A culpa não é do cachorro

Tem hora que é difícil distinguir animais irracionais dos racionais. Mas a canalhice se detecta mais facilmente... e não é no irracional!

Antonio

16 de abril de 2019 | 10h27

Eu fazia minha caminhada com a Clotilde. Não pensava em nada mais sério do que ter ou não ter goiaba em algum pé mais atrasado. O céu azul prometia um calor que, naquela hora da manhã, ainda não tinha chegado.

Não tinha chegado, mas ia chegar, como dois e dois são quatro. E depois dele provavelmente viria a tempestade de final de tarde, com mais ou menos capacidade para inundar e causar danos em algum canto da cidade.

O ritmo ainda era o da ressaca de carnaval. Quarta feira de cinzas tem potencial para puxar moleza e deixar você com preguiça por um bom tempo, mesmo sem ter pulado carnaval, mesmo sem ter entrado na dança de um bloquinho de bairro, longe da multidão dos megablocos que tomam conta de várias partes da cidade.

Era de manhã cedo. Eu ainda estava mole e a Clotilde tentava engatar seu trote mais acelerado, o que exige força para fazê-la diminuir a velocidade e andar no meu ritmo.

Em volta, a vida corria mansa. Nada, nenhum barulho deu um mero indício do ataque que aconteceu de repente, sem aviso, sem preparação. Nem a Clotilde, normalmente ligada, percebeu que seria atacada em seguida.

De repente ouvi a Clotilde gemer e senti o puxão na coleira, quando ela tentou se virar para se defender.

O cão veio disparado. E, sem latir ou outro aviso, atacou a Clotilde por trás, tentando mordê-la. Dei um grito e, com a coragem dos canalhas, o cachorro virou nas patas e saiu disparado em direção de uma moça que corria próximo e fingiu que não era com ela.

Simplesmente continuou correndo, sem ao menos pedir desculpa. Vendo a cena, concluí que o cachorro não tinha culpa. O canalha não era ele, era sua dona. Ele apenas fez o que viu e aprendeu em casa.