Feriados e acidentes

O carnaval é e sempre foi dos feriados mais letais no Brasil. E as seguradoras sabem disso e, por isso, delimita e quantifica suas apólices já de acordo com essas estatísticas.

Antonio

15 Fevereiro 2018 | 07h11

Há sempre um momento em que aumenta a concentração dos acidentes causados por ações humanas. Há outro em que elas têm pouco peso na ordem geral das perdas. Entre os mais variados momentos, o momento crítico é o momento dos feriados. Em todos os países, a chegada dos feriados significa o aumento dos acidentes de todas as naturezas, direta ou indiretamente casados pelo ser humano.

Nem poderia ser diferente. O simples fato de ser feriado, de não haver a obrigação de se seguir as rotinas da vida, é suficiente para deixar as pessoas mais leves, mais relaxadas e, consequentemente, menos cuidadosas. A falta de atenção no feriado é marca registrada de praticamente todas as pessoas. Poder se vestir sem obrigação além de estar confortável, andar pela casa de sandália, sem hora para nada, a começar pelo café da manhã, beber a primeira cerveja do dia na hora que der vontade, tudo leva a relaxar e facilitar as coisas, propiciando a ocorrência de acidentes que poderiam ser evitados se as pessoas tivessem um pouco de cuidado, mesmo nas horas de diversão.

Na prática não é isso o que acontece. Os acidentes aumentam na mesma medida em que as pessoas ficam desobrigadas de suas tarefas rotineiras. É como se a falta de obrigação, de respeito ao relógio, fosse suficiente para desestruturar todo o ritmo da vida, jogando para escanteio as boas regras que imperavam até há pouco, ou até o momento da entrada em cena da certeza da falta de compromisso em função do feriado.

Se é feriado eu posso descansar, quer dizer, não preciso me preocupar com nada que faça parte do mundo real onde eu trafego de sol a sol, sete dias por semana, boa parte trabalhando.

Como não é hora de acontecer alguma coisa, a falta de comprometimento assume de vez o controle da situação e a vida corre solta, sem cuidados de nenhuma espécie, sem compromisso, sem hora de chegar ou hora de partir.

Os anarquistas dirão que isso é o paraíso na terra. Pode ser. Acontece que na segunda feira alguém tem que colocar ordem na bagunça e aí a onça pega, porque tem que limpar, arrumar e guardar, sem reclamações, resmungos ou outras formas mais ou menos veladas de protesto.

Os dias feriados têm a capacidade de romper esta lógica e colocar o mundo sob outra perspectiva, muito mais flexível e branda do que as regras tradicionais que pautam a vida das pessoas, quase que diariamente.

É neste formato que o aumento dos acidentes precisa ser lido e contextualizado.  Não adianta pretender mexer seja lá no que for sem antes se saber com certeza o que se quer e como serão os trabalhos vinculados às mudanças e ao planejamento do novo projeto implantado numa área nova e desconhecida.

Tem quem ache que isso é balela, mas estão profundamente enganados. A Terra gira da forma que gira porque foi a forma escolhida por Deus para dar conta da obra.  A nós resta nos adaptarmos de acordo com o balanço do barco.

Entre os feriados mais letais, nenhum, no Brasil, chega perto dos estragos que se sucedem nos dias de carnaval. São quatro dias, mas são mais do que suficientes para arrancar leite de pedra e encher as enfermarias dos prontos-socorros com vítimas de todas as naturezas.

As seguradoras sabem disso. Elas têm as tabelas estatísticas necessárias para desenhar a tábua de sinistralidade de suas carteiras de forma perfeitamente acurada. Pode acontecer um desvio ou outro, mas, na média, a Lei dos Grandes Números confirma o óbvio, a quantidade e a ordem de grandeza dos sinistros acontecidos num lapso de tempo.

É por isso que, tanto faz a carteira, a seguradora raramente erra quando delimita e quantifica suas apólices. Ela tem acesso aos dados anuais referentes aos acidentes e à época em que eles acontecem com mais intensidade.

Como, para efeito operacional, os prêmios são diferidos dentro dos meses do ano, na prática, a maior incidência de acidentes nos feriados, notadamente no carnaval, é ruim para os segurados, mas indiferente para as seguradoras.