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A longevidade é boa, mas é um problema

a longevidade é boa para quem vive mais, mas um problema para o governo e as seguradoras

Antonio

23 Julho 2016 | 09h27

A longevidade é uma conquista importante do ser humano moderno. Em 70 anos a expectativa de vida saltou de 50 para 80 anos ( 70 e poucos no Brasil). Muito bom pra quem vive mais, com boa qualidade de vida. Mas um problema sério para previdência social, saúde pública, seguradoras, operadoras de planos de saúde e previdência privada. Abaixo segue meu artigo sobre o tema publicado ontem no site do sindicato das seguradoras de São Paulo.
LONGEVIDADE

Já existem estudos que afirmam que o ser humano vai ultrapassar os 120 anos de idade. O homem, que pouco antes da Segunda Guerra Mundial vivia em média perto de 50 anos, no curto espaço de sete décadas vai mais do que dobrar sua expectativa de vida. E, o que é melhor, parece que em boas condições de saúde, mobilidade e independência.

Quem estiver hoje na casa dos 60 anos, ao olhar para trás e se lembrar dos avós, verá a imagem de pessoas na casa dos 50 e 60 anos com jeito, postura, roupa e cuidados de idoso. Para os jovens de então, apareciam como velhos. Mas esse quadro já muda quando olhamos nossos pais. Nessa idade não pareciam tão velhos quanto nossos avós. Ao contrário, tinham qualidade de vida e faziam coisas inimagináveis para seus pais.

Muitos, hoje na casa dos 60, se consideram verdadeiros meninos, ainda que isto não sendo mais bem verdade. Dificilmente um de nós se atreveria a tentar dar um salto mortal no trampolim da fazenda. Ou andaria pelas costeiras, com as ondas estourando próximas, as pedras escarpadas molhadas, lisas e com mariscos e ouriços do mar ameaçando a sola do pé.

Também não dá para imaginar subir correndo uma ladeira mais íngreme ou jogar futebol com pessoas mais jovens, na casa dos 30 anos. Tudo tem um preço e envelhecer, ainda que nos dias de hoje sendo um processo muito mais lento e amigável do que há 40 anos, não é diferente. O corpo não é mais o mesmo, os reflexos não são os mesmos e os músculos sentem a passagem dos anos.

Mas a perspectiva de uma vida mais longa e mais saudável ou, pelo menos, com o corpo menos envelhecido é real e faz parte do dia a dia da imensa maioria das pessoas. E isso é muito bom. Pelo menos para quem está vivendo mais e melhor.

Chora menos quem pode mais. É por isso que eu não invejo os desafios à frente dos Ministros da Previdência Social e da Saúde. Cada ano a mais de vida média da população é um complicador sem tamanho para uma conta que não fecha faz tempo.

Como oferecer saúde por mais tempo e como oferecer aposentadoria digna se o cálculo básico não levou em conta que o cidadão, em vez de morrer com pouco mais de 50 anos, atingiria os 70, sem esforço e com qualidade de vida?

A verdade é que as previdências sociais do mundo inteiro estão se deparando com rombos cada vez maiores, em função do aumento da expectativa de vida e das mudanças nas formas das relações de trabalho, que afetam diretamente a constituição dos fundos de onde são sacados os valores para fazer frente às aposentadorias e à assistência médico-hospitalar.

É um quadro dramático, que tende a se tornar explosivo em função da sociedade, em vários países, não estar interessada nas mudanças necessárias para tentar reequilibrar o caixa.

Como o drama da previdência social é muito mais agudo do que a situação da previdência complementar e dos planos de saúde privados, não é comum as pessoas falarem do tema e dos impactos dramáticos que o aumento da longevidade pode ter sobre eles.

O fato é que a conta no setor privado pode ficar tão complicada quanto no setor público e pelas mesmas razões. Basicamente, os cálculos atuais não levaram em conta os aumentos violentos nos custos em função da necessidade dos serviços serem garantidos ao longo de um período de tempo muito maior.

Uma coisa é se aposentar aos 55 anos e morrer aos 60 ou 65. Outra completamente diferente é se aposentar com os mesmos 55 e viver bem até 75 ou 80 anos.  São 20 anos a mais que serão custeados mensalmente pelos planos de previdência complementar e pelos planos de saúde privados. Estes, no Brasil, com mais uma agravante: em função da Lei dos Planos de Saúde Privados e do Estatuto do Idoso, os planos de saúde não podem ser reajustados em função da idade, após o segurado completar 60 anos de idade.

É indispensável que sejam introduzidas mudanças radicais na forma de custeio tanto da previdência e da saúde pública, como da previdência complementar e da saúde privada. A cada dia que se adia a solução para o problema, o quadro se agrava. O risco é ele se tornar insustentável antes que a sociedade se disponha a fazer as mudanças necessárias.