Algumas dúvidas sobre os seguros de pessoas

Com o impacto da tecnologia cada vez mais avançada sobre a saúde e a genética, precisa ser lembrada a função de proteção social da atividade seguradora.

Antonio

29 Agosto 2018 | 09h19

As mudanças tecnológicas estão impactando fortemente a economia como um todo. Produtos tidos como insubstituíveis até há poucos anos não existem mais, erros estratégicos desmontaram gigantes da indústria, determinadas atividades passaram por profundas modificações, outras perderam o sentido e uma infinidade de novos negócios surge todos os dias, alterando e simplificando as relações de todas as naturezas.

Neste cenário extremamente fluido, as mudanças acontecem numa velocidade impressionante, deixando para trás tecnologias recentes como se fossem coisas do século passado. Quem se lembra do Orkut? Não faz muito tempo, era o campeão absoluto da Internet. Quem ainda fala num celular Nokia? Quem usa fax? Quem não se rendeu às redes sociais?

A cara do mundo mudou radicalmente na última década e deve mudar mais radicalmente ainda nos próximos anos. A revolução por que estamos passando está no começo do começo e não é possível para nós, gente comum, imaginar o que vem pela frente. Mas os estudiosos e os que vivem neste universo já falam em robôs mais inteligentes do que os seres humanos, em viagens interplanetárias e em outras possibilidades que fazem os carros sem motorista já serem velhos, ainda antes de terem entrado em cena.

A nova realidade tem impacto impressionante no campo da saúde e da genética. A quantidade de medicamentos e equipamentos que surgem todos os dias alteram radicalmente a forma de se tratar destes assuntos. Da mesma forma que as descobertas no campo do estudo do corpo humano fazem com que mistérios insondáveis se transformem em realidade banal.

A cura do câncer ou de terminados tipos da doença é real e beneficia regularmente um número cada vez maior de pessoas que, poucos anos atrás, estariam condenadas à morte. Outras doenças perderam sua letalidade aumentando em muito a expectativa de vida.

Os robôs e as novas tecnologias estão na beira de aperfeiçoar a precisão dos laudos dos exames médicos, com ênfase nos exames de imagem. Robôs substituem a mão do homem em bom número de cirurgias. Os danos colaterais são reduzidos e por aí vamos, numa curva ascendente interminável, que melhora diariamente a qualidade de vida das pessoas.

Estes avanços, como não poderia deixar de ser, têm impacto profundo na atividade seguradora. No campo dos seguros de coisas as mudanças já permitem a precificação dos riscos levando em conta as características de cada segurado, bonificando os bons em vez de privilegiar os maus, como acontecia até há poucos anos.

A questão que se coloca e que ainda não tem uma resposta satisfatória é como ficam os seguros de pessoas. Os avanços da ciência permitem uma exatidão na análise de cada segurado que era impensável não faz tanto tempo.

Os ganhos da genética permitem a realização de exames acurados que apontam com enorme exatidão as probabilidades de alguém ter ou não ter uma determinada patologia, quer hereditária, quer absolutamente pessoal.

É quase possível prever a longevidade de um indivíduo com base nos resultados de exames cada vez mais sofisticados. E a utilização desta tecnologia será cada vez mais comum no atendimento médico-hospitalar.

Se para os seguros de coisas a adoção da tecnologia representa um ganho importante, será que nos seguros de pessoas a mesma verdade pode ser considerada?

Será que é socialmente ética a adoção dos resultados dos exames feitos por uma pessoa como parâmetro para aceitá-la e precificar o seguro de vida, o plano de saúde ou a previdência complementar?

A seleção tecnológica dos riscos não pode inviabilizar a contratação de seguro porque tem justamente maior necessidade deste tipo de proteção. Tendo acesso ao quadro de exames das pessoas as seguradoras escolherão aquelas com menor chance de problemas, em detrimento das mais sujeitas a eventos de saúde ou risco de vida.

Socialmente, seria uma forma incorreta de ação. É isso que precisa ser levado em conta para não permitir que a tecnologia deturpe a função de proteção social da atividade seguradora.