algumas semanas, sendo “obrigados” a assistir jogos de equipes que normalmente não os interessariam (ou comprarem o pay-per-view). Depois de ter vivido por algumas décadas assistindo a jogos de futebol apenas dos times paulistas na televisão, essa estratégia me pareceu um absurdo à primeira vista. Com o tempo, comecei a ver alguns méritos nisso.

Nos EUA, temos 3 jogos semanais que são transmitidos pela TV aberta: os jogos de quinta feira à noite, os de domingo à noite e os de segunda à noite (respectivamente chamados de modo nada criativo de Thursday Night Football, Sunday Night Football e Monday Night Football). Todos os outros jogos da rodada são transmitidos aos domingos à tarde, e normalmente só são televisionados por emissoras locais ou por sistema pay-per-view. Esses jogos semanais noturnos são considerados os “jogos nobres da rodada” e a NFL tenta distribuí-los de forma razoavelmente justa entre todos os times da liga[1], dando preferência a rivalidades divisionais (que seriam mais ou menos o equivalente dos “clássicos regionais” do futebol brasileiro) na formulação do calendário. Ponto importante, esse calendário é fixo até mais ou menos a metade da temporada. Na metade final da temporada os jogos de domingo à noite podem sofrer alterações por conta de critérios técnicos, dando preferências a jogos relevantes para o campeonato.

Outra mudança interessante das ligas americanas (e em particular da NFL) para o futebol brasileiro é que, ao contrário do que acontece por aqui, não temos a presença de uma segunda divisão nas ligas. Pelo contrário, de maneira geral os times piores classificados no ano anterior tendem a melhorar sua competitividade para o próximo ano através do processo do draft. Nas ligas americanas, os drafts são os processos pelos quais os jogadores universitários ascendem à carreira profissional: tipicamente as equipes que se classificaram nas últimas colocações no ano anterior têm direito de escolher primeiro os atletas universitários que desejam para os seus times, de tal forma que os melhores “talentos” do próximo ano costumam ir para equipes mais fracas. Normalmente o atleta que é selecionado dessa forma não pode se negar a jogar pelo time que o selecionou, sob pena de não jogar na liga profissional até o próximo draft. Esse sistema só funciona porque as equipes profissionais americanas funcionam como um cartel, adquirindo atletas das ligas universitárias de forma monopsonista[2]. Mais informações sobre as regras do draft da NFL e suas complexas regras podem ser encontradas aqui.

Além do draft, outra ferramenta das ligas americanas que promove o equilíbrio esportivo entre os seus participantes é o limite salarial. Quase toda liga americana possui um limite para gastos com folha salarial de seus participantes e a NFL não é exceção. Esse limite impede que uma determinada equipe monte uma “seleção” de jogadores consagrados como comumente vemos o Real Madrid fazer na Espanha, pois o salário de todos esses medalhões somados certamente ultrapassará o limite salarial da liga[3]. Com isso, a folha salarial de todos os times das ligas americanas acaba sendo bem equilibrada entre os times, especialmente quando comparamos com o futebol brasileiro[4].

Somando draft e limite salarial, a NFL (e as ligas americanas de uma maneira geral) na prática sofre com uma divisão entre “times grandes” e “times pequenos”, ao menos no longo prazo. É possível e factível que qualquer time da NFL possa ser campeão em um determinado ano. De fato, desde 1994 (ano em que o limite salarial foi introduzido), temos 13 campeões diferentes na NFL, sendo que apenas 2 desses times sagraram-se bicampeões. A critério de comparação, no campeonato brasileiro – tido como o mais equilibrado torneio de futebol nacional do mundo – tivemos apenas 9 campeões distintos no mesmo período com 3 bicampeonatos diferentes[5].

Dessa forma, quase todos os jogos da NFL acabam tendo alguma atratividade para o espectador mediano, independente do time para quem ele torce. Isso é especialmente verdade no começo do campeonato, quando todas as equipes possuem alguma chance razoável de se sagrarem campeões. Creio que por isso, o sistema de transmissões da liga acaba sendo um sucesso, mesmo sendo totalmente diferente do que fazemos por aqui. Na prática, com esse sistema, eu percebo que regularmente assisto a jogos que não envolvem diretamente o time em que torço, e dessa forma, acabo me envolvendo de alguma maneira com todos os 32 times da NFL, conhecendo seus principais astros, sabendo pontos fortes e fracos de cada time, etc. Definitivamente nada parecido acontece comigo no brasileirão[6]. Em outras palavras, creio que as regras da NFL – em especial as “instituições” do draft e do limite salarial – junto com o método de transmissão da TV americana aumentou meu interesse pelo esporte quando comparado com as regras e a forma de transmissão do futebol brasileiro. Se isso é de fato verdade, a pergunta que fica é: será que isso também acontece com outras pessoas? E mais importante; porque a NFL e o campeonato brasileiro se organizaram de forma tão diferente?

