O décimo segundo círculo

A falta de investimento em novas rodovias e na manutenção das existentes acabou fazendo do trânsito o 12º círculo do inferno de Dante.

Antonio

18 de janeiro de 2018 | 07h27

Depois de anos de ações profundamente planejadas, com suporte em investimentos maciços, o Brasil finalmente, neste réveillon, conseguiu emplacar o registro definitivo do décimo segundo círculo do inferno.

Uma zona tão apavorante que Sancho Pança não conseguiu imaginar nem na loucura de D. Quixote algo parecido; que Ulisses em sua viagem de volta para Ítaca nunca viu algo semelhante; que os portugueses não sonharam possível, mesmo depois do Bojador.

Dante, em seu inferno, não cantou espaço com castigo tão cruel, pena tão severa, sofrimento tão denso e tão profundo.

Não, coube aos brasileiros a glória de chegar lá em primeiro lugar, de conseguir o registro. É verdade, outras nações colaboraram para o sucesso da empreitada, mas a glória máxima, esta é brasileira e ninguém tira. Afinal, foram anos de trabalho deliberadamente feito para atingir o resultado.

Outros países investiram em rodovias, em ampliação da rede, em alternativas para facilitar e melhorar as condições das viagens. Além dos carros, oferecem ônibus, aviões e trens modernos e confortáveis.

Aqui, não. O foco foi outro. Desde a década de 1990 não se investe em novas rodovias. Pelo contrário, deixa-se deteriorar as que existem. A exceção é São Paulo, mas, mesmo no estado, não é bem assim.

As concessões são um sucesso, mas ninguém pensou em ir além delas. Enquanto a frota cresceu exponencialmente, as rodovias são as mesmas, algumas com mais pistas, mas com os mesmos gargalos intransponíveis. Não construíram estradas novas para aliviar as viagens.

O diabo está comemorando. O décimo segundo círculo está em franca operação e ele não precisou investir um centavo. O réveillon mostrou o tamanho do castigo e do sofrimento causados pelos congestionamentos. E a tendência é eles crescerem, liberando mais espaço no inferno.

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