Por que a “renda fixa” varia?

Por que a “renda fixa” varia?

O melhor investimento depende, sobretudo, do que se espera que aconteça no futuro

Raone Costa

23 de outubro de 2015 | 11h09

Quase todo economista já teve que responder a uma pergunta do tipo: “onde devo investir meu dinheiro?”. Na prática, essa parece ser a grande contribuição que esse profissional pode dar às pessoas mais próximas. Para piorar, normalmente a resposta não é grande coisa – se esse economista realmente soubesse onde investir dinheiro de forma extremamente rentável, provavelmente já estaria rico. Por isso creio que é bem melhor ter amigos médicos, dentistas, advogados ou arquitetos do que economistas. Mas enfim, se é isso que a sociedade nos cobra, tentarei dar a minha contribuição sobre o tema.

Como todo economista que se preze, entretanto, não darei uma resposta direta para essa questão: enrolarei e desviarei do tema na medida do possível, falando de algo correlato o suficiente para terminar esse post de forma a sentir que minha missão foi cumprida, mas sem deixar nossos leitores ricos a ponto de não se importar mais com nada do que possamos escrever aqui.

Prazo e rentabilidade variam conforme tipo de investimento (Foto: Sanja Gjenero/Free Images)

Prazo e rentabilidade variam conforme tipo de investimento (Foto: Sanja Gjenero/Free Images)

Minha ideia é explicar brevemente quais são as principais alternativas de investimento, focando especialmente no funcionamento do mercado de “renda fixa”, para que com esse conhecimento o leitor possa tomar sua própria decisão de onde investir. Brincadeiras à parte, acredito que essa seja a melhor forma de se tratar esse tema. Se todos soubessem quais cenários tornam determinado investimento mais ou menos rentável, provavelmente viveríamos em um país melhor.

Comecemos pelo básico, então: o que é um investimento do tipo “renda fixa”? Esse é o nome dado para um tipo de investimento que oferece uma rentabilidade ao menos em parte pré-determinada[1], por um prazo de tempo fixo. Um exemplo de investimento com essas caracteríticas são os títulos oferecidos no site do tesouro direto.  Quando um investidor adquire um título do site do tesouro direto, ele recebe uma promessa de pagamento do governo federal que lhe garante uma rentabilidade determinada no início da operação por todo o horizonte de investimento.

Vale ressaltar um detalhe importante: essa operação tem um prazo bem definido. Até esse prazo, o governo paga ao investidor a taxa de juros que foi acordada. No término do investimento, o governo efetivamente paga o que lhe foi emprestado (chamado de “principal”). Nesse link, podemos encontrar exemplos de títulos com taxas de juros e prazos reais.

Se isso é o que define uma “renda fixa”, a pergunta que fica é: o que não é uma renda fixa? O exemplo clássico é uma ação de uma empresa, transacionada na bolsa de valores (BM&FBovespa). A compra de uma ação não tem prazo determinado; em tese a empresa cuja ação está sendo negociada durará para sempre. A rentabilidade da ação também não é pré-determinada: depende da rentabilidade da empresa. Nesse investimento, portanto, tudo varia; prazo e juros. Dessa maneira, é natural que investimentos em renda variável sejam encarados como aplicações “de risco”.

O que não fica claro por essas definições é que a “renda fixa” também tem seu grau de risco, que pode ser até maior do que o da renda variável. Isso ocorre, quando o investidor decide vender um titulo de renda “fixa”  que comprou antes do prazo final desse papel. Um exemplo ajuda a deixar esse ponto claro. Imagine que você emprestou R$ 100 ao governo, que lhe promete pagar R$ 110 ao final de um ano (ou seja, nesse caso, você acordou com o governo uma taxa de juros de 10% a.a. e um prazo de investimento de 1 ano). Imaginemos agora que você se arrependa logo em seguida, e decida repassar (revender) esse título para outro investidor. Esse outro investidor pode decidir comprar o seu título ou comprar um equivalente no site do tesouro direto. Suponha que, nesse pequeno intervalo de tempo entre a compra do seu título e o seu arrependimento as rentabilidades tenham mudado: agora o governo federal promete pagar apenas 9% de juros para esse empréstimo de 1 ano (ou seja, quem investir R$ 100 nesse título ganhará apenas R$ 109 ao fim de um ano). Nesse caso, o seu título tornou-se mais atrativo do que aquele que está sendo oferecido no site do tesouro direto, de tal sorte que você pode cobrar mais do que os R$ 100 originais que lhe custaram para vender esse título. Em outras palavras, a queda nas taxas de juros fez com que seu titulo ficasse, subitamente, mais atrativo que os títulos do tesouro direto. Obviamente, se os juros do tesouro direto tivessem subido, o efeito seria inverso, e você teria perdido dinheiro nesse investimento ao tentar revendê-lo antes do prazo.

