“Posso ganhar mais que meu marido?”

“Posso ganhar mais que meu marido?”

A sociedade ainda resiste aos casais com mulheres ganhando mais do que os homens - e isso é ruim para nossa economia.

O Estado de S. Paulo

08 de março de 2016 | 19h38

Alison Oliveira e Eduardo Zylberstajn

É comum ver e ler no Dia Internacional da Mulher muitas matérias em jornais e na TV sobre a diferença entre os salários de homens e mulheres. De fato, os números mais recentes do IBGE (de 2014) indicam que no Brasil os homens ganhavam em média R$ 1.929, enquanto as mulheres ganhavam em média R$ 1.433 – ou 26% a menos.

Uma reportagem de hoje da revista The Economist traz um ranking de países classificados segundo a qualidade do ambiente de trabalho para as mulheres e nela discute alguns fatores que melhoram esse ambiente. Por exemplo, em países onde os homens podem tirar licença-paternidade, as mães voltam mais rapidamente ao mercado de trabalho, o nível de emprego das mulheres é mais alto e a diferença salarial entre homens e mulheres é menor. A lógica é simples: quando nasce um filho, o casal tem um novo foco em sua vida e há, muito provavelmente, uma menor dedicação ao trabalho; por que só a mulher é que deve se afastar do trabalho?

A inserção da mulher no mercado de trabalho é uma questão que desperta polêmica. Em

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  • estudo recente, pesquisadores da FEE (Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul) mostram que dois terços dessa diferença pode ser explicada pelos chamados fatores observáveis, tais como a ocupação, o setor de atividade, a estrutura familiar ou outras características. Ou seja, sabemos que as mulheres, em média, ganham menos, mas que boa parte dessa diferença não é devida à uma discriminação ‘direta’ (mais sobre isso nesse artigo   PDF
do Prof. José Pastore).

O estudo utiliza uma metodologia consagrada entre os economistas e é tecnicamente muito bom. Apesar disso, muitas críticas foram feitas ao estudo, porque de fato muitas mulheres (e muitos homens) têm a percepção de haver, sim, discriminação contra elas.

Um

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 recente feito nos EUA nos inspirou a abordar a questão com outro foco. Uma pergunta que ainda não tem resposta diz respeito exatamente às escolhas que as mulheres fazem em suas carreiras ou na sua formação. Se boa parte da diferença salarial pode ser explicada por essas escolhas, porque elas são feitas?

Uma possível explicação pode estar na dinâmica dos casais. Como as mulheres têm salários, em média, menores do que os dos homens, é razoável que a proporção da renda dos casais heterossexuais obtida pela mulher seja menor do que 0,5. Mas como será que é a distribuição dessa participação? O gráfico abaixo nos mostra:

O gráfico mostra a distribuição na população brasileira da participação de renda da mulher na renda total dos casais heterossexuais. Fonte: PNAD (IBGE); Elaboração própria.

O gráfico mostra a distribuição na população brasileira da participação de renda da mulher na renda total dos casais heterossexuais. Fonte: PNAD/2014 (IBGE); Elaboração própria.

Quando trabalhamos com uma base de dados grande (nesse caso, usamos a PNAD, do IBGE), é usual termos gráficos de distribuição ‘contínuos’. Por exemplo, se plotarmos a distribuição da altura ou do peso da população, obtemos aqueles famosos gráficos em formato de ‘sino’ que muitos aprendem nas aulas de estatística. Seria natural que a distribuição da renda relativa da mulher fosse também ‘bem-comportada’, ou seja, que não houvesse grande descontinuidade nesse gráfico. Mas não é isso que observamos no Brasil (e nem nos EUA).

A grande descontinuidade que observamos no gráfico acima é um indício de que há em nossa sociedade uma aversão às relações nas quais as mulheres contribuem mais para a renda familiar do que os homens. Mais ainda, essa aversão existe há anos (os gráficos têm os mesmos padrões com dados desde pelo menos 1998).

Ou seja, parece que de fato vivemos numa sociedade em que ainda vigora uma espécie de ‘norma’ que diz que ‘as mulheres não devem ganhar mais do que seus maridos’. Se isso for verdade, essa é uma grande fonte de ineficiência e com grandes implicações econômicas. Afinal, se a mulher abre (ou se vê forçada a abrir) mão de uma carreira na qual poderia produzir (e ganhar) mais por conta de uma norma social, sua família e a sociedade toda perdem riqueza.

Ideias como a de uma licença-paternidade igual à das mães, entre outras, poderiam fazer com que a inserção das mulheres no mercado de trabalho fosse mais firme. Um debate sério, desapaixonado e embasado em evidências empíricas e experiências internacionais bem-sucedidas deveria ser o ponto de partida para avançarmos nessa questão. Aliás, essa deveria ser a regra para qualquer discussão de políticas públicas.