A primeira pergunta é bem difícil de responder conclusivamente, visto que temos poucos dados científicos sobre a importância que cada país dá ao esporte. Mesmo dados simples como “gastos com esporte em proporção do PIB” para diversos países são difíceis de serem encontrados, em especial de uma maneira comparável. Temos algumas evidências de que esse conjunto de regras dos esportes americanos promove uma maior desconcentração de torcedores, com vários times atraindo fãs regionais e nenhuma equipe conseguindo ser de fato um time “nacional”, mas não é certo se isso de fato melhora a atratividade do esporte como um todo.

Já a segunda pergunta parece mais fácil de ser respondida. Em economia é comum explicarmos o desenvolvimento de uma nação com base no funcionamento das suas instituições e regulações. Infelizmente (para mim pelo menos) o conjunto de instituições esportivas brasileiras não permite que tenhamos um modelo de liga de futebol brasileiro à lá NFL. Não temos aqui uma liga universitária forte para termos um draft[7], condições de competição internacional para impormos um limite salarial[8], ou atratividade em todos os times para que a nossa TV nacional possa transmitir de forma rentável jogos entre quaisquer dois times da série A. Com isso, naturalmente a organização do futebol brasileiro acontece de forma diferente da dos esportes americanos.

 

* Gostaria de agradecer ao amigo Bruno Oliva pela inspiração e pelas discussões para a confecção desse texto

 


 

[1] Os times com melhor desempenho em anos recentes tipicamente jogam mais vezes no horário nobre, mas todos os times da liga jogam ao menos uma vez nesse horário

[2] Em economia, dizemos que uma empresa é monopsonista quando é a única compradora dos insumos de um produto. Essa definição é similar ao conceito mais conhecido de monopólio – uma empresa que é a única vendedora de um produto. Assim como acontece com o monopólio, o monopsônio reduz bem estar social quando comparado ao caso em que os insumos são comprados de forma competitiva. Para mais informações sobre monopsônio veja o seguinte link

[3] Para uma discussão econômica aprofundada dos efeitos do “salary cap” nas ligas esportivas veja esse link

[4] Nesse link podemos encontrar as informações sobre folha salarial de todos os times da NFL. Notem que o time com a maior folha salarial de 2015 (New York Jets) gasta “apenas” 20,1% a mais com salários do que o time com a menor folha salarial desse ano (New York Giants). No Brasil é difícil encontrar esse tipo de estatística, mas números antigos como o desse link e notícias anedóticas apontam para diferenças de mais de 800% nessa mesma conta

[5] Outra evidência anedótica interessante de equilíbrio da NFL podem ser encontradas nos gráficos do tipo “any given Sunday”. Esses gráficos em formato de pizza colocam todos os 32 times da liga em um círculo, onde um time qualquer do gráfico necessariamente derrotou o time localizado ao seu lado no sentido horário e foi derrotado pelo time localizado do seu lado no sentido anti-horário em um determinado ano. Em quase todos os anos podemos construir um gráfico assim na NFL, o que é de certa forma surpreendente dado que a temporada regular de futebol americano contém apenas 16 jogos por time. Vejam os exemplos de 2012, 2013 e 2014 nos links

[6] A única “ferramenta” que fez com que eu me importasse em conhecer as forças das diferentes equipes de futebol brasileiro é o ótimo jogo do cartola. Ponto importante, jogos similares também existem para a NFL, e possuem popularidade até maior que a do cartola. Na prática no brasileirão eu só assisto aos jogos da equipe para quem torço ou, quando muito, à jogos que impactem diretamente o meu time

[7] Quase toda equipe de futebol brasileira tem sua própria equipe de base, que fornece jogadores preferencialmente para o próprio time e não para um coletivo de equipes profissionais em quase-igualdade de condições de competição. Além disso, jogadores com destaque frequentemente “sobem” para o profissional prematuramente, de tal forma que os jogadores que “sobram” nas categorias de base tipicamente não são estrelas que atraiam a atenção do público, como ocorre com o draft

[8] Para que o limite salarial funcione a liga nacional deve ser o centro das atenções dos jogadores daquele esporte, pois, caso contrário, as grandes estrelas sempre podem buscar trabalhar em outras ligas onde o limite salarial não existe. Essa condição é claramente atendida nos principais esportes americanos. No futebol, que é tipicamente um esporte internacionalizado, essa condição é mais difícil de ser atendida. Mesmo na liga de “soccer” americana, que tem um limite salarial em vigor, cada equipe pode contratar um jogador fora do limite salarial, chamado de “designated player”. Essa regra, também chamada de “Beckham Rule” foi criada para permitir que a liga americana pudesse contratar jogadores famosos internacionalmente (e foi usada pela primeira vez na contratação do David Beckham”)

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