Já foi mais saudável

Hoje todos nós, antigos mocinhos ou bandidos com revólveres de espoleta, temos medo de sair na rua, mas as crianças e adolescentes diariamente se banham em sangue diante de telas de videogames...

Antonio

02 Outubro 2018 | 10h39

É proibido vender revólveres de espoleta. As crianças de hoje não podem mais brincar de mocinho e bandido ou polícia e ladrão. Ficam horas na frente de jogos eletrônicos que espirram sangue e pedaços de corpos até o outro lado do universo, mas não podem brincar de mocinho e bandido, nem ter revólver de espoleta.

Quando eu era menino, brincávamos de mocinho e bandido pelas ruas do Pacaembu, sem outra preocupação do que a brincadeira, que invariavelmente implicava no ataque à trincheira da turma adversária, normalmente uma erosão num terreno baldio.

Nos sábados de manhã, eu saía de casa e atravessava o Cemitério do Araçá para cortar caminho e pegar o ônibus Ipiranga/Sumaré, na Avenida Dr. Arnaldo.

O destino era o Colégio Dante Alighieri, na Alameda Jaú, o que me fazia atravessar o Parque Trianon, sem nunca pensar em ter medo ou sentimento parecido. Andar por São Paulo, mesmo para um menino de 11 ou 12 anos, era seguro, não tinha qualquer ameaça ou problema que levasse os pais a considerarem perigoso.

Pouco mais velho, saía de noite e atravessava a cidade numa boa, andando com os amigos madrugada a fora. Teve noite que subimos a Rebouças dos Jardins até o Pacaembu porque não arrumávamos taxi.

Os taxis eram um capítulo à parte. A maioria era taxi mirim, um fusca sem o banco da frente, autorizado a transportar dois passageiros, mas que nas madrugadas levava tranquilamente seis moleques.

Na fazenda, andávamos a cavalo por toda a região, saindo para Campinas, Itupeva, Itatiba e Jundiaí em longos passeios, que às vezes levavam mais de um dia, com parada para dormir na fazenda de amigos.

Hoje isso é inimaginável, mas vender revólver de espoleta não pode.