Calor abissínio

Não há mais a individualização do ser humano. Então, o castigo de calor e pernilongos vai para todo mundo!

Antonio

24 Janeiro 2019 | 07h30

Eu não tenho dúvida, o verão está cada vez mais quente e o tempo mais louco. Em novembro, tivemos dias de frio, de usar casaco grosso e dormir com dois cobertores. Depois tivemos dias escaldantes, de querer ficar nu no meio da rua e arrumar um ventinho para refrescar o forno dos dez círculos do inferno.

Tem quem vai dizer que os círculos do inferno iam além do calor das fornalhas. É verdade, tinha gelo e outros suplícios fantásticos, mas poucos se comparam ao calor insano que faz nos dias de verão, especialmente de noite, quando, quem não tem ar condicionado, ainda por cima é devorado pelos pernilongos.

Já ouvi que é tudo por conta de um acerto entre o diabo e o divino. Como o inferno está com a lotação esgotada, com jeito de penitenciária brasileira, e a turma dos direitos humanos pode processar o demo por conta da superlotação e o Supremo pode dar uma liminar mandando esvaziar dois terços de quatro quintos do pedaço, os céus autorizaram o tinhoso a se acertar com algumas prefeituras para antecipar o castigo eterno e punir indistintamente todo mundo que mora na cidade.

É um processo um tanto primitivo, uma vez que pode punir os santos com a mesma crueldade aplicada aos pecadores, mas, em época de cultura de massa e redes sociais, não há mais a individualização do ser humano. Quem mandou estar na cidade errada, no verão errado? É tudo farinha do mesmo saco. Então, calor e pernilongo em todo mundo!

Até alguns anos atrás, havia dias muito quentes, mas não eram a regra. Iam e vinham, dando um certo conforto, que dispensava o ar condicionado como equipamento essencial à manutenção da vida. Hoje isso acabou. Quem tem, tem e se refresca na sala fechada. Quem não tem, não tem e come o pão que o diabo amassou com requintes de crueldade.