O “Costanza Principle” ou quando é melhor fazer o oposto

O “Costanza Principle” ou quando é melhor fazer o oposto

A racionalidade por trás das diversas escolhas que fazemos a todo momento, mesmo quando tudo parece dar errado

Gabriel Dib

10 de novembro de 2015 | 14h59

O personagem George Costanza, interpretado por Jason Alexander (Foto: Divulgação)

A série Seinfeld pode ser apontada como um dos sitcoms mais cultuados do mundo. Criada por Larry David e Jerry Seinfeld, a “melhor série sobre o nada” foi lançada em 1989 pela NBC e teve, ao todo, nove temporadas e 180 episódios, o último dos quais televisionado em maio de 1998. Para muitos, suas contribuiçõs, ensinamentos e filosofias práticas da vida deveriam ser elevadas à categoria de patrimônio imaterial da humanidade.

Um exemplo disso é o chamado Costanza Principle . Em um dos episódios mais famosos da série , intitulado “The Opposite” (“O Oposto”) [1], o personagem George Costanza (interpretado por Jason Alexander) está em um café com Jerry (Seinfeld) e Elaine (Julia Louis-Dreyfus), e reclama que tudo em sua vida sempre deu errado (isso não deveria ser estranho aos fãs da série, já que Costanza é também conhecido como o “o pior ser humano que já viveu”, além de poder ser apontado como um dos personagens mais mentirosos da história da televisão [2]).

Jerry, em certo ponto do diálogo, intervém, ao enunciar as bases do Costanza Principle: “se todo instinto que você tem está errado, o oposto disso deve estar certo[3]. Com base na constatação, Costanza toma uma decisão radical: inverter todas as suas decisões típicas, nas mais diversas situações diárias. O episódio, a partir daí, narra uma sequência de eventos nos quais Costanza é bem-sucedido, fazendo exatamente o oposto do que faria normalmente: consegue sair com uma bela moça (mesmo se apresentando como “careca desempregado que ainda mora com os pais”); consegue um emprego no New York Yankees (mesmo avacalhando a gestão do clube); muda-se da casa dos pais para morar sozinho (dizendo que os ama), etc.

De fato, os resultados dependem do comportamento e das decisões baseados em estruturas individuais de preferências, sendo regidas também por outras restrições (como o limite orçamentário, restrições governamentais, etc.). Um indivíduo racional e maximizador, dadas certas condições ideais (ter à disposição todas as informações necessárias, por exemplo), seria plenamente capaz de efetuar um cálculo que o leva ao melhor resultado (o “ótimo”). O personagem de Costanza, então, poderia ser considerado irracional ao insistir em escolhas que sempre lhe trazem resultados ruins? Ou somos nós todos, na verdade, um pouco como ele: teimosos, viesados e péssimos em acessar a qualidade e as consequências das centenas de escolhas que fazemos todos os dias?

Tanto o seriado quanto a vida cotidiana, em toda sua comum banalidade, trabalham com um conceito de racionalidade muito diferente do que se assume nos livros-texto de economia. Isso porque vivemos mergulhados em uma rede de eventos simultâneos e fortuitos, cujas trajetórias, possíveis opções, interações e resultados são, em boa parte, desconhecidos pelos agentes. Neste contexto de incerteza irredutível, a possibilidade dos indivíduos em calcular o resultado e as probabilidades de sucesso em todas as escolhas disponíveis cai por terra. Para piorar, a maioria das nossas escolhas é irreversível, ou seja, não tem replay.

Para dar conta disso, enfoques alternativos da ciência econômica (baeados, por exemplo, nos trabalhos de Herbert Simon), passaram a incorporar aspectos da sociologia e da psicologia comportamental, introduzindo novos elementos para aproximar o processo de decisão dos indivíduos, com destaque para as restrições do ponto de vista cognitivo, computacional e informacional. Quebrando em miúdos: nós não dispomos das informações necessárias, nem da capacidade cognitiva de analisá-las no curto espaço de tempo disponível, para efetuar sempre as escolhas “ótimas”. Se nossa racionalidade tem limites, não é por acaso que erramos, com alguma frequência, mesmo quando insistimos em decisões que no passado foram bem sucedidas!

