Mudanças à vista

O assunto é muito sério para o mercado segurador internacional. Grandes e rápidas mudanças estão acontecendo em todo o mundo. E as seguradoras precisam se adequar aos novos cenários..

Antonio

07 de agosto de 2019 | 13h18

Uma pesquisa acaba de mostrar alguns pontos negativos do setor de seguros internacional. O primeiro, e com certeza mais grave, é que as seguradoras não entraram no século 21 e insistem em oferecer os mesmos produtos com que trabalhavam na segunda metade do século passado.

O resultado é que nos países ricos menos de 25% das empresas consideram seus seguros satisfatórios e, no campo dos seguros individuais, o número cai para menos de 15%. E a coisa fica pior ainda quando as avaliações entram nos planos de saúde e seguros para riscos cibernéticos.

Em relação aos riscos de origem natural, como as mudanças climáticas, o quadro não é melhor. Entre 1970 e 2018 as catástrofes naturais causaram prejuízos de 400 bilhões de dólares dos quais apenas 120 bilhões estavam segurados.

O que a pesquisa enfatiza é que é necessária uma revisão profunda das formas de fazer negócio em praticamente todo o mundo. As exceções ficam por conta das seguradoras chinesas, que devem se tornar as maiores companhias do planeta, e as resseguradoras internacionais, que acordaram para o novo cenário faz tempo e estão buscando soluções para os novos desafios, que podem inclusive alcançar ordens de grandeza inimagináveis poucos anos atrás.

Como se não bastasse o atraso e a consequente desconexão do setor com as necessidades da sociedade, um movimento inesperado das gigantes de tecnologia pode ser a maior de todas as ameaças para as seguradoras que demorarem a reagir.

Amazon, Apple e Google estão estudando seriamente entrarem no mercado de seguros, inicialmente, nos Estados Unidos. A principal motivação é o retorno de 24% que o setor vem dando para os acionistas. E o grande diferencial – e força – que elas têm são seus canais de distribuição, já montados e com capilaridade para atingir centenas de milhões de pessoas praticamente em todos os países, colocando à disposição delas seguros mais baratos e mais fáceis de serem contratados.

Curiosamente, as seguradoras parecem satisfeitas com o cenário atual, como se não tivessem se dado conta das sérias ameaças que pairam sobre seu negócio. As apólices oferecidas seguem no padrão tradicional, os riscos continuam sendo recusados e aceitos levando em conta as mesmas premissas de trinta anos atrás, enfim, as seguradoras tocam a vida como se a revolução que vai chacoalhando o mundo não afetasse o seu negócio.

Ainda que discutindo as mudanças introduzidas pelos novos valores sociais e suas consequências, como a utilização de transportes alternativos como solução para o automóvel, o mercado segue com as apólices tradicionais de seguros de veículos, investindo pouco no novo cenário representado pelo compartilhamento, uso de aplicativos, veículos sem motorista, carros elétricos, drones, transporte público, etc.

As novas gerações se habituaram a usar seus celulares como ferramentas multiuso, através das quais fazem praticamente todas as transações necessárias às suas rotinas. Isto quer dizer que, em muito pouco tempo, uma enorme gama de seguros será contratada através dos celulares, incluídos seguros para veículos, viagem, acidentes pessoais e até vida com resgate ou capitalização.

É aí que as gigantes de tecnologia levam uma enorme vantagem. O uso de celulares acontece através delas e, consequentemente, a contratação de seguros através de suas plataformas e em suas seguradoras tem tudo para ser o novo grande canal do setor.

Imaginar que isso não vai acontecer e que meia dúzia de regulamentações quase que desconhecidas vão trancar o mercado e impedir a chegada do novo é não ver o que aconteceu com os taxis depois da entrada em cena dos veículos por aplicativos.

Eles são a realidade. Estão aí para ficar, da mesma forma que os aplicativos de viagens e reservas de hotéis se impuseram como a forma mais utilizada pelos milhões de viajantes que atualmente se valem deles em vez de usar companhias aéreas, redes de hotéis e principalmente, agentes de viagem.

Nos dias de hoje, o cliente é o dono da bola, do campo e da torcida. Quem não entender e atender suas necessidades está com os dias contados.

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