Essa diferença de rentabilidade será tão maior quanto maior for o prazo do nosso título. No exemplo de prazo um ano, o investidor que comprasse nosso título receberia R$ 110 ao fim do investimento enquanto o que comprasse diretamente do site do tesouro direto receberia R$ 109. Pensem agora na diferença que teríamos caso o prazo do título fosse de 30 anos. Nesse caso, quem comprasse o nosso título receberia uma taxa de 10% a.a. ao invés de 9% a.a. por 30 anos, e a diferença de rentabilidade entre essas duas alternativas seria de 31,5%![2]

Com esse exemplo simples, podemos pegar algumas características importantes do investimento em renda fixa:

  1. Esse investimento só tem uma rentabilidade realmente pré-fixada se ficarmos com ele até o fim do prazo do investimento;
  2. Se vendermos nosso investimento antes do fim do seu prazo nossa rentabilidade irá variar conforme a mudança dos juros, onde uma queda de juros é boa para a nossa rentabilidade e vice-versa;
  3. A diferença de rentabilidade é tão maior quanto maior for o prazo restante do investimento.

A depender do prazo, pequenas variações de juros podem implicar grandes variações de rentabilidade, caso optemos por vender nosso investimento antes do prazo final. A analogia com uma ação é interessante aqui: como uma ação tem prazo de duração em tese “infinito”, sempre que vendermos uma ação estamos terminando nosso investimento “antes do prazo final”. Esse prazo “infinito” faz com que pequenas mudanças de rentabilidade de longo prazo[3] da empresa gerem grandes efeitos no preço da ação[4].

Dessa maneira, qual é o melhor investimento a se fazer? A resposta é: depende do que esperamos que aconteça com a economia no futuro. Investimentos em renda fixa são ótimos quando pensamos que os juros serão menores no futuro do que no presente, visto que esse juro em queda deve melhorar nossa rentabilidade. Mesmo em um ambiente de juros em alta, no entanto, se optarmos por manter um investimento em renda fixa até o fim do contrato, sabemos exatamente quanto iremos ganhar (dependendo, claro, da característica do título), o que pode tornar esse tipo de aplicação interessante mesmo nesse cenário.

Já a rentabilidade dos investimentos em ações depende, sobretudo, da lucratividade da empresa na qual estamos investindo. Na maior parte dos casos, essa lucratividade é relacionada com o bom andamento da economia como um todo, de tal maneira que podemos dizer que o crescimento do PIB é uma variável relevante para o desempenho de boa parte das ações.

Por fim, não nos esqueçamos das aplicações em títulos pós-fixados, que têm na caderneta de poupança e nos fundos DI os grandes exemplos. Esses títulos, em tese, possuem rentabilidade flutuante[5], mas normalmente com variações bem pequenas. Não por acaso, são conhecidos como “investimentos seguros”. Apesar do rótulo, convém lembrar que essa segurança geralmente tem um preço (nunca ter uma rentabilidade muito alta) e pode ser falsa (caso a inflação suba e a rentabilidade desses investimentos não acompanhar este movimento, o investidor pode perder dinheiro em termos reais).

Na prática, todas as alternativas de investimento têm seus bons e maus momentos. Infelizmente, como não existe almoço grátis por aqui, o ato de fazer um bom investimento requer raciocínio e uma boa capacidade em antecipar o futuro. É por isso que ter amigos economistas não é um grande negócio. Invista nos médicos, eles provavelmente lhe serão mais úteis.


Notas:

[1] Em alguns casos a rentabilidade é determinada como uma taxa pré-fixada mais a variação da inflação, que claramente não é conhecida no momento do investimento. Esse é o caso da NTN-B vendida no site do tesouro direto, que costuma ser uma boa alternativa para a poupança de longo prazo. Nesse caso, a rentabilidade que pré-fixamos é uma rentabilidade “real”, visto que não importa qual é a inflação do período esse titulo cobrirá essa inflação e ainda lhe dará um crescimento adicional pré-fixado.

[2] No exemplo de 1 ano, a diferença de rentabilidade é de 0,92%

[3] Uma mudança de rentabilidade pode ser entendida como algo que só afetou um determinado período da empresa ou algo que deve mudar a rentabilidade da mesma para sempre. No primeiro caso o efeito sob o preço da ação é muito menor do que no segundo obviamente

[4] Com essa abordagem podemos pensar em uma ação como um investimento de renda fixa de prazo infinito que retorna ao seu investidor uma taxa pré-fixada de 0% a.a. acrescida da lucratividade da empresa.

[5] A rentabilidade dos fundos DI variam conforme o nível da taxa Selic, enquanto a rentabilidade da poupança depende da TR