Segundo esta abordagem empírica, ao lidar com a escolha e a solução de problemas, os indivíduos adotam métodos próprios, baseados em rotinas e heurísticas – caso das regras de bolso (rule of thumb) e dos atalhos (shortcuts) – que simplificam e aceleram o cálculo dos resultados das nossas escolhas, colaborando para a solução de problemas em menor espaço de tempo. Sem a opção do replay, é necessário apelar para um processo cheio de percalços, marcado pela tentativa-e-erro e pelo aprendizado. Além disso, uma boa parte das nossas decisões cotidianas está ancorada na intuição, isto é, em processo inconsciente de decisão baseado na “leitura rápida” da realidade e na experiência acumulada de vida. Como não é possível mais atingir o “ótimo”, temos que nos conformar com algo muito mais modesto, isto é, com o que é satisfatório (a chamada condição de satisficing) e com o que está ao alcance de nossa zona de conforto

A título de exemplo, uma das formas consagradas de tomar decisões complexas, sobre as quais não detemos informações ou confiança suficiente, é: copiar e imitar o comportamento dos outros. Como acontece com frequência com outros animais, replicar ou seguir o que os demais fazem é uma estratégia muito comum para economizar tempo e recursos, principalmente quando não temos as informações ou a confiança suficiente para formar nossa própria decisão. Isso ocorre, em parte, porque algumas escolhas e comportamentos se tornam tão populares – e coordenados – entre os agentes na economia (caso, por exemplo, do chamado “efeito manada” ou “herd behavior“). Mesmo quando optamos por seguir as decisões que fizemos no passado, o efeito manada pode estar presente (no caso, o”self-herding“).

Por que, então, desafiar esta norma e não “seguir a manada”? Porque, frequentemente,  a “manada vai para o brejo” (vide o processo de formação das bolhas especulativas). No mercado financeiro, é conhecida a figura do “contrarian investor: aquele que compra e vende no caminho inverso ao comportamento (ou sentimento) prevalecente no mercado. A estratégia foi muito popularizada por Warren Buffett, que, por sua vez, creditou-lhe a Benjamin Grahan (autor de “The Intelligent Investor“, publicado originalmente em 1949, em que apresenta o conceito de value investing). Em seu livro, Grahan destaca que o sistema de alocação de preços opera com uma boa dose de “irracionalidade”, fenômeno que explicaria, por exemplo, a grande volatilidade nos preços das ações. Ao mesmo tempo, o autor comenta que essa lambança coordenada abre espaços e oportunidades para que alguns agentes lucrem com relativa segurança.

Na verdade, não diria que o sistema de preços é irracional – são os indivíduos por trás do sistema que, como eu e você, são limitados, viesados, acomodados, etc. Nestes casos, portanto, “fazer o oposto” – por mais contra-intuitivo que possa parecer – pode se revelar uma decisão mais racional que “seguir a manada”. Como as circunstâncias raramente se repetem, nas mesmas formas e condições, é necessário aprender e reavaliar, com frequência, as bases racionais das nossas decisões, bem como os riscos e resultados associados a elas.

Uma curiosidade: após o último episódio da série, televisionado em 14 de maio de 1998, Seinfeld declinou uma “proposta irrecusável” de US$ 100 milhões para produzir uma nova temporada do popular sitcom. Em entrevista a Howard Sten, em 2013, o comediante comentaria, anos depois: “(…) o público queria mais. Mas, Howard, o público não é o show business! Então você precisa fazer o OPOSTO do que público quer. O público não está no show business por alguma razão.”

* O autor agradece as contribuições holísticas de Raone Costa, especialista em Seinfeld, na elaboração deste post.


Notas:

[1] O “Oposto” é o 86º episódio da série (5ª temporada) e foi ao ar, pela primeira vez, em 19 de maio de 1994.

[2] Diversos episódios mostram Costanza fingindo ser quem não é. Para citar alguns, no 78º. Episódio (“The Marine Biologist”), Costanza finge ser um biólogo marinho; enquanto no episódio 96 (“The Race”) ele se diz responsável pela nova adição ao Museu Guggenheim (Costanza sempre quis ser arquiteto).

[3] “If every instinct you have is wrong, then the opposite would have to be right.”

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