Ele para você é problema dele

A famosa frase de William Scott Pitt perdeu a individualidade e tornou-se coletiva. Chegou a um extremo de egoísmo definitivo desesperador...

Antonio

21 de novembro de 2019 | 09h17

O primeiro corolário do primeiro volume do primeiro tomo da magnífica obra do filósofo William Scott Pitt, que a partir de do século 16 influencia as sociedades, como pilar para o desenvolvimento filosófico e intelectual da civilização ocidental, com todo o impacto que teve sobre a história da humanidade, é lapidar.

“Você para mim é problema seu”. Analise a profundidade da colocação, escrita com inefável simplicidade, para se abater como um tsunami sobre a costa baixa de uma região densamente povoada.

“Você para mim é problema seu”. É exato, perfeito, não necessita adjetivação para ser melhor compreendido.

“Você para mim é problema seu” leva o egoísmo humano ao extremo, ao ponto além da resistência da corda, ao cume, para além da possibilidade de outro além. É definitivo. Impositivo e profundamente verdadeiro.

Não há contra-argumento, não há negação, contraponto, desculpa.

É o egocentrismo do século 21 elevado à última potência, como a validação de todas as premissas negativas da física quântica. O avesso recosturado em outro avesso como a negação do mais importante mandamento. A redescoberta do amor como algo que não importa mais.

Ao andar pelas ruas das grandes cidades do mundo, Nova Iorque, Londres, Paris, São Paulo, tanto faz, poderiam ser outras dezenas, a imagem dura e impactante do morador de rua enrolado em seu cobertor velho é a certeza da vitória do egoísmo exacerbado, definido e tipificado pelo filósofo centenas de anos atrás.

“Você para mim é problema seu” se expandiu para “Ele para você é problema dele”. A escala se multiplicou, perdeu a individualidade, se tornou social, coletiva, desesperadora. E não há muito que se possa fazer.

 

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